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As Terras Escarlates - Versão completa

      É manhã na pequena cidade de Pardalo. Claro que não é uma manhã comum, não como era antigamente. As plantas adquiriram uma coloração diferente, desbotada. As cores das casas, das roupas, de tudo, pareciam ter sofrido uma mutação. Nada mais era como havia sido um dia.

      Pardalo era dividida em três grandes sítios. Jolin é o líder comunitário do maior deles, que é o sítio periférico. Essa região é muito pobre, com pouquíssimos recursos, e sofre ataques constantes, pois é a parte da cidade que protege as demais.
     
       Jolin é jovem, recém completou 25 anos. Era um rapaz forte antigamente, mas nos últimos anos, emagreceu muito devido à rotina cansativa e angustiante. Todos os problemas do sítio passam por ele, desde denúncias de crimes ali cometidos até situações de saúde, como a decisão pela eutanásia de algum dos habitantes.
   
       Hela, a irmã mais nova do Jolin, sai sempre para ir até a divisa colher alguns frutos roxos, que são equivalentes as antigas maçãs. A divisa do sítio é a única área que ainda produz alguns frutos não venenosos.

       A viagem era longa as vezes, e perigosa. Hela é uma menina ainda. Completou 14 anos na semana passada. Quando as escolas ainda funcionavam, ela era a melhor corredora das aulas de Educação Física. Ela é magra, com as pernas compridas, o que a torna bem veloz. Também é uma garota muito bonita, com cabelos castanhos até a cintura e olhos claros. Jolin tem muito medo quando Hela sai para a colheita, pois as leis nos sítios já não existem para todos. Mesmo existindo alguns líderes, as pessoas regrediram para um nível bárbaro praticamente.

       Hela estava quase na divisa de Pardalo, quando ouviu um estalo acima de sua cabeça. Olhou rápido e deu um passo para trás, imaginando que algo iria cair sobre ela. Nada caiu e a camada ainda estava ali. Continuou andando, mas agora com cautela. A parte externa do sítio é composta de vegetação baixa, quase uma planície gramada com alguns arbustos de altura média. A grama agora é seca, mas ainda tem a mesma aparência. Quando é pisada, ela quebra como um biscoito crocante.

       Hela estava chegando nas árvores onde colhe os frutos, mas ouviu novamente o estalo. Agora ela ficou com medo. Aproximou-se de um arbusto que era bem fechado, onde se sentiu segura para que pudesse olhar para todas as direções. Não viu nada novamente. Será que a camada estava quebrando?

       Levantou da grama, limpando os pedacinhos que ficaram presos ao vestido, enchendo os pés de migalhas. Continuou andando, mas agora mais rapidamente, em direção às árvores. Chegando lá, sentiu-se mais leve. Aqueles estalos deixaram um sentimento de aflição que fazia com que ela sentisse um aperto no peito. Parecia que era perseguida.

       Pegou o primeiro fruto, e antes de colocar no cesto, observou como a coloração havia mudado. Estava mais roxo do que de costume, mas parecia muito mais delicioso. Não resistiu porque estava faminta, e comeu. O sabor deixou ela com um apetite mais voraz. Começou a colher mais e mais frutos, e quando o cesto estava cheio, sentou embaixo da árvore e começou a comer.

        Após comer algumas frutas, sentiu-se satisfeita. Acomodou-se para descansar um pouco, pois teria que colher mais frutos antes de voltar para casa. Sentiu o sono chegar, e antes de fechar os olhos ouviu o estalo novamente, e agora foi muito mais próximo do que antes.

        Jolin estava preocupado com Hela. Era quase noite agora no sítio, e ela ainda não apareceu em casa. Levantou do sofá, calçou as botas e pegou sua espingarda. Conferiu se tinha munição e saiu em busca dela.
 
        À noite, os sítios são muito perigosos. Viram uma terra sem lei mais do que durante o dia. As pessoas cometem crimes sem pudor algum. Matam alguém para pegar um prato de comida. Jolin estava passando pela área final antes de começar a planície gramada quando ouviu passos rápidos e numerosos logo atrás. Correu e escondeu-se atrás de uma mureta. Quando parou de ouvir os passos, preparou a espingarda e ficou mirando a curva do muro. Ouviu uma voz bem do lado dele, mas do outro lado do muro, o que o deixou alerta. O primeiro homem surgiu por de trás do muro, e caiu logo que entrou na mira de Jolin. Ele acertou o disparo bem no meio dos olhos do homem. Menos um.

       Os outros dois homens que estavam atrás do muro tentaram pular por cima para pegá-lo, mas Jolin já estava pronto, e quando as cabeças surgiram por cima do último tijolo, ele acertou com a coronha da arma um golpe horizontal que atingiu os dois na lateral do crânio. Os dois caíram, mas ele não quis ficar ali para ver se aqueles ratos haviam morrido ou não.

       Seguiu viagem, agora já na planície gramada. Com dificuldade de enxergar no escuro, tentou seguir os rastros de Hela pelo caminho, mas a lua a muito não abençoava o mundo com sua luz.

      Não demorou muito, chegou nas árvores roxas. Começou a correr de uma em uma, gritando por Hela. Nenhuma resposta veio. Ele estava esgotado já, mas determinado em encontrar sua irmã.

      Quando chegou na última árvore antes da camada, viu o cesto dela atirado ao chão, com os frutos espalhados ao redor, mas nada de sua irmã. Ficou desesperado. Será que os homens que o perseguiam fizeram algo a ela?

      Começou a correr de volta pela planície, quando ouviu um estalo seguido de um grunhido. Virou para trás e sentiu uma ardência no peito, seguida de uma dor aguda horrível. Era Hela, ou parecia ser ela. Sua mão havia passado pelo peito de Jolin, mas não atravessou. Ele olhava fixamente para ela, encarando o sorriso diabólico que a irmã apresentava no rosto. Sentiu a mão apertar seu pulmão, e então o mundo para ele ficou escuro.

****

       Já haviam passado alguns dias desde a saída de Jolin e de Hela, e nenhum dos dois havia aparecido na comunidade ainda. Os moradores começaram a ficar com medo, pois Jolin era a lei do lugar. Era um jovem muito justo e não permitia que as pessoas do lugar sucumbissem à selvageria. Se ele viesse a morrer,  a ordem do lugar estaria com os dias contados.

Foi na quarta noite após o sumiço de Jolin que aconteceu. Um garoto que perambulava pelas vielas revirando o lixo em busca de alimento foi quem a viu primeiro. Ele estava abrindo uma sacola dentro do contêiner de lixo quando ouviu um barulho horrível, que parecia um grito de animal com dor. Lembrou que seu cachorrinho havia ficado na esquina logo adiante esperando por ele, então correu para lá esperando o pior. As pessoas nos sítios viam os animais como inimigos ou como comida.

Ao chegar à esquina, não viu o cão. A corda onde ele estava preso havia sido cortada, ou melhor, mastigada. Ele dobrou a esquina e foi procurar atrás de uma casa. Ele ouviu ruídos fracos vindo dessa direção. Correu o mais rápido que conseguiu, mas, ao chegar mais próximo do som, seu coração pulou no peito.

O pequeno cão estava atirado logo à frente de onde ele parou, ou metade dele pelo menos. Logo à frente, ouviu um som profundo, distante, mas que parecia estar dentro de sua cabeça. Era parecido com um assovio muito sútil e de timbre grave, quase como a respiração de alguém que está com o nariz entupido. Chorando pelo amigo, decidiu se aproximar do som. Queria ver que tipo de pessoa havia feito aquilo com um animal indefeso, e contaria a Jolin quando encontrasse com ele.

