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LUEJINGA A FILHA DO REI

                                Luejinga - A Filha do Rei

Naquele dia, houve noite estrelada, porque nascia a filha mais nova do rei. Houve uma festa. Uma festa como mandava a tradição. Houve marufo, calulu, funje, feijão de óleo-de-palma, quissângua, canjica e outros pratos do Reino.

Dia após dia, ela foi crescendo e, ainda muito pequenina, mostrava-se muito interessada no conhecimento de todas as coisas da sua tradição. Queria entender sempre a sabedoria dos mais-velhos.
- Papá, o que é aquele líquido branco que sai da palmeira? Perguntava a filha ao rei.

- É marufo, filha. Mas, olha, só os mais velhos o podem beber, porque embebeda.
- Mas, papá, então é álcool? Questionava outra vez a princesa.
- Claro que não, filhinha. É uma bebida natural. De manhã, muito cedinho, uma pessoa sobe na palmeira, faz um pequeno furo em cima com catana ou uma faca grande, amarra um pequeno bidon com o gargalo virado para o furo feito e deixa que, durante o dia e a noite, saia um líquido branco, gota a gota, até encher o cantil. No dia seguinte, a pessoa volta para buscar o bidon já cheio. Não é como outras bebidas feitas pelo homem.
Explicava o pai à sua menina bastante curiosa.

Como ainda não havia relógio, a menina descobriu que as horas podiam ser calculadas de forma mais correcta se se controlasse a movimentação das sombras, durante o dia, pela posição do sol. E, durante a noite, a luz do luar ou a hora em que os animais se recolhiam podiam ditar que horas seriam. De manhã, sabia que eram cinco horas, pelo segundo canto do galo. Mesmo que não houvesse sol, luar ou o canto de um galo, por causa da habituação do corpo, da forma como funcionava o corpo humano, podia adivinhar que horas eram em cada reacção no seu físico ou na mente. Por exemplo, ela calculava que eram treze horas, porque sempre que chegasse aquela hora, fizesse sol ou chuva, tivesse almoçado ou não, sentia sono ou bocejava muito. Os mais velhos, os anciões, os conselheiros do rei e o próprio soberano notavam que aquela filha era diferente das demais crianças, até dizia coisas nas quais os mais-velhos ainda não haviam pensado.

O tempo andava como as nuvens no céu e como o tempo andava também a idade da menina. A sua curiosidade sempre a tornava mais questionadora. Queria perguntar sobre tudo, queria fazer de tudo, até as coisas mais ligadas aos rapazes. Nem mesmo os rapazes da ombala, que era o palácio do rei, a casa nobre onde viviam as outras pessoas com quem a única filha do soberano crescia e brincava, se mostravam tão interessados e curiosos com os assuntos dos mais-velhos.

O rei gabava-se, elogiava a filha diante de todos os seus conselheiros.
- Essa menina é o meu orgulho. Se fosse rapaz, eu escolhê-la-ia para me suceder ao trono.
Comentava o soberano aos dikotas ou muatas, os outros mais velhos que eram os seus conselheiros, porque um soberano, um rei, nunca podia governar sozinho, precisava sempre de conselhos prestados pelos membros nobres do Reino, eram ajudas de luzes.
Primos, parentes e irmãos sentiam-se enciumados, causava-lhes alguma inveja a maior atenção que o pai dava à sua predilecta que, agora, já tinha muitas competências, muitas qualidades e sobretudo um coração do tamanho daquele grande Reino.

Certo dia, quando já não era uma menininha, mas uma jovem, enquanto voltava da caça, sentiu o coração a palpitar mais rápido, ouviu trovões, os pássaros estavam inquietos, havia vento forte que agitava as árvores e a água:
- Alguma coisa mito grave se está a passar. Pensou a jovem, muito preocupada.

