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Feche a Porta, meu Filho

Naquela época eu tinha acabado de me estabelecer no Rio de Janeiro. Para um cara como eu, vindo de uma cidadezinha no interior do Nordeste, sabendo bem o que é a miséria, não existe muita exigência quando se vai escolher um lugar para morar, então não escolhi muito. Devia ser o ano de 1967, eu acho – não me lembro a data. Eu e dois amigos alugamos uma vaga num cortiço chamado Biboca, que ficava na Ilha da Conceição. Aquele lugar era um buraco, naquela época; hoje, eu não faço ideia. Uns casebres pobres, uma gente pobre, umas ruas sujas, um lamaçal nojento onde um dia deve ter havido uma praia. Mas eu amava aquelas pessoas. Aquela gente era simples, sem muita vaidade. Era fácil fazer amizade com os caras da vizinhança – futebol no campinho, cerveja no bar e pescaria no píer. Eu tinha muitos amigos na colônia de pescadores. Sem falar do clube. A vida da ilha acontecia lá. O que havia de bom e o que havia de ruim. Eu me lembro da mocinha que não parava de tomar Coca Cola – refrigerante era febre para a juventude naquela época. Ela era linda, eu adorava dançar bolero com ela nos bailes. Era tão apaixonada, gostava de saber das minhas viagens, eu contava um monte de histórias, a maior parte eu inventava – admito. Tinha uma senhora que sonhava que eu namorasse a filha dela. Acreditem quando eu digo que um cara da Marinha era visto como um bom partido ali naquelas bandas, mesmo com a fama que a gente tinha de “homens que não sabiam amar”.
Tinha também os caras brabos. Eram uns bandidos que de vez em quando sumiam no alto do morro, naquela parte que só tem mato. Os caras iam pra lá usar sei lá o que e voltavam com o diabo no corpo. Vez por outra acertavam as contas com seus desafetos, enchendo de bala um zé ninguém no Clube. Mas até mesmo esses caras gostavam de mim. Eles me respeitavam: “Marujo, é só não se meter nos negócios da gente, tá certo? Precisando de alguma coisa, estamos aí”.
O navio tinha chegado havia uns 2 meses e eu estava feliz porque felizmente me designaram para trabalhar na sede da esquadra. Rapaz, isso era muito legal. O Rio de Janeiro não era só a sede da Marinha naquela época, mas era também o lugar onde as coisas boas aconteciam. Garotas bonitas nas praias, bares na Lapa e... Ele! O mais maravilhoso de tudo,a coisa mais magnífica que o Brasil já construiu, que com certeza deveria ser chamado de uma das “maravilhas da humanidade”: o Maracanã. Ahhh o Maracanã! Ver meu Botafogo maltratar aqueles perna-de-pau do Flamengo, Garrincha dando aqueles dribles inesquecíveis... Ah o Maracanã! Eu vi tudo isso de perto. Eu vi a era de ouro do futebol. Voltar pra casa tarde da noite, tomando cerveja pela rua e conversando com meus campanhas, falando das garotas da noite e daquela gracinha que veio desamarrar minha gravata de marinheiro pela manhã. Ah aquele tempo! Eu me perco falando daquele tempo...
Mas teve uma dessas noites que uma coisa estranha me aconteceu.
- Está chegando muito tarde, meu filho... – a velha estava fechando uma barraca de churros na esquina e me deu um conselho que eu não pedi.
Sorri debochado. Que história era aquela de dizer para um marujo que determinada hora era tarde! Eu era dono do mundo, eu era dono da noite, eu tinha acabado de fazer 21 anos e quem nessa idade tem medo de alguma coisa? Eu era um super homem na minha roupa de marujo.
 – “Feche a porta, não se esqueça”... – completou. Parei e olhei a velha. Ela me ignorou, era como se eu não estivesse mais ali. Foi fechando seu negócio miserável, guardando as coisas, um semblante inexpressivo, apenas um final em sua decrépita e repetitiva rotina diária.
A gente estava voltando de uma festa, eu e mais dois. Nós bebemos muito naquela noite, tudo era só alegria e histórias sobre garotas que não resistiram à nossa conquista. Num certo ponto, os caras tomaram outro caminho, eu segui para minha casa. Cheguei no cortiço e estava um silêncio mórbido. Coisa esquisita. Sempre tinha gente jogando baralho e bebendo no bar.