Havia uma caixa de madeira grande encostada na lateral da casa, bem ao fundo do terreno, e o som vinha dali. O garoto se aproximou até chegar à distância de um passo do fim da caixa. Estava paralisado de medo e ansiedade agora. O som havia parado subitamente. O silêncio trouxe um pouco de coragem, e ele decidiu se mexer. Por maior que fosse a pessoa, ela provavelmente estava abaixada, então ele teria vantagem em uma provável fuga.

Moveu o pé direito e antes que pudesse passar a cabeça pela caixa e olhar atrás, foi erguido do chão. Sentiu uma pancada enorme nas costas e sua visão começou a ficar escurecida. Mas a infância é uma das maravilhas do universo, e por ser um garoto forte e já treinado devido às dificuldades da vida na rua e na pobreza, o garoto conseguiu reunir forças para um golpe de sorte. Moveu as pernas para trás com toda força possível e acertou o que quer que fosse que estava ali. Sentia uma forte dor no peito, mas quando caiu no chão, levantou e correu sem olhar para trás. O único vislumbre de seu agressor  foi quando, ao olhar para um vidro que havia no outro lado da rua, viu rapidamente o reflexo de uma garota.

A comunidade despertava cedo, e alguns nem dormiam nos últimos dias pensando em onde estaria Jolin. Era conhecido que ao final do terceiro sítio, havia uma parede de alguma substância que não permitia nada passar. Muitos já haviam tentado sair. Porém, o contrário acontecia. Pessoas de fora de Pardalo conseguiam entrar, e era assim que eles sofriam alguns ataques.

Foi Xavier, o guardião do limite do segundo sítio, que encontrou o garoto. Ele havia atravessado toda a comunidade e chegado ao final do território do terceiro sítio. Estava com uma aparência horrível, e quando Xavier levantou o garoto para que ficasse sentado, viu que havia um buraco em suas costas.

O garoto havia perdido muito sangue, e pelo que parecia, estava morto. Xavier chamou seu colega e pediu para que trouxesse uma vasilha de água. O outro guarda então encheu uma vasilha e virou sobre o rosto do garoto. Para a surpresa dos dois, ele deu um suspiro forte, seus olhos abriram e ele gritou algo que eles não conseguiram compreender: “EU...N....AR...FOI...LA.”

A fala do garoto era pausada, ele não tinha força nos pulmões. Xavier pediu para que ele tentasse se acalmar, e que falasse mais uma vez. O menino ficou mais calmo, mas não por vontade própria. Uniu suas últimas forças e falou: “Foi Hela!”, então deitou a cabeça sobre a perna de Xavier e morreu.

Os dois guardas ficaram sem entender aquilo, pois Hela era considerada uma princesa do terceiro sítio. Era uma garota doce, amável, sempre preocupada em ajudar as pessoas que ali enfrentavam grandes dificuldades. Mas um fato era que alguém havia assassinado aquele garoto de forma cruel, e pelos exames posteriores, identificaram que seus pulmões haviam sido perfurados.

Após o fato, a comunidade ficou aterrorizada, pois havia muitos crimes no local, brigas, roubos, só que nunca com tamanha violência e frieza. O cão do menino também foi encontrado todo dilacerado, mas as partes estavam todas próximas ao cadáver, menos os dois pulmões.

O segundo acontecimento desastroso ocorreu dois dias depois do episódio da morte do menino e do seu cão. Uma cesta com os frutos que Hela costumava colher nas árvores da fronteira do sítio foi deixada em frente ao último mercado do lugar. A cor estava mais forte
e o aroma que exalava dos frutos era de dar água na boca. O dono do mercado resolveu vender os frutos, pois eram tão valiosos quanto ouro nessas épocas.

Os frutos foram vendidos rapidamente. Dentro do terceiro sítio, era praticamente o último luxo que existia. Os outros alimentos eram provenientes ou do abatimento de animais que eram criados pra esse propósito ou de raízes. Ultimamente, a miséria estava bem maior, a carne dos animais tinha um gosto horrível e as raízes eram secas. Ao final daquele dia, as pessoas começaram a reclamar de um barulho forte que era ouvido nas casas. Algumas pessoas procuraram os guardas das fronteiras para pedir auxilio, já que Jolin não havia retornado, e eles eram a autoridade maior depois dele.

Na metade da madrugada, um tumulto de grandes proporções tomou conta das ruas do sítio. As pessoas estavam correndo em direção à fronteira do segundo sítio, desesperadas. Os guardas ficaram de prontidão, pois a parede do lugar era transponível pela parte externa.  Se as pessoas tentassem migrar de sítio, a ordem do Grande Vermelho era para fossem abatidas sem piedade.

Xavier, que era o guardião chefe da segunda fronteira chamou todos os guardas para que viessem até aquele ponto. Mesmo o território dos sítios sendo de formato circular, atualmente só a região oeste era habitada. O restante da população havia sido dizimada por doenças ou nas batalhas contra invasores. Os guardas atenderam ao chamado, mas estavam preocupados, pois as únicas armas que tinham eram facas e lanças arcaicas. A população do terceiro sítio, mesmo muito reduzida, ainda era pelo menos dez vezes o número de guardas da segunda barreira.

As pessoas começaram a se aproximar mais agora, e alguns já estavam chegando pelas beiradas do muro construído como forma de afunilar o aceso ao local. Isso foi pensado pelo Grande Vermelho alguns anos antes, justamente prevendo alguma revolta do terceiro sítio.

        As pessoas que Xavier viu primeiro estavam machucadas, com arranhões profundos, cortes que pareciam feitos por facas, mordidas. Algumas conseguiram chegar até os guardas antes da grande multidão. Para essas pessoas, apenas confiando na expressão de horror nos seus rostos, os guardas permitiram a entrada no segundo sítio.

       Os guardas então formaram um paredão na fronteira, com lanceiros à frente e os que tinham facas na fileira de trás. Xavier tomou a dianteira da formação e ao investigar a multidão enlouquecida de longe viu a figura de uma garota ao meio, andando calmamente, como se coordenasse aquela bagunça toda. Era Hela.

        O paredão de guardas tremia de nervosismo conforme a multidão avançava em sua direção. Xavier estava firme na vanguarda, mas seu psicológico estava a ponto de ceder ao medo. Desde o surgimento das fronteiras em Pardalo, somente uma vez os guardas precisaram agir com mais vigor, mas nessa vez era somente um grupo de no máximo oitenta pessoas que se revoltaram e tentaram sair do terceiro sítio. O Grande Vermelho não se preocupou muito com essa tentativa, mas anos mais tarde mandaria construir o muro que afunilava o acesso as fronteiras do segundo sítio.

Hela olhou para Xavier e abriu um sorriso que, para ele, trouxe um sentimento de dúvida. Não soube identificar se era um sorriso alegre ou de loucura. Vendo o avanço da multidão cada vez mais rápida, que deveria ser composta por mais ou menos três mil pessoas, um dos guardas lanceiros que estava na ponta esquerda da formação atirou a arma em direção ao manifestante que estava mais próximo deles.

Xavier acompanhou o movimento da lança e o momento em que a lâmina pontiaguda de metal penetrou no pescoço de um garoto. Ele era magro e aparentava ter no máximo quinze anos. Quando a lança atingiu o pescoço, a ponta atravessou para o outro lado, mas o cabo de madeira que era mais largo não. O garoto parou onde estava quando foi atingido, pôs as mãos no pescoço na tentativa inútil de parar o sangue que agora fluía dali e então caiu. O corpo foi para frente, fazendo com que a lança se apoiasse no chão e rasgasse o pescoço até sair pela lateral. Passada a paralisia de Xavier perante a cena grotesca, ele virou para trás e reprimiu o guarda que havia atacado sem sua ordem. Pediu para que ele fosse até o garoto e tirasse seu corpo do caminho da multidão.