Mais tarde, ela viria confirmar que o soberano estava a sucumbir, estava a falecer, aos poucos, perdia a fala e o movimento do corpo. No seu quarto nobre, para onde só os membros de alta confiança podiam entrar com uma autorização, estava ele a implorar com sinais dos olhos e gestos - pois já mal podia falar - para que trouxessem a sua filha, aquela em quem mais confiava e de quem mais recebeu amor e carinho.
Tendo ela adentrado, diante dos dikotas ou muatas, os conselheiros do rei, o pai esforçou-se para dizer as suas últimas palavras para que todos as ouvissem. E surdinou:
- Olhem, eu bem queria que o meu sucessor fosse uma outra pessoa, mas só tu, minha filha, adquiriste sabedoria e mostraste interesse em aprender. Só tu podes governar com amor o teu povo. Não se pode governar pela força dos braços, mas pela força da mente. Aprendeste que orientar os povos é preciso ouvir, compreender e ter coragem. Coragem e sabedoria já as tens.

Então, mal conseguindo apertar a mão à filha, o soberano partira para o mundo da eternidade.
Houve lágrimas e tristeza naquela hora, mas, depois, as pessoas dançaram, cantaram e celebraram por sete dias, porque se acreditava que, quando a pessoa falece, o espírito vai para um mundo de descanso, já não sofrerá.

Passaram-se alguns dias e os dikotas ou muatas, aos quais competia o anúncio do novo rei escolhido pela idade, experiência e respeito, convocaram os sobas, que eram os chefes das aldeias e dos bairros, os regedores, que eram os chefes dos sobas e a população, para comunicar a decisão e vontade do antigo soberano, antes de partir para viver junto das estrelas. Depois de se anunciar a nova rainha, a sucessora do rei, embora muita gente tivesse adorado, por ser a primeira mulher a herdar o trono do Reino, alguns ficaram com receios. Alguns rapazes de dentro da sua família detestaram esta notícia. Alguns esperavam que fossem eles os herdeiros. Ficaram furiosos. O filho mais velho do rei cerrou os dentes de raiva, pois, pela ordem natural e pela tradição, o filho mais velho é quem devia substituir o pai. Mas não aconteceu, por mau comportamento.

Então, um dikota ou muata, com noventa anos de idade já, subiu num palco que estava no jango, um espaço circular coberto de capim, onde se reuniam as pessoas convocadas pelo soberano ou por outro membro do conselho da Realeza, e proclamou:
- A partir de hoje, não temos um rei, mas temos uma rainha.
A rainha de todo o Reino, de todas as aldeias e povoações, de todos os bairros e lugares distantes, aquela que outrora era uma menina curiosa e esperta, mas que agora estava uma mulher crescida, madura e inteligente, chamava-se:

(Agora, tu que estás a ler ou ouvir esta estória, deves escolher qual dos nomes queres para a rainha. Rainha NJINGA ou Rainha LUEJI? Se escolheres Njinga, lê só a estória dela, que é uma continuação do que já leste. Se escolheres Lueji, lê apenas a estória desta, que é, também, uma continuação do que já leste. E noutra oportunidade, poderás trocar).

A) A RAINHA NJINGA
Essa mulher crescida, madura e inteligente, que era uma criança que queria sempre conhecer tudo e fazer as coisas, chamava-se Njinga.
Não havendo ainda espelho, a bela mulher, para se preparar, para enfeitar o seu lindo e escuro cabelo africano, deixava o sol entrar pela janela do seu nobre quarto e reflectia na parede, bem ao fundo. Daí, ela atravessava-se ao reflexo e o sol que penetrava pela janela desenhava o seu corpo na parede como se fosse um espelho. Se fosse à noite, fazia-o com a luz do luar. Se não houvesse nem sol nem luar, acedia, de noite, uma tocha. De dia, usava o reflexo da água. Era uma descoberta sua, antes, ninguém sabia como era o seu corpo.

A população amava a sua rainha, porque esta se preocupava com todos. Era brava, não gostava de pessoas que não fossem trabalhadoras e que não ajudassem nos trabalhos em grupo. Gostava que houvesse justiça para todos. Sua pele era muito escura e lisa, bastante brilhante, muitos homens sonhavam com ela, desejavam-na, era elogiada pela cor da sua pele.