Se não me falha a memória, aquele era um dia santo, desses que as pessoas guardam certas restrições. Bem, mas eu era ateu. Ou pelo menos achava que era. Que Deus que nada! Santo, macumba, bíblia, isso era tudo mentira. Cresci nessa coisa de igreja evangélica, ouvi um monte de histórias sobre o diabo e nunca vi nada. A Marinha me mostrou o mundo e ele era bem maior que a igrejinha da minha cidade. A Marinha foi minha segunda mãe. Eu acreditava era em mim, no meu 38, no rabo-de-arraia que eu sempre levava comigo – todo marinheiro tinha um naquela época.
Entrei em casa e larguei a porta aberta atrás de mim. Isso não era incomum, muita gente fazia. O pessoal do cortiço era todo mundo amigo e, naquela época as coisas não eram tão violentas como hoje. Tudo bem, eu sou um pouco nostálgico, admito. Mas quem na minha idade não é?
Eu me joguei na cama, com sapato e tudo. Guardei a arma na gaveta da mesinha ao lado da cama, desabotoei a camisa e me entreguei ao sono dos justos. Mas eu não conseguia dormir. Tinha alguma coisa errada, eu estava meio no sono e meio acordado, me mexia de um lado para outro, a cama estava especialmente desconfortável naquele dia. Ouvi a voz da minha mãe. “Feche a porta, Vavá”. Mas eu estava muito cansado, não ia levantar dali. Ignorando o mundo real, deixei a voz da minha mãe me acalmar, me concentrando no som da voz e não no que ela dizia. “Feche a porta, Vavá! Feche a porta, meu filho.” – insistia – “Vavá, pelo amor de Deus!” – e eu despertei, me sentando na cama.
O coração estava acelerado e eu suava. Um vento frio entrava pela porta entreaberta e a precária janela de madeira abria e fechava violentamente. Eu me levantei ainda meio tonto. Estava no Rio de Janeiro, tinha um Brasil inteiro de distância da cidadezinha de onde me despedi de minha mãe pela última vez. Aquilo deveria ser alguma alucinação. “Será que alguém colocou alguma coisa na minha bebida?” – pensei.
Um lufada forte de vento entrou pela porta e me jogou sobre a cama. As janelas se agitavam e a porta se abria devagar, com aquele vento frio. Talvez estivesse armando uma tempestade, tinha uns relâmpagos à distância, o tempo estava realmente mudando. Eu me levantei de novo e fui até a porta. Tinha uma neblina densa do lado de fora e eu vi alguma coisa se movendo.
Voltei no quarto, procurei minha arma, mas não a encontrei. Eu jurava que a tinha colocado na gaveta ao lado da cama. Mas ainda tinha o rabo-de-arraia que eu deixei largado na cadeira. “Quem está aí?” – não tive resposta.
- Quem está aí? To avisando, eu to armado. – disse, tentando intimidar, a minha voz quase desaparecia em meio ao barulho do vento.
Ninguém respondeu. Uma sombra se esgueirava pela neblina em direção a um casebre em ruínas. Eu fui andando devagar. Olhei dentro do terreno. Um muro arrebentado, um casebre com portas e janelas em péssimo estado. Uns cachorros latiam ao longe. Resolvi agir com cautela. Tinha algo sinistro ali. Eu sentia alguma coisa passando por mim do meu lado direito e depois do lado esquerdo, olhava e não tinha nada. Era alguma coisa no vento. Eram lufadas frias, parecia que ia cortar a pele. Eu pensava estar lidando com algum ladrão de fundo de quintal, mas aquela altura sequer pensava nessa possibilidade. Pior do que lutar ou trocar tiros com alguém é enfrentar uma coisa que você não sabe o que é. E que parece mexer nas coisas ao seu redor, sem que você possa ver. As histórias que os velhos contavam no Nordeste debruçados nos cercados ou sentados nos degraus das casas me voltavam todas à mente de uma só vez. E de repente eu tinha 6 anos de idade outra vez. Acreditando em tudo aquilo, olhando arregalado, me sentindo ameaçado por um mundo de coisas sinistras diante das quais eu era um inseto. Não gostei de me sentir assim. Tentei afastar aqueles pensamentos – eu era um homem adulto, um cara brigão, inclusive. Do que eu estava com medo?
Contudo, por via das dúvidas, entrei no terreno em silêncio. Passei por uma fenda do muro, pisei num monte de cascalhos até que afundei meu pé em algum tipo de lama.
E esta lama ganiu. Soltou um gemido sofrido,terminal.
Tirei o pé imediatamente, tombando para trás, caindo no monte de cascalho. A cabeça de um cão se movia vacilante, com movimentos circulares, como uma planta balançando ao vento. Uma cabeça em seus últimos momentos, unida a uma lama de terra, sangue e tripas, o que sobrara de seu corpo miserável. Era um som terrivelmente sofrido, porém baixo, como se, apesar de precisar gritar a dor lancinante, tivesse medo de chamar atenção de algo. Me levantei para olhar mais de perto. A cabeça tombou, rolando pelo monte de cascalho.
