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Suspense Psicológico, Terror
 
 
ONE

Estou com a minha amada Amélia no carro, agora, indo para a casa. Recém Casados! Nossa alegria é imensurável. Ao trocar as marchas, observo a estrada e a paisagem.

— Para povoar a nossa casa Precisamos de algo...

Olhei para ela, distrai-me por um momento. E voltei a direção. Fiquei quieto. Minha apreensão era para dizer nas entrelinhas:

 
— Filho não! Muito cedo para ter filho.

No banco do motorista ao meu lado. Ela está a olhar fotos manuseando o celular. E eu? Medo que ela não abordasse; filho. Justo neste momento. Precisávamos curtir a vida e a nossa recém comprada casa.

— E Ela? Folheando as abas do navegador no celular.

Eu nervoso com a situação já vencido com aquele impasse digo:

— Filho Não!

Ela dá uma risada de soslaio e continua olhando aquele celular, momentos de quietude, eu aguardando finalmente chegar em casa, nossa casa é um pouco afastada em um condomínio fechado para chegar precisamos sempre encarar uma rodovia. Já estava me dando nos nervos, dirigir e tentar adivinhar. Qual é o assunto tão interessante naquele aparelho que a fazia dar risadinhas, que aguçavam a minha curiosidade?
Olhava para a frente, tentando me concentrar na direção. Eu ando com os hormônios a flor da pele, casado novo tem destas coisas.
— Olha este?

Ela disse apontando o celular, ignorando a minha concentração que é necessário, pois estava na direção em alta velocidade.
Antes fosse um filho...

 
TWO

— Um Gato?
— Sim por que não?

Fechei a cara no ato, não suportava os felinos. Isto era algo que me acometia dês da infância. Fiz e aprontei com estes seres que sempre associei com o próprio demônio.

Já  em casa. Ela foi ao esconderijo e pegou a chave. Abrimos, e aos beijos estávamos indo para o nosso ninho de amor.

Eu não cansava dela, sei lá como te explicar leitor, o cheiro a pele, tudo nela me deixava numa excitação.
Dois amantes na cama largado envolto a lençóis.

— Foi bom! Como foi bom!

E eu descansando olhando o teto. Ela? Me olhou com aquele olhar pidoncho.

— Amor...
— Somente um gatinho. Que mal há nisto?

Fechei os olhos e o flash-back da minha infância veio. Lembrei-me de quanto eu era mal.

Já costurei boca de sapo.

Já matei pintinho de galinha, por pura diversão.

Ah sim. Os gatos...

Como judiei de um gato zaroio que nem era meu, e sim da minha irmã.
— Sem chance, não gosto de gatos.

Virei para o lado na esperança de ser voto vencido.
Ela levantou brava que só ela. Foi ao banheiro e voltou.
Ela estava com uma camisola (tipo aquelas camisetas de malha grande). E para o meu desespero:
— Era um gatinho.

Ela de modo insinuante, tirou a camisola.

Fiquei todo assanhado. Mais uma vez nesta manhã de domingo?

 
—Está vendo este corpinho?
—Sim... Coisa linda, todo meu...
—Sem o meu Gatinho nada feito.
E foi:
— Nada feito.

Por dias, estava ficando aflito, estava subindo na cabeça. A Amélia emburrada, mal olhava para a minha pessoa.
Mas não poderia voltar ao meu velho hábito.

Gato era sinônimo de inferno e parecia algo que eu precisava fazer, torturar o bichano, lembrei de ter matado uma ninhada inteira destes animais desprezíveis na casa da minha avó. Os olhos daquela gata desesperada, tentando em vão salvar seus filhotes, e depois atrás de mim, com aqueles olhos malignos prontos para a vingança.

Coloco as mãos na sobrancelha, e a cicatriz não me deixa esquecer aquele dia.

Seria eu voto vencido? Por conta de uma vida conjugal restabelecida precisava retornar um animal deste dentro da minha casa?

 
THREE


Olhava para ela, e passeava pelos seus cabelos, com uma vontade de puxar aquele rabo de cavalo, nossa intimidade está sendo intensa. Como eu estava precisando, aliviar minhas tensões. Ela sorria e me olhava de lado.
Aquele rabo de cavalo. Era irresistível.

Puxei-o
Ela olhou novamente e disse:

— Pare! está me machucando.
— Não liguei e continuei.