O guarda se aproximou do garoto com muito medo, pois a multidão agora estava quase na entrada do muro que afunilava o acesso a fronteira. Abaixou-se e pegou o garoto nos braços. O rosto dele parecia cansado, mas só isso. Voltou para o paredão e deixou o garoto um pouco mais para o lado de onde estava a formação de guardas.

Quando viu o guarda reagir à presença do garoto e atirar a lança, Hela aumentou o seu sorriso mais ainda. Xavier não viu essa mudança, pois teria notado que mais alguma coisa estava errada ali.

As pessoas que haviam atravessado a fronteira para o segundo sítio esperaram calmamente do outro lado. Uma ao lado da outra, elas ficaram esperando o resultado daquele massacre eminente.

Quando as pessoas chegaram ao início do muro, Xavier pediu para que os guardas se preparassem para o caso de agirem com violência. Ainda não sabiam o que estava acontecendo, pois agora que era possível ver os rostos das pessoas, não era perceptível nenhuma expressão facial de ódio. Já havia acontecido um acidente e ele não queria que houvesse mais nenhum.

Hela parou e deixou a multidão passar por ela. Ficou parada com a expressão de um expectador no auditório de um programa de televisão, esperando. As pessoas continuaram correndo, mas agora era possível ver que as pessoas da frente estavam alguns passos a frente da maior parte do tumulto. Eram no máximo cinquenta pessoas que corriam desesperadamente, e pedindo ajuda. Quando estavam distantes não foi possível entender o que gritavam, mas agora eram nítidos os pedidos de socorro.

Quando viram os guardas armados na fronteira, as pessoas da frente do tumulto diminuíram a velocidade. Estavam agora a dez metros de distância da fronteira. Os guardas não conseguiram acreditar quando viram a cena que se desenrolou a seguir. As pessoas do fundo alcançaram o grupo separado da frente e começaram a ataca-las com extrema violência. O segundo que foi derrubado caiu a sete metros de distância dos guardas e foi possível ver que o seu agressor havia perfurado suas costas e suas mãos estavam dentro do corpo do pobre homem.

Ao ver isso, Xavier pediu para que os guardas se retirassem, pois a multidão era muito maior que o seu destacamento. Aquelas pessoas não estavam normais. Não poderiam estar. Mas os guardas não conseguiram fugir. A multidão voraz alcançou a fronteira com uma pressão esmagadora. Xavier atravessou a parede sem esperança alguma, pois sabia que eles poderiam passar para o outro lado também. Quando olhou para trás, viu seus amigos sendo mutilados da mesma foram que aquele pobre garoto e seu cachorro. As pessoas perfuravam as vítimas com as mãos. Como era possível uma loucura assim? Xavier começou a chorar, não tinha mais ação nenhuma.

O rosto das pessoas não era mais um rosto humano. Seus pelos faciais haviam sumido. Os olhos haviam ficado semicerrados, semelhante aos olhos orientais, e a boca era mais larga, com um único dente no meio que parecia uma lâmina de cutelo, projetando-se para fora. Os braços ficaram mais finos e mais compridos, com os dedos adquirindo formato de garras e as pernas mais curtas  e arqueadas. E Hela estava ao fundo, olhando o massacre e rindo. O som era estridente como o de uma hiena, e dos cantos de sua boca pingava saliva. Ela estava com fome.

O terceiro sítio foi todo dizimado, a população havia se transformado naquelas criaturas e ali já não havia mais vida alguma além delas.
       
****

         Xavier viu que a atenção das criaturas haviam se voltado para a fronteira. Ele secou as lágrimas do rosto e decidiu se esconder dentro de um galpão que havia visto um pouco mais ao lado de onde estava. Correu até a entrada do lugar antes que alguma daquelas coisas o alcançasse, mas quando chegou à porta, viu que havia sido arrombada.

Lembrou que ele havia deixado passar as primeiras pessoas que chegaram até a fronteira. Ficou feliz de certa forma, pois tinha visto que as pessoas da frente eram fugitivas das criaturas. Lembrou também do garoto que havia sido atingido pela lança. Essa lembrança lhe trouxe um pouco de raiva, mas isso logo passou.

Entrou com cuidado pela porta do pequeno galpão. Quando deu o terceiro passo no escuro, sentiu que pisou em alguma coisa grudenta. Levou a mão ao bolso de trás da calça e pegou uma caixa de fósforos. Por sorte, ainda havia dois dentro da caixa. Ele riscou o primeiro contra a lateral da caixinha, mas ele não acendeu. Xavier amaldiçoou tudo o que pode lembrar o nome naquela hora e então riscou o último do outro lado da caixa. Esse acendeu, e então ele quis que não houvesse falhado igual o anterior.

No chão de todo o pequeno galpão, ele viu uma poça enorme de sangue. Na verdade, pareceu que todo o chão havia sido pintado de sangue. O curioso era que não havia ninguém ali. Nenhuma pessoa ou animal, mas o sangue ainda estava fresco. Ele virou e saiu pela porta correndo para vomitar do lado de fora.

Hela estava parada no mesmo lugar ainda. Comtemplava a visão da queda do terceiro sítio. Todos os moradores ou haviam virado criaturas ou servido de alimento para elas quando já estavam em grande número. Alguns sacrifícios sempre são necessários. As criaturas agora estavam paradas em pé, como se fossem robôs a espera de um comando. Um recém-transformado quis ultrapassar a fronteira, mas Hela deu um grito estridente que o fez parar onde estava. Eles tinham que aguardar.

Xavier sentou na grama do lado da cabana que ficava escondido da visão de quem estava na fronteira. Não entendia como aquilo poderia ter acontecido ou o que havia realmente acontecido àquelas pessoas. Escorou a cabeça contra a parede de tábuas do galpão e dormiu.

Era noite já, e o segundo sítio começava a desacelerar a rotina. Nesse segundo território, existiam mais comércios, que consistiam em bancas de artesanato, mercearias e bancas de manutenção, que eram lugares onde as velhas máquinas que ainda existiam nos sítios eram consertadas. O último lugar a fechar as portas era sempre à mercearia Panz, pertencente ao velho rabugento Ramon.

        Quando estava já trancando o cadeado da porta, Ramon foi surpreendido por um grupo de dez pessoas, imundas, com suas roupas rasgadas e que aparentavam estar sem comer a dias. Certamente, deviam ser invasores vindos do terceiro sítio. Às vezes, algum morador de lá conseguia passar para o segundo sítio, mas não durava muito tempo, pois logo eram abatidos pelos guardas.

O mais velho dentre eles deu um passo a frente do restante e pediu para Ramon se eles poderiam dormir nos fundos da mercearia até o outro dia, para que pudessem descansar e pensar melhor no que fazer, já que haviam fugido do segundo sítio. O velho disse para Ramon que havia estourado uma revolta terrível lá, e que não poderiam voltar. Apesar de rabugento, Ramon tinha um coração bom, e acolheu os estranhos.

Ele deu a volta por fora da loja, abriu a pequena porta de alumínio que trancava o depósito dos fundos e pediu para que eles entrassem rápido antes que fossem vistos. O grupo entrou no galpão, e quando Ramon foi fechar a porta, o velho pediu para que ele esperasse um pouco. Ramon entrou e pediu o que ele queria. O velho disse que eles estavam famintos, pois somente os mais novos haviam comido algo durante a fuga. Ramon então foi andando em direção à porta e disse que traria algo para comerem.