Senti vontade de voltar. “Merda! Larguei a porta aberta!” – pensei tentando justificar minha covardia. A neblina estava tão densa que eu não via mais minha casa. Fui em frente, pelo terreno baldio.
O que era aquilo? Quanto mais eu andava pisava em poças de sangue e restos de animal. A violência do vento derrubou alguma coisa dentro da casa, que pareceu estilhaçar no chão. Talvez fosse uma janela vacilante que só precisava de um empurrão. Mas eu me assustei.
Havia um quintal de fundos, eu fui naquela direção. Tinha um varal e alguma coisa pendurada. Me aproximei com cautela, a essa altura eu já estava como num daqueles exercícios de guerra que dos quais os fuzileiros navais se gabam, agindo silencioso, me movimentando com precisão. A coisa pendurada balançava com o vento.
Mas também balançava com vontade própria...
Mais ganidos. Oh! Meu Deus, eu sabia o que era aquilo! Outro cachorro. Que mente maluca teria feito aquilo! O animal estava amarrado por uma perna e aberto num corte transversal, seu sangue escorrendo e as tripas caindo no chão. Alguma barbárie impensável estava acontecendo naquele lugar. Meu medo se misturou ao ódio. Eu tinha que saber o que estava acontecendo.
No fundo do quintal, só metade do muro ainda existia. Mais latidos de cachorro vindo dessa direção. Corri até lá. Esbarrei num latão de alumínio e fez um barulho dos infernos. Os latidos aumentaram. E misturaram-se a sons sofridos de dor dos animais. Olhei pela fresta do muro. A neblina não me deixava perceber muito bem o que estava acontecendo. Havia um canal passando ali, uma água fétida, corrompida, correndo sem força, numa existência tóxica, meio perversa. Além do canal, um pátio lamacento do outro lado, uns montes de lixo e umas árvores que pareciam braços cujos galhos eram garras querendo agarrar alguma coisa no céu.
Havia uma sombra maior do que eu se movendo do outro lado. Os cães cercaram aquela coisa e latiam para ela. Num movimento brusco, a sombra agarrou um dos animais e o silenciou. Segundos depois, um som de esmagamento se misturou aos latidos e a parte de baixo do cão veio parar no canal, bem perto de onde eu estava. Agora eu não tinha mais dúvidas. Que quer que estivesse ali do outro lado, não era nada humano. Ninguém tem força para fazer aquilo em um cachorro.
Um dos animais foi arremessado na árvore e eu tive a impressão que um galho morto e pontudo furou a barriga do animal, deixando seu corpo pendurado no alto.
A coisa na sombra começou a atacar os cães agora com golpes precisos, mortais. Os frágeis animais caíam mortos como insetos. Foi então que... – oh meu Deus! - abrindo a neblina, como se fossem as águas de um lago, um cão da minha altura rasgou o véu da noite. A criatura estava tomada por algum tipo de raiva. Babava, rosnava, um rosnado gutural, como o som de um leão velho e cansado. Seus movimentos eram ágeis e ele saltou para a beira do canal, farejava algo. Eu tinha certeza que ele buscava meu cheiro.
Foi então que algo muito pior do que ver um cão da minha altura destroçando os infelizes cães da vizinhança aconteceu. O “cão” ergueu-se. Ficou em duas patas. Não era um cão. Não era um homem. Não era coisa alguma que eu já tenha visto. Não conseguia ver ao certo a cara do monstro, mas seus dentes e sua língua salivando minha morte me pareceram bastante reais. Aquelas patas também não eram de um cão. Era algo em forma de pilar, um pelo rasgado, com umas feridas em carne viva, alguns ossos expostos. A criatura tinha pedaços pendendo de seu corpo que eu não conseguia distinguir se eram partes dos pobres animais barbarizados ou se eram partes daquela deformação que eu via a minha frente, extremamente viva.
Meus pensamentos sucumbiram a alguma reação primitiva, eu simplesmente parei de pensar e somente agia. Um pavor que nunca senti se apossou de mim e pus-me a correr pelo caminho de volta, mesmo não tendo certeza se conseguiria escapar. Corri para dentro da casa velha, me jogando pelos restos de uma vidraça quebrada, rasgando minha carne. Não sentia dor alguma. Corri em direção à porta do casebre ainda trancada e joguei toda a força do meu corpo contra ela, caindo do outro lado. Rolei no chão, me machucando nos montes de entulho e me levantando de pronto, apenas segui em frente, sem saber sequer onde eu estava.