Num dia qualquer, uma mulher idosa e invisual, que nasceu com falta de visão, caminhava com uma vasilha à cabeça em direção ao rio, em busca de água para o consumo. Njinga notou que ela embatia os pés no chão rugoso e que tinha os dedos todos feridos, fazia a caminhada com muita dificuldade. Apercebendo-se a linda e inteligente mulher que havia mais pessoas naquelas condições, no povoado, a rainha então ordenou que se produzisse um sistema de corrimão por meio do qual as pessoas que não pudessem ver podiam chegar ao rio e voltar, em segurança, sempre às apalpadelas. Os trabalhadores esticaram cordas duras a partir das casas destas pessoas até ao rio. Fizeram-no muito bem, pensando numa forma de elas não se chocarem ou não encontrarem caminhos com buracos ou outros perigos. Como no rio grande, às vezes, apareciam alguns jacarés, ligaram as cordas a outros rios mais pequenos e seguros. Assim, os invisuais podiam ir e voltar do rio segurando uma corda, com uma das mãos, enquanto a outra podia aparar a vasilha na cabeça, se fosse necessário. Dentro da povoação, podiam andar com ajuda dos habitantes. Todas as pessoas com deficiências físicas mais incapacitantes podiam trabalhar no palácio e receber ajudas de todo o tipo.

E o tempo foi passando a seu tempo, a rainha melhorava o que estava bem e mudava o que estivesse mal, sem grandes problemas para a população.
Certo dia, uns assaltantes que vinham de uma terra muito, muito, muito distante chegaram e raptaram algumas pessoas do Reino da Matamba, mataram muitas outras, queimaram casas e fizeram muitas maldades, enquanto a soberana estava num rio distante, à conversa com os seus antepassados, para que estes lhe dessem mais sabedoria e luz na decisão sobre os problemas do seu governo.
De regresso, Njinga Mbandi ficou muito indignada: - Mas esta gente malvada, que não tem coração, vai pagar por todo este sofrimento ao meu povo.

Tendo passado muito tempo, a sábia mulher deixou que aqueles assaltantes que tinham matado, ateado fogo nas casas, causando dor e sofrimento ao seu povo se esquecessem do que haviam feito e se deixassem desprevenidos.

Numa certa manhã, depois de a sua caravana caminhar por alguns dias, a rainha surpreendeu os seus inimigos. Porém, quando todos pensavam que haveria sangue, assassinato, vingança e guerra, a soberana ordenou aos guardas daquela terra distante que a deixassem falar com o seu maior representante.

- Senhor, venho de muito distante, não pretendo guerrear, só vim em busca de paz. Exijo que me devolva as minhas irmãs e os meus irmãos que você raptou. Posso fazer alianças com vários governos irmãos, o meu exército está mais forte, há muitas mulheres e muitos adolescentes corpulentos bem treinados. Peço que vá em paz, que abandone a nossa terra. Eu podia ter invadido, mas preferi vir em negociação de paz.
Então, aquele senhor cujo nome ninguém se lembra, apercebendo-se de que podia estar em desvantagem - temendo pela coragem daquela mulher - imaginou que lhe estivessem a preparar uma emboscada, uma armadilha, ficou com muito medo das palavras da bela mulher e decidiu devolver as pessoas raptadas e pedir desculpas. Ainda ofereceu presentes à rainha. Deu vinho, tecidos, espelhos e outros agrados.
Mas a experiência de Mbandi, que significa pessoa capaz, competente e sábia, sempre a obrigou a estar desconfiada. Aceitou e retirou-se. Foi uma batalha sem sangue, sem guerra, só na base da conversa. Ela era conhecida pela capacidade de resolver os problemas na base da conversa.

Alguns anos mais tarde, o reinado de Njinga foi outra vez atacado, mas esta já estava preparada. Quando os assaltantes vieram, não conseguiram fazer o que tinham feito antes, pelo contrário, muitos assaltantes morreram, a própria soberana foi combater com a sua espada que muito bem manejava, outros guerreiros usavam zagaias e flechas perigosas. Alguns fugiram, outros morreram e houve uma grande derrota dos assaltantes.