        Quando chegou à porta, um brutamonte com aparência de lutador de boxe parou na sua frente. Ramon foi recuando para o interior do depósito e então o velho falou baixinho: “Não precisa trazer nada meu bom senhor, acho que você já é o bastante”.

******

        A vida no segundo sítio continuava normal. Havia passado uma semana dos incidentes no terceiro sítio, mas com exceção do sumiço de Ramon, nada anormal havia ocorrido. Todos pensaram que o velho deveria ter se cansado das pessoas dali e migrado para o primeiro sítio, levando consigo as riquezas escondidas que muitos juravam que ele tivesse acumulado ao longo dos anos.

          Como a barreira entre os sítios era intransponível pelo lado interno, não era possível alguém ir até o terceiro sítio obter notícias. Isso não ocorreu também porque ninguém tinha interesse por aquelas pessoas. Os moradores do segundo sítio eram mesquinhos, pois era onde havia restado algum comércio e onde as condições de vida ainda eram melhores.
        O terceiro sítio nunca soube, mas muito da falta de alimento deles se dava pelo contrabando de comida para os sítios internos, que além de ter as suas próprias produções, comprava a comida do povo periférico. A ética não imperava muito nesses tempos.

O segundo sítio poderia ter tido notícias do ocorrido por meio de Xavier, se esse não tivesse sido estraçalhado pelas criaturas quando elas passaram pela fronteira. Xavier havia dormido do lado de fora do galpão, e quando Hela viu que algum tempo já tinha passado, todos os moradores do terceiro sítio ou estavam mortos ou transformados, e provavelmente seus enviados já haviam chegado a comunidade do próximo sítio, ela decidiu passar a barreira.

        O exército de criaturas reuniu-se nos arredores do galpão para aguardar as orientações de sua rainha. Hela então se aproximou de Xavier e decidiu que não iria transformá-lo.

Xavier acordou com sensação de ardência pelo corpo. Seus olhos não respondiam. Ele podia jurar que estavam abertos, mas não conseguia ver. E sentia uma dor horrível. Na verdade, ele não tinha mais os olhos. Seu corpo todo era mordido pelas criaturas, arranhado, disputado como um troféu de campeonato mundial.

Hela ficou com os olhos dele para si, como uma espécie de prêmio. Uma das vagas lembranças da sua vida anterior ainda remanescente era a de que, certo dia, quando dois guardas haviam agarrado ela e levado para trás do muro da fronteira, enquanto eles se divertiam com seu corpo, Xavier passou e ficou olhando a cena, depois indo embora e permitindo que eles continuassem o que estavam fazendo. Ela jamais esqueceu.

As criaturas eliminaram qualquer vestígio de Xavier, consumindo cada parte com voracidade, pois Hela havia dito que ficariam algum tempo sem comer de novo. O plano final exigia um pouco de paciência, e eles poderiam sobreviver um pouco sem comer. A carne e o sangue só aumentava a força deles, mas o seu alimento principal era outra coisa.

Os moradores esqueceram o sumiço de Ramon e seguiram suas vidas. O segundo sítio tinha a reputação de ser o que tinha a população mais mesquinha e egoísta dentre os três. Ali haviam ficado os comerciantes, algumas famílias mais nobres de Pardalo e artistas.

          Quando as fronteiras surgiram, eles simplesmente sucumbiram aos seus egos inflados e esqueceram as relações afetivas. Isso era o que diferenciava o pobre Ramon dessas pessoas, pois seu comportamento rabugento ocorria porque era contrário a essa  imbecilização das pessoas.

Aqui era também o lar do Grande Vermelho. Ele ficou conhecido por esse nome devido a ter sofrido um acidente quando surgiram as fronteiras. Ao perceber que aquela coisa havia aparecido e que estava preso ali, ele tentou atear fogo a barreira, o que não deu muito certo. O fogo ricocheteou e queimou sua pele. Isso fez com que seu medo da barreira aumentasse exponencialmente, e talvez por isso ele jamais tentou ir para o primeiro sítio. O Grande Vermelho era um homem gordo e alto, chegando a quase dois metros e vinte de altura, por isso recebeu esse apelido.

Por ser uma figura capaz de por medo naquela gente imbecil e sem modos, alguns padres que viviam no sítio na época o elegeram como soberano daquela região. Foi ele que iniciou o processo de contrabando de comida do terceiro sítio para o segundo. Isso só foi descoberto no quinto ano, quando a comunidade percebeu que havia pessoas diferentes perambulando pelas ruas e que a população havia aumentando repentinamente. Isso era lógico, pois quem vinha do terceiro sítio jamais conseguia retornar.

O Grande Vermelho então desenvolveu um plano para ganhar novamente a confiança do povo e aumentar o ódio ao terceiro sítio. Contratou dois grupos diferentes de contrabandistas na época em que o terceiro sítio ainda tinha moradias em todo o território ao redor do segundo, e maquinou um encontro entre os dois de forma que isso gerasse toda uma revolta contra a guarda da fronteira.

         Os guardas mataram todos os contrabandistas e foi nesse dia que o governante ordenou a construção do muro que afunilava o acesso a sua fronteira. Auris, que era responsável por Jolin e responsável pelo terceiro sítio na época, cedeu e construiu o muro, acatando também as ordens de abater qualquer um que tentasse passar a fronteira. Estabeleceu-se então uma aura ditatorial nos dois sítios, que só seria abalada com a nomeação de Jolin como líder.

As criaturas construíram abrigos no solo no terreno que circulava a comunidade, pois Hela sabia que os moradores dali odiavam a natureza e raramente iam até aquela região. O grupo que havia se escondido na loja de Ramon havia escavado um esconderijo dentro do depósito, saindo somente a noite para se alimentar de pequenos animais.

        Ninguém notava a diminuição do número de cães e raposas, que eram os animais mais presentes nas ruas, pois odiavam sua presença. Animais sujavam as ruas e deixavam o cheiro do lugar pior do que já estava além de consumir alimentos que estavam cada vez mais escassos. Essas pobres almas inocentes foram destinadas a morte desde então.

Dada a importância política do Grande Vermelho e também por sua saúde estar bem debilitada, foram construídos cerca de trinta esconderijos para ele que só seu serviçal mais confiável sabia da localização. A cada dois dias ele era transportado para um deles sem que ninguém soubesse. Apesar do medo que sua figura impunha, muitos comerciantes gananciosos já haviam tentado tomar o posto de governante para si.

Foi no final da época de colheita, no último dia, que um encontro inesperado aconteceu. Como de costume, o guarda do Grande Vermelho abria a porta dos fundos da casa onde estivessem e deixava uma espécie de carruagem parada bem próximo, para que o soberano não ficasse muito tempo exposto. Ele subia no veículo e então ambos partiam para o novo endereço, muito antes de todos acordarem e bem depois de todos terem dormido.

Só que nesse dia, o guarda foi surpreendido ao abrir a porta. Uma moça jovem e bonita estava parada ali, com dois homens robustos atrás. Eles estavam imundos, como se houvessem dormido embaixo da terra. Hela saiu da frente dos homens e então eles saltaram sobre o guarda, que não conseguiu se defender. Cada criatura perfurou um dos lados de seu peito. Hela passou por eles e entrou na casa.

 O governante estava no andar de cima e ouviu gritos. Ficou assustado e se escondeu, com muita dificuldade, no banheiro que havia dentro do quarto. Ele ouviu os passos de alguém subindo a escada e se aproximando. O maldito guarda havia levado o molho de chaves e a porta estava destrancada. Ele jogou todo o peso contra ela para caso alguém tentasse abrir, não conseguir. Apesar de debilitado, ainda era um homem enorme e pesado, o que dificultaria a tentativa de empurrar a porta para dentro do banheiro.