Não vi minha casa. Não vi a casa de ninguém. De repente eu estava na rua do cais, com a água pútrida de um lado e as casas velhas dos pescadores do outro. A luz do poste não vencia a neblina, ficava contida num breve círculo ao redor da lâmpada. Tudo embaixo era somente escuridão. Me lembro de haver pisado em poças de água e ter escorregado e rolado por uma pequena ladeira que dava para um buraco enorme na rua.
Passos largos e pesados no meu encalço. Eu não olharia para trás. Usei todas as forças que tinha para saltar dentro de um barco a remo preso ao píer. Rapidamente me desfiz do nó que prendia a embarcação, enquanto toda a respiração possível não me era suficiente. Eu ia colapsar, com certeza. Peguei um cacareco de remo que, providencialmente fora largado na lama onde estava o barco e pus-me a remar.
Remei com todas as minhas forças. Remei com forças que eu nem sabia que tinha. Remei em direção ao nada, furando a densa neblina sobre a água parada da baía. Não enxergava nada, não sabia para onde remava, tudo que eu queria era me distanciar ao máximo da ilha.
Vi uma luz ao longe, luz fraca, quase que totalmente estrangulada pela neblina. Remei tudo que podia em direção a ela. Aquela luz era tudo que eu tinha. Chegando mais perto, senti um grande alívio. Aquela era a luz da fragata.
- Ei! – gritei – ajuda! Por favor, ajuda!
Remei mais rápido. “Homem ao mar!” – quem sabe falando assim aqueles donzelos a bordo não tomam alguma iniciativa.
As silhuetas de dois marinheiros surgiam timidamente. Eu acenava e remava. E não olhava para trás, jamais!
Eles me resgataram. Eu não sei de quem era o barco que usei para chegar ali e o larguei para trás quando subi na fragata. Os marujos devem ter tomado alguma providência. Ou talvez a capitania.
Subi trêmulo, morrendo de frio e, agora sim, todas as dores daqueles machucados pareciam ter finalmente agarrado meu corpo. Os homens me faziam perguntas. Eu não me lembro o que eles perguntavam, eu não conseguia falar, não conseguia prestar atenção em nada, só queria descansar a bordo, na segurança da fragata, com sua tripulação e todas as suas armas. Ali, juntos, nós saberíamos o que fazer. Sozinho eu não era ninguém.
Estava febril. E com muitas dores. Fui direto ao banheiro, tomei um banho e o pessoal tratou dos meus ferimentos. O cozinheiro a bordo fez um chá e me trouxe uns pães. Sequer consegui terminar a refeição. Tombei na cama e dormi profundamente, um sono sem sonhos, até o dia seguinte.
Não podia contar aquela história ao comandante. Certamente ele me tiraria por maluco e eu seria mandado de volta pra casa. Não queria aquilo. A ilha poderia ter uma noite sinistra, mas a vida de pobreza no Nordeste era um monstro muito pior. Eu não tinha escolha, inventei uma história nada convincente de que alguns marginais tentaram me assaltar e eu me envolvi numa briga e levei a pior, “os caras usaram cacos de garrafas para tentar me matar”.
O comandante me fitou por um tempo, como se a sondar alguma coisa. Ele não estava convencido daquela história mas também não conseguia pensar em outra explicação. Por dias, meses, eu senti que os caras na base me olhavam com desconfiança. Mas eu fiz minha parte, “mantive meu emprego”.
Pedi para ficar de serviço por dois dias a mais. Dormiria a bordo e tiraria o serviço obrigatório de outros marujos que explodindo de alegria iria para casa por duas noites. Voltei para a ilha depois – precisava ver minhas coisas, minha casa e até meus dois colegas de quarto, os quais eu não vi nem mesmo naquela noite.
A vizinhança era a mesma. Tomei café na padaria, talvez ouvisse alguma história. Nada. Rotina normal, crianças brincando, uns caras desgostosos bebendo no bar. O velho abrindo a banca de jornal, enquanto uns garotos falavam de futebol. E a velha, na barraca de churros. Ela não me deu bom dia. “Da próxima vez, só feche a porta da casa, meu filho... E deixe a noite do lado de fora”.
Fui embora e minha casa estava lá. Minhas coisas estavam lá. Ninguém roubou, ninguém mexeu em nada. Minha arma esteve o tempo todo na gaveta da mesinha e, nem mesmo ela, foi roubada. Joguei a mochila com a farda sobre a cama.
E fechei a porta atrás de mim...
Wilde Green
Enviado por Wilde Green em 26/06/2020
Código do texto: T6988579
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Sobre o autor
Wilde Green
São Gonçalo - Rio de Janeiro - Brasil, 36 anos
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