Njinga ganhou várias batalhas, ela era a comandante da sua tropa, sempre com ajuda dos membros importantes do Reino, os dikotas. Sempre a primeira a enfrentar os inimigos, mas só havia guerra, quando os adversários não quisessem conversar para encontrarem a paz.
Essa mulher linda, inteligente, corajosa, brava, guerreira e destemida, que não tinha medo – mas respeito, venceu muitas lutas, ajudou o seu povo a resolver demasiados problemas, protegeu os mais fracos, distribuiu terras para todos; quanto mais filhos houvesse numa família, maior era o terreno. Ela protegia as aldeias distantes contra os inimigos e, em troca, estes pagavam uma pequena contribuição ao governo. Pagavam com a moeda chamada zimbo. Quando não houvesse, entregavam alguns alimentos ou animais.

Um dia, chegaram ao palácio informações de que um senhor errava sempre o nome das pessoas. O que se sabia era que o fazia de propósito, para provocar e criar confusão, por desrespeito aos outros. Se a pessoa se chamasse Uanhenga Xitu, o senhor chamava-a por Canhanga Xita. Depois de a rainha o ter chamado ao palácio, certo dia, para saber mais sobre aqueles episódios, o homem fez algum descaso e dizia que aquilo não era um grande problema. No final da conversa, ainda a chamou por Rainha Xinga, em vez de rainha Njinga. Isto deixou-a enfurecida, muito enraivecida, porque xinga significa ofensa, insulto, amaldiçoar. Mas tinha que pensar numa forma sábia de ensinar aquele senhor que o respeito era a base da paz e do amor entre os seus habitantes.

Quando já todos se haviam habituado com aquele maldizente, até já se tinham esquecido, passado muito tempo, eis que apareceram ao palácio uma senhora e um senhor com uma maka. O casal queria a decisão da maior magistrada, da maior juíza do Monarquia, sobre quem ficaria com a casa, porque estava o casal em separação. Foi peremptória, decidida e rápida a deliberação da soberana.
- A casa deve ficar, claro, com o senhor Kizua. Enquanto a majestade apontava o dedo em direcção à mulher, mais embaraçados ficavam os presentes no salão nobre.
- É mesmo isso que vocês ouviram. A senhora Kassua deve abandonar a casa. Dizia ela, apontando o dedo na direcção do ex-marido, enquanto se retirava da sala. A decisão de uma pessoa soberana era inquestionável, principalmente, se contivesse algum senso de justiça. Só minutos depois, chegando para perto do casal um conselheiro, se soube que a rainha havia decidido a favor da senhora Kassua, mas como os nomes eram parecidos, confundiu-os como sempre o fizera o senhor Kizua. O machado esquece sempre, mas a árvore não. Talvez tivesse aprendido uma grande lição e soubera a importância de chamar alguém pelo seu próprio nome.

Muitos e muitos anos mais tarde, depois de os assaltantes terem matado Njinga, quando ela estava já velhinha e sem o mesmo vigor da juventude, acredita-se que a rainha ressuscitou mais forte ainda e encarnou nos corpos dos combatentes que conseguiram a independência desse e de outros reinados vizinhos. Pouco tempo depois, o Reino uniu-se a outros e formaram uma grandiosa Nação que viria a chamar-se Angola. Então, o exército cresceu tanto, tanto, tanto, que nunca mais os assaltantes voltaram para os fazer mal. Unidos eram mais fortes.

Hoje, acredita-se que muitos dos habitantes dos grandes governos da Matamba e do Ndongo, principalmente os guerreiros e as guerreiras, têm sempre um kalundu, um espírito de valentia, inteligência, coragem e bravura de Njinga, que os protege de todo o mal e ajuda a andar num caminho de liberdade.