 Hela entrou no quarto e foi reto para a porta do banheiro. Ela começou a emitir um chiado rouco e profundo, como se estivesse ansiosa. Do outro lado da porta, o homem atirou o peso mais ainda contra a madeira, percebendo que o invasor estava ali. Então Hela falou com ele: - Tio! Abra essa porta! Você precisa ver como cresci e estou bonita! –

O nome real do Grande Vermelho era Julin. Ele era cunhado da mãe de Jolin e Hela. Quando ela completou doze anos, Jolin contou que seu tio Julin havia abusado da mãe deles antes que nascessem. Quando Dalin, seu irmão, descobriu, foi tirar satisfações com Julin. Não ficando feliz com a situação e tendo medo que o irmão revelasse para o resto da população o ocorrido, Julin armou uma emboscada para ele e a esposa.

          Certo dia, os dois haviam saído para colher os frutos da fronteira, e ao chegarem à parte de mato alto, foram surpreendidos por alguns mercenários, que abusaram da mulher enquanto mantinham o marido assistindo tudo. Ao final, Julin apareceu e enterrou o irmão ainda vivo naquele terreno e mandou a mulher embora. Disse que se falasse algo teria o mesmo destino. Foi uma serviçal da família que havia saído para colher os frutos antes que viu tudo. Ela estava um pouco à frente do casal, e quando ouviu os gritos, se escondeu no mato.

A mulher retornou para casa derrotada, e os habitantes tentaram descobrir o que houve naquele dia, mas ela nunca contou, e nem a serviçal. Mas numa tarde, durante  uma reunião dos moradores da comunidade, Julin ouviu a serviçal conversando sobre o assunto. Naquela noite, quando as duas retornaram para casa, o juramento de Julin foi cumprido. Ao fecharem a porta, uma dúzia de homens atacaram as duas mulheres. A serviçal foi morta ainda na sala e jogada na lareira. A rainha foi levada para o quarto, onde foi abusada até o final de suas forças por Julin e mais dois homens.

Como fruto desse abuso, nasceu Jolin. O tio então se mudou para a região central da cidade. Jolin cresceu sem saber de nada. Mas, quando tinha onze anos, ele saiu pra colher os frutos e ao voltar encontrou a mãe quase morta em casa. Ele se aproximou e ela contou toda a história para ele. A rainha havia sofrido abusos constantes pelos comparsas de Julin que haviam ficado na comunidade.

          Ela estava gravida nessa época, mas ninguém sabia quem era o pai. Todo mundo achava que o rei Dalin havia se retirado da comunidade e que morava próximo à fronteira. A rainha deu a luz a Hela ali, no leito de morte, e foi Jolin quem ajudou, por isso o seu senso de responsabilidade para com Hela era tão grande.

Hela nunca esqueceu essa história, nem mesmo agora que era uma criatura diferente. Julin abriu a porta, curioso. Ao ver a garota, começou a rir freneticamente.
- A sua mãe lhe contou sobre mim, foi? Quis vir experimentar também o velho Julin?
- Silêncio seu monte de banha. A caça só tem o direito de correr e gritar. Quem fala é o caçador.
- Você só pode ser louca garota. Feche essa boca inútil e vem pro titio.

As feições dela mudaram. Um grande dente em forma de cutelo apareceu em sua boca. Os braços ficaram mais longos e surgiram garras em suas mãos. As pernas arquearam como as de um cão e ela avançou na direção dele. O homem caiu para trás, batendo a cabeça na parede. A criatura então cravou suas garras no peito enorme do enorme homem e cavou fundo, até chegar aos seus pulmões. Ali terminou o reinado do Grande Vermelho e iniciou o da Rainha Hela.

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         Após liquidar com o tio, Hela descansou. Sabia que a parte mais importante do trabalho viria agora.

O segundo sítio notou algo estranho no segundo dia após o sumiço do Grande Vermelho. Não que ele já costumasse aparecer em público muitas vezes, mas nem o seu serviçal havia sido visto nos últimos dias.

  No terceiro dia, um dos líderes dos comerciantes locais decidiu ir até uma das casas que se tinha notícia que o Grande Vermelho ficava escondido. Todos ansiavam por notícias do governante, pois era ele que mantinha a ordem na região. A falsa sensação de segurança que imperou por anos agora vinha desmoronando aos poucos.

O comerciante chegou ao portão da casa e ficou parado esperando a movimentação de algum guarda ou algo assim. Nada aconteceu. Pode ser que ele tenha tido azar e escolhido a casa errada para ir, mas já que estava ali decidiu esperar um pouco.

Depois de meia hora, já desistindo, ele viu uma movimentação na porta lateral da casa. Era uma garota. Ela era jovem e bonita, mais do que qualquer uma que vivia naqueles tempos nos sítios. Ele nunca havia visto a garota na região, e isso era impossível, pois todos se conheciam. Será que ela havia vindo do terceiro sítio? Mas os guardas a teriam abatido antes que pudesse atravessar. Quem seria ela?

Hela viu o homem em frente ao portão e aproximou-se dele lentamente. Escondeu seu verdadeiro rosto por debaixo de um sorriso encantador que hipnotizou o homem instantaneamente. Ela fez um sinal para que ele entrasse na casa. Ficou aguardando até que ele chegasse próximo à porta e então o guarda que ela havia deixado do lado de fora fechou a porta atrás do homem. Lá dentro, o pobre comerciante de alimentos serviu ao seu propósito mais uma vez, alimentando as criaturas de Hela. Elas precisavam se fortalecer para o grande ataque.

Hela enviou um mensageiro para a divisa com o terceiro sítio, convocando as criaturas que haviam ficado por lá, aguardando as suas ordens. No anoitecer daquele dia, as criaturas se aproximaram da cidade e ficaram de tocaia próximo as casas. A noite chegou completa e mais escura do que nunca, e uma alma mais sensível poderia sentir uma fragrância de morte no ar.

Ao amanhecer, Hela preparou-se. Precisou antes comer alguma coisa. Viu passar na rua duas mulheres jovens, saudáveis, e achou que bastariam para saciar sua fome. Atraiu as duas para a casa e fez seu café da manhã.

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Quando a tarde chegou, toda a cidade estava descansando após o almoço. No segundo sítio, o costume era descansar embaixo das árvores, por isso todos tinham uma em frente de casa. Hela sabia disso, então orientou suas criaturas a se esconderem nas árvores.

Quando todos estavam relaxados o bastante, e desatentos devido ao sono, o ataque ocorreu. Hela preferiu assim, pois o extermínio do terceiro sítio havia sido muito chamativo e barulhento, dando chance para a defesa. Dessa vez, as criaturas exterminaram toda a população em pouco mais de dez minutos. Os mais fortes foram transformados, o restante serviu de alimento para os monstrengos.

O segundo sítio caiu. Agora, Hela tinha domínio sobre a região e seu exército havia aumentado exponencialmente. Os últimos transformados seriam de grande utilidade, pois eram jovens fortes e saudáveis. Hela os selecionou como uma espécie de guarda real, pois as pessoas do terceiro sítio eram mais fracas e castigadas pelas privações.
 
Hela seguiu em marcha rumo à fronteira com o primeiro sítio. O plano era entrar sem aviso e aniquilar todos que surgissem em seu caminho. Os habitantes do primeiro sítio eram idosos, empresários da época de antes do surgimento das barreiras que haviam se escondido lá, políticos, todos que foram covardes o suficiente para abandonar seus parentes e amigos nos outros sítios e fugir.

Seria fácil dominar o primeiro sítio, pois não havia ali nenhum soldado, apenas uma guarda composta por cinquenta homens totalmente destreinados. Haviam tido o infortúnio de ficarem presos com aquela corja egoísta, e como eram mais pobres, foram obrigados a proteger os recém-chegados.

