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A campanha do Sinhozinho

A edilidade era o sonho de Sinhozinho e parecia estar ao alcance, em meridiana luz do dia agora. Munido de uma maço de envelopes azuis, ele, que morava no Beco dos Canudos, em companhia da irmã Maria Benedita, saiu pelo fundo do quintal mesmo para abreviar caminho e deu no nosso beco que paralelo ao dos Canudos, era ainda sem saída, e nossa casa - entre as seis ou sete, então existentes - era a última, do lado de cima. As eleições municipais eram no iniciozinho da década dos sessenta.

Brincávamos à porta, donos de nós mesmos, já que papai e mamãe tinham o compromisso inarredável da fábrica de tecidos, e recebemos, entre curiosos e pressurosos aquele importante envelope não lacrado com a incumbência expressa de o entregar a papai.

Quando o destinatário chegou e abriu o envelope sem aparentemente comungar de nossa trepidação, leu para si e para nós aquela mensagem impessoal, datilografada de 4 ou 5 linhas, pedindo voto para verador, e agradecendo antecipadamente pelo apoio.

O muxoxo de papai não foi de desdém. Ele não era de caçoar do empenho alheio e apenas mostrou consistência com a sua descrença na política. Afinal, diferentemente de suas irmãs solteironas, nossas vizinhas de cerca, nem ao menos incluía a ave-maria no final do terço - que todos rezávamos com fé e empenho - pela alma do Getúlio, o pai dos pobres.

Foi, assim, só de realismo a sua reação pouco entusiástica com a campanha do Sinhozinho, que era pobre e funcionário público subalterno, por mais justificado que pudesse ser o seu sonho. E as urnas imparciais e implacáveis que eram naquele tempo só fizeram confirmar a nem-previsão de papai. E se salvava o envelope azul, sem sobrescrito, limpinho para nós.

O próprio Sinhozinho, cuja figura fazia lembrar muito aqueles  imortais desenhos de Péricles da revista O Cruzeiro, na pressa de aviar sua caminhada, como fizera para chegar até nós, cortando caminho pelo fundo do quintal, aparentemente se esquecera de ligar seu apelido ao nome de registro, que se não me engano, era Amado José de Oliveira, talvez a razão mais óbvia de seu  insucesso junto ao eleitorado.

E nessa mesma pressa, pouco tempo depois da revelação das urnas, Amado, numa fatal congestão, nem ao menos saiu da bacia onde se banhava, para ir ao encontro do Sinhozão, clemente e misercordioso, que por desígnio só Seu, ou divina compensação, a edilidade eterna lhe ofereceu.
Paulo Miranda
Enviado por Paulo Miranda em 05/07/2019
Código do texto: T6688961
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Sobre o autor
Paulo Miranda
Belo Horizonte - Minas Gerais - Brasil
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