B) RAINHA LUEJI
Essa mulher já crescida, mais madura, linda e inteligente, que já não era uma criança, chamava-se Lueji.
Não havendo ainda nem escrita nem papel, a rainha dizia sempre que era importante escrever ou gravar os momentos no coração, para, mais tarde, passar os segredos aos meninos e às meninas que mostrassem interesse como ela também o fizera, um dia.

Num belo dia, dois homens que haviam discutido muito, muito e muito, tendo-se prometido luta até a morte, decidiram apresentar queixa à soberana, devido à divisão de dois terrenos.
- Muata, o meu terreno mede mil e trezentos passos, mas este senhor, que é meu vizinho, diz que o meu deve medir mil e duzentos. Eu não aceito, porque quando herdei dos meus antepassados até era maior.
Explicava um dos queixosos à rainha.

Depois das queixas de parte a parte, Lueji chamou dois guardas para que estes fossem ver a localização dos terrenos e fazer toda a caracterização dos mesmos. Os homens fizeram tudo quanto ordenara a bela e inteligente líder, regressaram e segredaram ao ouvido dela tudinho.
Então, decidiu a rainha:
- O senhor Muatchiânvua deve ficar com o terreno que mede mil e duzentos passos. Já o senhor Kazevo ficará com o maior terreno, o que mede mil e trezentos passos.
Todo o jango ficou a murmurar, ninguém percebia aquele veredicto, era injusta aquela deliberação.
- Então, os senhores vêm resolver um problema e saem com outro maior. Esses vão-se matar. Cochichou um muata no ouvido de outro.
- Silêncio! Silêncio! Silêêêêncio. Apascentou o recinto a rainha e decidiu explicar.
- O senhor Muatchiânvua é o mais velho entre os dois, tem quase a idade de ser pai do senhor Kazevo. Ele ficou com o terreno mais perto do rio, porque assim terá mais facilidade na rega e poupará esforço na distância entre o rio e o terreno. O senhor Kazevo, por ser muito mais novo, ficará com o maior terreno, porque tem mais vigor e força para cultivar num espaço maior e contribuir mais para o bem de todos.
Dessa vez, não se ouviram murmúrios, mas salvas de palmas e assobios, pela forma justa e inesperada como a soberana rainha Lueji resolvera um caso de luta e morte. E as duas partes saíram satisfeitas, até se abraçaram.

Certo dia, depois de o seu exército ter registado algumas fragilidades, algumas fraquezas, Lueji, rainha do Império ou Reino Lunda, decidiu que os meninos adolescentes devessem começar a treinar a caça, a pesca e algumas técnicas de combate, pois alguns jovens que aí estavam eram um pouco incapacitados e despreparados. Então, convocou os muatas, que eram as pessoas que aconselhavam a soberana, para lhes comunicar da sua ideia.
- Muatas, reparei que os nossos guerreiros estão muito fracos. Eles, coitados, chegam tão tarde ao exército e têm poucas semanas de treinamento. Eu penso que, se nós criarmos uma escola para onde eles deverão ir enquanto ainda são mais jovens, onde possam aprender muita coisa, seria muito bom. Assim, eles já chegam mais fortes.

Depois do discurso da rainha, foi criada uma escola que se chamava Mukanda, uma escola onde se aprendia a ser homem forte, a respeitar os mais velhos, a nadar, caçar, pescar, dançar, cantar, lutar, a respeitar e proteger uma menina e a fazer tudo. Para que as meninas não ficassem em desvantagem, criou também uma escola de iniciação para a meninas, onde aprendiam a ser boas esposas, boas mães, boas guerreiras, excelentes companheiras que ajudassem nas tarefas do Império. Mesmo que uma menina tivesse desejo de fazer as tarefas que competiam aos rapazes, e ela tinha este direito, ela primeiro devia frequentar a escola que se chamava Efico.