O primeiro sítio havia sido uma região próspera, onde as pessoas trabalhavam pesado. Era o motor de Pardalo. As atividades que mantinham a economia da cidade em movimento eram realizadas ali. Fábricas de todos os tipos se localizavam ali.

Como não haviam plantações na região, moradores dos sítios externos haviam sido comprados pelos políticos para que contrabandeassem os alimentos até o primeiro sítio. Quando chegavam lá, eram mortos e serviam de adubo para as tentativas de plantar do local. Tudo era muito difícil dentro dos sítios, mas o que complicava mais ainda a situação eram esses atos de usurpação que o primeiro sítio realizava.

Era ali também que Ele vivia. E Hela, antes mesmo de se transformar na criatura que era agora, tinha certeza de que foi culpa dele o surgimento das barreiras.
 
*****
         O primeiro sítio era um lugar sujo. A maior parte das construções presentes ali eram fábricas enormes, que após o fechamento do sítio, ficaram fechadas e começaram a exalar um odor de fumaça e mofo. Isso tornou o ar escuro, pesado. Olhando de fora da barreira, era possível confundir o local com um buraco negro. Antes das barreiras, havia sido o local mais populoso de Pardalo, mas devido ao ar pesado, mais de 60 % da população havia perecido.

Os mais ricos possuíam um aparelho que contrabandearam dos sítios externos, que servia para filtrar o ar dentro das casas. Todas as residências habitadas possuíam vedação especial contra a fumaça negra, o que permitia que a vida dentro delas fosse de certa forma um pouco tranquila.

Hela se lembrava das histórias sobre o local, e enviou uma de suas criaturas para lá primeiro para que reunisse informações sobre o ambiente. Hela se comunicava com as suas criaturas por uma espécie de telepatia primitiva, onde eram transmitidas imagens ao invés de palavras. Mas isso só funcionava com certa proximidade entre as duas criaturas. O informante se aproximou da fronteira e revelou a Hela que o ar era muito pesado, e provavelmente eles não conseguiriam sobreviver ali muito tempo.

Isso preocupou Hela, pois o principal alimento das criaturas era os pulmões de suas vítimas. Eles forneciam uma capacidade extra de respiração para elas. Isso quem desenvolveu foi Hela, pois quando era viva, tinha muitos problemas respiratórios devido à barreira, que modificava o ar mais e mais a cada ano. Algumas poucas pessoas sofriam menos com o ar, mas grande parte, principalmente as últimas gerações que nasceram quase em paralelo com as barreiras, mal conseguiam respirar.

As criaturas recém haviam se alimentado, mas os que haviam sido transformados por último ainda não haviam comido, e aqueles que haviam comido logo estariam com  fome de novo. Isso poderia atrapalhar a invasão ao primeiro sítio e por em risco todo o plano.

*****

O jovem rapaz estava sentado em frente a sua lareira, e pouco importava a ele que a fumaça piorasse a situação do ar dentro do primeiro sítio. Alguns dias atrás, quando retornou para seu esconderijo, ele estava ferido, quase morto. Não se lembrava do que havia acontecido direito, somente que tudo ficou escuro de repente e então ele acordou no esconderijo novamente.

Quando mais jovem, ele descobriu um modo de viajar entre as barreiras quando quisesse e sem se machucar. Na verdade, ele nunca havia se machucado. Era o único habitante de Pardalo que podia fazer tal feito, mas ninguém sabia e nem poderiam saber. Tinha uma reputação a zelar.

A sua direita, do lado da poltrona em uma caixa de madeira, havia duas garrafas de vinho que haviam sido encontradas no terceiro sítio durante uma de suas voltas secretas. Ele as trouxe para o seu reduto secreto e esperou o momento certo para abri-las. E esse era o momento certo.

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Hela resolveu assumir os riscos. A confiança anterior agora se transformara em um sentimento de dúvida, mas ainda estava presente. Ela sabia que não tinham mais alimento para sobreviver muito tempo naquele ambiente de ar hostil, mas também sabia que isso aconteceria onde estavam agora também. O alimento havia terminado nos outros dois sítios, e mesmo que ainda houvesse algum, eles não conseguiriam passar para o outro lado para obtê-lo.

O único jeito de sobreviver, ou de alcançar o seu propósito, era invadir agora o sítio, enquanto as criaturas ainda tinham forças. Hela então ordenou que todos formassem um cordão ao redor de todo o perímetro do sítio. A essa altura, eles já estavam em um grande número, que era capaz de quase formar duas fileiras completas ao redor da barreira.

Hela pediu para o informante que encontrasse uma determinada casa. Ela não sabia como era, mas tinha uma vaga lembrança de ouvir algo sobre um símbolo pintado em sua porta da frente. Não lembrava quem e nem quando ouviu, mas sabia qual era o símbolo. Ela desenhou o melhor que pode a imagem em seu pensamento, para que o informante pudesse ver o símbolo. Eram 3 círculos sobrepostos, um maior que o outro, e fora do último haviam 4 triângulos espalhados nos quatro lados.

O informante seguiu para a área habitada em busca do símbolo.  A tarefa era simples, pois nesse sítio quase ninguém andava na rua, com exceção de um andarilho ou dois que ainda existiam pelo lugar, restos humanos excluídos e esquecidos pelo restante daquela sociedade macabra.

O informante encontrou o símbolo. A casa estava exatamente no meio do sítio, como se fosse um eixo. Seu telhado apontava para cima como uma seta, e sua base parecia feita para suportar um grande impacto, como uma base de lançamento de foguete. Era estranha.

Hela viu uma imagem fraca na mente da sua criatura informante, a distância era muita para a comunicação ser nítida. Ela viu uma flecha apontada para o céu e parecia mirar o centro de alguma coisa. Então a imagem sumiu de repente.

Sentindo que o perigo aumentava cada vez mais, Hela decidiu ordenar o ataque. Dessa vez, ela orientou as criaturas a não roubar os pulmões das pessoas, pois poderiam estar contaminados e isso seria um problema. Deveriam somente matar todos que encontrassem e seguir ao encontro dela no local que seria informado pela imagem em telepatia.

Ao sinal de Hela, todas as criaturas avançaram para dentro da última barreira. Como entraram por todos os lados da cúpula, o ataque não tinha como ser detido. Os poucos guardas logo foram mortos, e em questão de poucos minutos, os moradores restantes também foram exterminados. Hela pediu um cuidado especial para os políticos, pois já haviam causado muito problema, e ela queria um final feliz para eles.

Enquanto as criaturas invadiam as casas e seguiam as ordens que Hela havia lhes dado, ela seguiu rumo à casa que o informante havia encontrado. Algo errado estava acontecendo, pois a criatura não retornou para o grupo, e não entrou mais em contato.

Ele aguardava pacientemente, agora um pouco irritado pela sujeira que teve que fazer na entrada da casa. Aquela pobre criatura miserável estava observando, e ele sabia que deveria estar colhendo informações para Hela. Ele abriu a porta e antes que a criatura pudesse piscar os olhos, ele já havia avançado para cima dele, cravando as garras pontiagudas no seu pescoço. Segurou assim a criatura espiã e a levou para dentro.

Ele fechou a porta, levou a criatura até próximo da lareira, e então começou a arrancar seus membros. Cada parte que tirava de sua presa ele atirava ao fogo, comemorando o momento que finalmente estava por vir. Não aguentava mais toda aquela farsa de homem bonzinho que teve que manter a vida toda.

Terminado o serviço com o intrometido, Jolin sentou-se novamente em sua poltrona, esperando sua irmã com um sorriso diabólico no rosto.

