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Os pelos da boca de Mad

 
Deve ter algum ponto de táxi na cidade onde um táxi esteja esperando. Esse lugar não tem mais taxistas ou noites de bebedeiras. Os bares fecham meia-noite e abrem apenas duas vezes por semana como se toda população tivesse morrido ou estivesse cansada demais para se divertir. Vai saber. Talvez todos estejam mortos de cansaço mesmo.

Eu saio quase todas noites procurando diversão. Minha casa costuma me esmagar entre suas paredes. É um lugar apertado que divido com minha amiga Mad. Todos a chamam de Mad, mas seu nome é Madalena igual a mulher da bíblia. Mas ela gosta que a chamem assim é aquela coisa de apelidos. Eles conferem uma coisa meio cool à pessoa, como codinomes de super heróis e vilões. Eu nunca tive apelido.

Então, deslizo os dedos pela tela lisinha do celular, as gotinhas de chuva me atrapalham a enxergar as mensagens do aplicativo. Esse que você fica abrindo e fechando o dia inteiro para ver se alguém se interessa em saber de você. Ninguém nunca se interessa de fato. Todos só te enviam algo quando querem atenção. É assim. Eu sou assim também.

Poxa, a chuvinha está virando uma chuvona. Corro para me proteger embaixo de um ponto de ônibus, mas ele está cheio de goteiras. Não adianta. Aceito me molhar e caminho duas quadras até chegar no meu prédio de apenas 4 andares. Eu moro numa kitnet para ser honesta. Não chega nem a ser uma apartamento. Não quero florear a história fingindo que moro bem e sou interessante. Não. Eu quero contar direitinho como as coisas são, por mais loucas que pareçam.

Subo correndo as escadas porque não temos elevador. E quando abro a porta me deparo com Mad sentada sobre um cara. Não do jeito que estão pensando. Não estava rolando nada sexual, ela estava só no colo dele vendo televisão, encolhida feito um filhote de gato.

Mad só vira a cabeça para minha direção e resmunga que cheguei cedo. O homem nem se mexe. Acho que está dormindo porque ele emite um ruído meio de urso. Eu aproximo dela, queria que minha noite fosse diferente. Queria ter ido pra um lugar legal com amigos que não consigo ter e quem sabe arranjasse um cara legal como os que a Mad arranja quase todo dia. Mas não. Eu volto pra casa cedo porque a noite me odeia.

Beijo o rosto da Mad e percebo sob a luminosidade da TV que ela não fez o "buço", está cheio de cabelos como um bigode de rapaz. Eu sinto vontade de beija-la como se fosse mesmo um rapaz, ficamos nos encarando de perto. Apaixondamente. Até que ela pisca por algumas vezes, sorrindo meio sem jeito e diz:

- Tem um pedaço de pizza na geladeira para você. 
Larissa Prado
Enviado por Larissa Prado em 20/05/2019
Reeditado em 19/07/2019
Código do texto: T6652226
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Larissa Prado
Goiânia - Goiás - Brasil
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(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 16/12/19 07:27)

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