Foi assim que, com sabedoria, a soberana Lueji conseguiu obter guerreiros fortes.
Numa noite de tempo chuvoso, chegou um homem de uma povoação muito distante, acompanhado de dois outros guerreiros, muito triste e preocupado.
- Soberana, por favor, venho pedir a vossa ajuda! Fomos atacados e assaltados, não sabemos quem foram. Disseram-nos que a partir daquele dia, nós passássemos a trabalhar para eles e a pagar tributo, que estávamos obrigados a pagar elevada quantia de dinheiro ou mercadoria a eles, por causa da terra que dizem ser deles. Se não o fizermos, teremos de deixar a terra ou nos matam.

Tendo a soberana rainha ouvido - e com muita atenção - aquele homem a explicar, já quase sem voz e cansado, a implorar e a lamentar, pediu mais esclarecimentos sobre os invasores.
- Vai e comunica ao teu povo que estará em segurança, de hoje em diante, desde que aceite ser parte do meu Império.
Sugeriu a sábia, linda e bondosa mulher. Mesmo tendo aceitado a proposta que era muito boa, pois todas as povoações queriam fazer parte daquele Reino tão grandioso, com guerreiros tão bem preparados e de muitas lutas vencidas, ainda duvidou:
- Mas como, como é que estaremos em segurança, se não sabemos quando é que eles voltam? Se vocês ainda cá estão e nós lá sozinhos, com guerreiros sem armas eficazes?
Voltou a questionar o pobre homem, já sem muitas esperanças.
Mas Lueji ordenou que este partisse e que trataria do resto, que não se preocupasse. E fê-lo.

Mal o dia amanheceu, aquela mulher corajosa e destemida, valente e guerreira orientava os seus combatentes para que perseguissem àqueles invasores de quem ela já bem desconfiava. Pintou o seu rosto com uma tinta preta, outra vermelha e outra amarela. E todos fizeram-no também, porque dava sorte, sentiam-se mais valentes e com os antepassados a protegerem-nos. Alguns comandantes e a soberana iam na frente e ao meio, os guerreiros seguiam pelos lados, à distância de um quilómetro. Atravessaram savanas e chanas, os capins altos que ocupavam uma vasta mata da parcela daquele território. Depois de alcançados, os invasores travaram uma grande batalha contra o exército da mulher. Vendo que estavam a perder, o líder daqueles pôs-se em fuga, alguns foram capturados, alguns bens recuperados. Mas a rainha continuou a persegui-los até desocuparem todo o território que pertencia ao grande Império, ao grande Reino Lunda. E conseguiu-o.

Em consequência de todas as batalhas ganhas, e com poucas perdas, as povoações que ficavam ao redor só queriam fazer parte do Império. Foi assim que o Reino cresceu ainda mais e o seu exército melhorou. Novas armas foram desenvolvidas, flechas, azagaias e espadas.
Porém, um dia, já estando a rainha muito velhinha, o Império uma fortaleza a quem todos temiam, muitos anos sem que algum invasor o pudesse assaltar, vivendo em paz, só a resolver pequenos problemas internos, algumas povoações que faziam parte do grande império quiseram dividir-se. Alguns partiram para outras terras distantes. Então o Reino ficou mais fragilizado com essas divisões. Alguns anos depois, novos invasores conseguiram conquistar todo o território e as populações foram obrigadas a trabalhar para os invasores da terra longínqua.

Já tendo morrido velhinha, Lueji ressuscitou anos depois para proteger os seus netos, bisnetos, trisnetos, tetranetos e descendentes nas lutas e batalhas que pudessem vir a enfrentar contra qualquer invasor.
O Império Lunda dissolveu-se para se unir a outros e assim formarem, todos juntos, uma grande Nação chamada Angola, que fica numa terra distante e muito vasta. Hoje, aquela nação tem um grande exército, os seus guerreiros são valentes e ajudam a encontrar a paz noutros reinados distantes também, porque até hoje acreditam que paira sobre eles o espírito, o sentimento, a coragem e sabedoria da bela rainha Lueji.

HILTON FORTUNA DANIEL, Luanda, 2018.
Hilton Fortuna Daniel
Enviado por Hilton Fortuna Daniel em 12/04/2020
Reeditado em 12/04/2020
Código do texto: T6914809
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Sobre o autor
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