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        O ar parecia estar ficando mais pesado no primeiro sítio. As criaturas que invadiram primeiro começaram a perder o fôlego rápido demais. Uma delas, que estava saindo de uma das casas, caiu ainda descendo as escadas, como se alguém houvesse apertado um botão de desligar nela.

Hela começou a receber tentativas de comunicação à distância, e outras de locais mais próximos. Ela não conseguiu completar o contato com nenhuma das criaturas, mas conseguiu captar algumas imagens distorcidas que elas estavam construindo em pensamento. A mais detalhada era uma imagem de uma das criaturas parecendo sufocar e caindo instantaneamente.

Jolin sentiu a presença da irmã, na verdade, captou a energia no ar. Como ele possuía mais experiência na pele de criatura, suas habilidades eram muito mais aprimoradas que as de Hela. Captou a comunicação dela com as outras criaturas, e sorriu quando percebeu que os planos da irmã haviam sido frustrados.

Hela encarou a casa com símbolo na porta, e soube que era ali que ele estava, com toda certeza. O maldito havia planejado isso a vida toda. Desde os primeiros passos dela, acreditava que Jolin já pensava em como tudo iria se desenrolar anos depois.

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Jolin estava sentado ao sofá, lembrando-se de como tudo havia começado. Lembrou-se de sua mãe, toda machucada e infeliz quase que diariamente. Lembrou-se do dia em que Hela nasceu e de quando a barreira nasceu.

Quando garoto, Jolin nutria um ódio secreto Julin. Ele sabia que havia algo errado com aquele homem. Quando pequeno, ouviu comentários nos corredores da escola de que Julin era um assassino e que havia matado muitas pessoas, incluindo o Rei Dalin, que ele pensava ter sido seu pai. Quando o tio (e pai) mudou-se para uma região mais distante da cidade, Jolin teve espaço para maquinar sua vingança. Nessa época ele não poderia fazer muito contra o tio, mas seus planos eram futuros. Ele também começou a ficar com ódio da população, pois muitos acobertavam os crimes do tio.

Uma lembrança imperava como a mais recorrente na mente de Jolin. Era a do dia em que sua mãe morreu. Ele havia voltado da colheita de frutos na fronteira de Pardalo, estava cansado. Quando se aproximou de casa, notou que a porta estava aberta. A mãe jamais deixava a porta assim, pois era cuidadosa demais. Dizia a ele que, às vezes, quando estamos distraídos, coisas podem entrar pela porta e levar nossas almas embora.

Jolin correu chamando pela mãe. Andou por todo o andar de baixo da casa e não viu nada, mas quando retornou para a sala, viu algo queimando na lareira, algo que parecia uma mulher.

Ele correu gritando pela escada, rumo ao quarto da mãe. Quando chegou lá, viu ela atirada ao chão, coberta de sangue e gritando. Ela estava dando a luz a Hela. Ele ficou em choque alguns instantes, mas subitamente uma energia pareceu empurrá-lo de encontro à mãe, como se algo quisesse que aquela mulher sobrevivesse.

Jolin abaixou-se próximo a sua mãe e segurou sua mão. Ela estava muito fraca, seu rosto estava coberto de hematomas e seus lábios estavam abertos, como se ela houvesse mordido eles centenas de vezes. Ela olhou para o filho e fez muita força. Ele viu a criança nascendo, pouco a pouco, chorando como se em luto pela mãe. Jolin pegou um lençol da cama e enrolou a criança. Quando voltou para a mãe, ela estava quase morta, e foi ali que ela revelou tudo a ele.

Jolin gritou desesperadamente. Naquele momento, todo o ódio que nutria por Julin uniu-se a tristeza. Ele levantou e foi em direção à porta do quarto, quando foi surpreendido por alguém. Alguma coisa na verdade, pois aquilo não era de forma alguma uma pessoa. A coisa tinha os membros friccionados, como os de um animal, e tinha somente um dente, muito pontiagudo, que se projetava para fora da boca.

A criatura entregou a Jolin um dos frutos que ele havia colhido na fronteira. A cor dele era diferente, roxa agora. Ele pegou o fruto, mas ficou olhando, em choque. A situação era tão inusitada que seu cérebro não sabia como reagir.

A criatura fez um gesto indicando que ele comesse o fruto. Jolin mordeu um canto, e então o gosto o dominou por completo. Era um gosto diferente de tudo que já havia provado. Sentiu vontade de morder mais uma vez, então a criatura fez um sinal para que ele continuasse.

Jolin comeu todo o fruto, lambendo os dedos ao final. Sentiu seu corpo se revitalizar, como se houvesse comido um frango inteiro. Mais que um, uma centena.

Ele olhou para os braços e viu que sua pele pareceu borbulhar por baixo. Poderia estar ficando louco, mas jurou ter visto seus dedos esticarem. Ele olhou para a criatura e então ela não era mais uma coisa estranha ao nosso mundo. Ele achou que já tinha visto aquele rosto. Sim. Era o rosto que sua mãe guardava em um relicário que levava sempre ao pescoço. O Rei Dalin.

Dalin abaixou-se e deu um abraço em Jolin. Aproximou a boca ao ouvido dele e lhe falou o que queria. Queria que ele vingasse a morte da rainha. E que o povo de Pardalo sofresse. Jolin pediu porque, porque todos deveriam sofrer? E Dalin lhe contou todos os pecados daquela cidade. Pardalo parecia um lugar próspero e bonito para se viver, mas por trás das aparências, era um lugar podre.

Dalin explicou tudo a Jolin. Anos antes, os governantes da cidade ordenaram que todos os idosos fossem obrigados a trabalhar nas fábricas, de modo a levantar a capacidade de produção. Só que isso foi apenas conversa, pois certo dia, quando todos estavam trabalhando, um gás foi liberado dentro das fábricas, aniquilando uma boa parcela da população jovem e todos os idosos da época. Fizeram isso para diminuir a população da cidade e não cortarem as despesas de saúde que tinham na época.

Na época, os jornais das cidades próximas vieram atrás de respostas, mas a polícia abafou todo o caso, dizendo que haviam sido liberados gases de um depósito subterrâneo por acidente. Ninguém acreditou, mas a polícia tinha seus métodos para fazer valer sua opinião.

As famílias que foram atrás de respostas foram presas e torturadas, e ninguém jamais tornou a ver nenhuma daquelas pessoas novamente. Pardalo tornou-se após algum tempo uma cidade turística, de beleza ímpar e recursos econômicos e naturais invejáveis.

Dalin descobriu que seu irmão estava metido em tudo, e que era ele que executava os planos sujos do governo. Quando Julin descobriu, resolveu atentar contra ele e a rainha.

Jolin ouviu tudo, e, a cada segundo, sua fúria crescia mais e mais. Dalin sorria, pois sabia que seu fruto estava plantado. Ele já havia sido um homem bom, o mais justo da cidade. Foi nomeado rei quando as cidades externas pressionaram Pardalo e seus governantes, de forma que a única maneira de não serem invadidos e destruídos era que os governantes da época abdicassem o poder e escolhessem um rei.

Dalin, que era jovem na época, foi escolhido justamente por ser justo e pela população gostar dele, que era um líder comunitário já com grande importância na cidade. Só que essa nomeação foi só um plano do governo para continuar suas tramas sem que as cidades externas pudessem se intrometer.

Quando terminou de contar tudo a Jolin,  Dalin se levantou, foi até a esposa morta e apoiou as mãos em seu peito. As garras se projetaram pra fora dos dedos, perfurando a carne dela. Quando chegaram aos pulmões, suas pontas se abriram e capturaram o último suspiro ainda presente no corpo da rainha. Ele queria que ela fizesse parte daquilo.

Dalin então disse que agora a responsabilidade pela vingança era de Jolin, e que ele iria dar uma última ajuda para ele. Saiu para o pátio em frente a casa, ergueu as mãos para o céu e, de suas garras, expeliu um vapor branco. O vapor era a essência da rainha. Quando o vapor cessou, ele perfurou seu próprio peito, unindo seu próprio vapor ao da esposa. Esse vapor formou as barreiras ao redor de Pardalo.

Dalin não queria que ninguém saísse dali jamais, mas permitiria que as cidades externas pudessem entrar para aniquilar Pardalo de uma vez por todas. Dividiu a cidade em três, de forma que as pessoas fossem separadas pela ordem em que ele queria sua vingança. No terceiro sítio ficaram as pessoas que roubavam, faziam o trabalho sujo do governo sem pestanejar. No segundo sítio, as pessoas mesquinhas que acobertavam tudo o que era feito de ruim na cidade. No primeiro, aqueles que haviam causado tudo isso.

Jolin lembrou também de como cresceu e maquinou sua vingança. Até agora, tudo havia ocorrido extremamente bem. Dalin e sua mãe ainda estavam ajudando, e agora que só restava o primeiro sítio, estava quase na hora do seu movimento final.

          Percebendo que seu plano havia falhado, Hela resolveu arriscar tudo no seu último ato. Sua respiração também já estava ficando fraca, e ela tinha medo de falhar sem ao menos tentar. Lembrou-se do dia em que foi colher os frutos.

A rainha sabia dos planos de Dalin para a cidade, mas não concordava com eles. Ela estava ligada a vontade do marido agora que eram apenas energia canalizada naquelas barreiras, mas ainda conseguia realizar pequenas interações com o ambiente sem que ele percebesse.

Foi em uma dessas interações que ela transformou Hela, sua adorada filha. Ela não teve tempo de brincar com ela, ou de segura-la no seu colo, mas havia cuidado dela sempre. Ela sabia que o único modo de combater os atos cegos de Dalin era por meio de Hela. Ela agiu por meio das árvores, contaminando o fruto que Hela comeu naquele dia, transformando ela em uma criatura capaz de conter Jolin.

Haviam pessoas que deveriam pagar, isso era fato. A rainha permitiu que Hela fizesse alguns sacrifícios, mas seu objetivo final não era aniquilar toda a população, mas sim Jolin e Dalin. Só que o rei e a rainha eram agora uma força unida dentro daquelas barreiras, e ela não conseguiu impedir as interferências de Dalin. Nesses momentos, Hela perdia a sanidade e realizava atrocidades inacreditáveis.

Hela avançou pelo gramado rumo à porta da casa. Quando chegou, já estava transformada. Não tinha tempo pra conversas com o irmão. Ela ainda precisaria de energia depois de acabar com ele, então deveria agir rápido e sem erros.

Jolin era mais velho e estava transformado fazia mais tempo, mas quando Hela agarrou seu pescoço com suas garras ele ficou totalmente surpreso. Como ele não havia percebido a sua presença?

Hela era mais nova, e a rainha havia lhe oferecido habilidades que Jolin não tinha. Uma delas era a de disfarçar seu rastro, tanto de odor quanto mental. Ela pulou sobre a poltrona, agarrando o pescoço de Jolin e derrubando-o ao chão. Arrastou ele para a lareira e tentou atirá-lo ao fogo. Quando impulsionou o corpo dele em direção a lareira, Jolin transformou-se também.

Deu um salto para o lado e avançou contra a irmã. Jogou ela ao chão e ejetou o seu dente, como uma adaga. Pulou sobre Hela e tentou cravar o dente em seu peito. Hela agarrou seu pulso com as garras extremamente afiadas, amputando a mão esquerda dele.

Jolin deu um pulo para trás, uivando de dor. Quando virou de costas para a irmã, ela pulou em suas costas e cravou as garras nele. Hela sentiu um choque nos dois pulsos. Ele havia vestido um colete metálico por baixo da camisa. Todas as garras dela se quebraram com o impacto.

Hela caiu atrás dele ajoelhada, e então Jolin se virou e chutou-a para longe. Esticou o braço cuja mão havia sido amputada para o fogo, para fechar a ferida.

Hela sabia agora que só tinha uma chance. Ejetou o dente antes que Jolin virasse para ela, e segurou-o embaixo das pernas. Hela então começou a enviar imagens para Jolin. Eram imagens de quando ela nasceu. Daquele dia tenebroso para ele.

Jolin paralisou quando percebeu as imagens entrando em sua mente. Levou às mãos a cabeça e começou a gritar. Não queria ver aquilo, mas não conseguia afastar as imagens. Hela gerou um looping de cenas que mostrava o momento em que ela nascia e ele a pegava aos braços, esquecendo-se da mãe. Ele nunca esqueceu esse momento.

Hela levantou, atravessou a sala, com o dente na mão, e então ficou em frente ao irmão. Levantou a cabeça da criatura, secou as lágrimas que escorriam pelo rosto dele e cravou o dente por baixo do queixo.

Jolin caiu para trás, se debatendo. O corpo dele voltava à forma normal. Hela voltou a forma normal também. Pegou o irmão, arrastou pela sala e atirou ele as chamas da lareira. Ela ficou assistindo o irmão queimar, para ter certeza de que aquilo estava terminado.

Quando tudo havia sumido, Hela saiu da casa, parou no quintal e olhou para o céu. O rosto de sua mãe materializou-se no espaço acima. Ela havia lhe dito que aquela casa era o local por onde Dalin canalizava a energia necessária para criar as barreiras de energia. O guardião havia sido destruído, então só restava agora destruir a casa.

Hela reuniu as criaturas restantes em frente à casa. Sabia que, se aquilo funcionasse, eles estariam soltos em um mundo do qual não faziam mais parte. Hela se lembrou da história sobre a morte dos idosos, então, antes de invadir o sítio, ordenou que as criaturas procurassem gás e combustível nos pavilhões da cidade. Foram encontrados poucos, pois muito havia sido utilizado para aquecer as casas e manter funcionando a cidade.

Foi o suficiente. Hela derramou o combustível nas paredes externas da casa e internamente também. Deixou alguns tanques de gás espalhados pela casa. Hela foi a cozinha, pegou a caixa de fósforos em cima da pia e saiu. Quando chegou ao quintal, afastou-se e acendeu um fósforo. Observou a chama um instante, e então atirou o fósforo em direção a casa.

Nesse momento, a rainha soube que estava na hora. A energia do marido foi focada no ponto em que se encontravam a barreira e a agulha no telhado da casa. Ela utilizou sua energia para cercar o marido. Isso fez com que as barreiras sumissem aos poucos, pois as chamas da casa foram queimando a energia de Dalin, que não podia mais manter as barreiras em pé.

Hela correu com as criaturas, e quando estavam no meio do segundo sítio, a casa explodiu como uma bomba.

As criaturas andaram até chegarem a marca onde antes estava a barreira externa do terceiro sítio. Alguns preferiram ficar ali, pois não achavam que saberiam viver daquele jeito agora, sem outros objetivos. Outras seguiram com Hela, com esperança de encontrar seu lugar no mundo.

Hela passou pela marca na terra vermelha, olhou para o céu a frente e seguiu viagem. Quantos lugares ainda precisavam de sua ajuda?
Luan T Mussoi
Enviado por Luan T Mussoi em 29/06/2020
Reeditado em 29/06/2020
Código do texto: T6991316
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Sobre o autor
Luan T Mussoi
Caxias do Sul - Rio Grande do Sul - Brasil, 28 anos
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Luan T Mussoi