Ela por força maior aceitou.
E logo após ela, já cansada daquilo deitou-se.

E outros caminhos ao amor.

Agora eu em cima dela. Ela veio com aquelas unhas afiadas e me arranhou nas costas.

Eu senti a dor.

E terminou nossa felicidade. Ela satisfeita. E eu aliviado.
Na penumbra da noite, fiquei a imaginar, por qual razão eu aceitei aquele devaneio.

— Um gato meu Deus um gato! Não quero um gato...
As costas ardiam.

Ela já dormia ao lado, com leves impulsos felizes. Nós éramos ótimos na cama. Aquilo era muito bom e nossa felicidade estava reestabelecida.

Ainda com o corpo empolgado pela felicidade. Fico a olhar o teto. Sentindo o frio que adentrava pela janela.
Era ele.

Ele estava o tempo todo ali naquele canto do guarda roupa.
Eu não acredito.

Ele me observava!

Os olhos seus vívidos, estavam a todo o tempo estagnados ao meu ato íntimo com a minha mulher.
O gatuno agora descobre que eu o descobri.
Seus olhos refletem a noite.
Eu levanto.
Em cima do guarda roupa.

— Maldito!

Ela está a dormir, não pode acordar, preciso resolver isto e agora!
Já há dias preciso conviver com este hospede maldito, minha esposa o escolheu, em uma casa abrigo para gatos. Foi em meio a muitas brigas. Disse:
— Filhote nem pensar! não quero perder a minha noite tendo que levar leite e ficar a escutar miados desesperados.
 
Mentira, a verdade é que se fosse filhote o colocaria dentro do pote de leite e o mataria devagarinho. Não poderia deste modo alimentar minha doença insana.

— Então será um gato já adulto, disse Amélia. Deixei minha Love em casa, você bem sabe que sempre amei ela, e tive que ceder pra mãe.

Eu sabia? Como sabia. Aquela maldita sempre disputando o amor da Amélia comigo, foi um alívio quando a Dona Mercedes fez birra e não a deixou ir.

Com a maior cara de descontentamento, aceitei, fui no abrigo. E estava lá o maldito. Ele me olhou com cara de ódio, eu sei, eu sinto. E olhou para ela com cara de anjo. — Como pode um ser desprezível destes ser tão dissimulado?

E o dono abriu aquela Gaiola, e a minha esposa com ele no colo. E aquele maldito e todo sonoro. Miau.
Ela abraçou aquele pulguento pode? Meu Deus nenhum estranhamento. Parecia que ela estava colocando todo o amor do mundo naquele ser nefasto.
— Olha amor? meu filhinho! Que coisinha mais linda! Cuti-cuti. Será Poe o nome dele. E mais um sonoro Miau.

Agora tenho que conviver com este ser que me odeia, e eu odeio ele, na casa. Não posso sair que parece me perseguir.

As minhas intimidades eram totais de entrega. Compreende? O silêncio das paredes da minha recém comprada casa, trazia um contentamento de hormônios inimaginável.

Aquele ser desprezível. É hoje que me livro dele. Ainda bem que o belo trato, deixará Amélia dormindo o sono dos deuses, tenho 4 horas para resolver como me livrar deste desgraçado.

— Oh dó... não se adaptou. Sumiu na calada da noite. Simples assim.
O Terreiro, uma isca e um saco de estopa.
Levanto pelado mesmo e faço um gesto brusco e o intrépido atrevido se some daquele lugar.

— Você me paga maldito.
— Como vou me livrar de você?


Ele sai abanando o rabo e vai para a cozinha.
Fui atrás, fechando as portas.
Agora, temos só eu você e está cozinha.

Abri a porta.

Ele se escondeu atrás da mesa.
Vem aquele miau maldito, sinto um remexer no quarto.
Vou com calma e pego um saco de estopa, que usaria para fazer uns pano de prato.

— É ele!

Abro uma lata de sardinha.
O miau é mais convidativo.
Desligo a luz. Agora ando na penumbra.
Ele sente o cheiro e sabe que tem algo bom naquele saco.

Eu preciso me livrar dele e rápido tenho 4 horas somente. Perco minha noite de sono, mas é hoje que sumo com este gato.

Ele entra dentro do saco. Quanta ingenuidade. E quanto barulho. Escuto outro remelexo lá dentro. Corro e coloco no porta malas do carro. ligo a chave, na madrugada pelado dirigindo um carro é rápido e é hoje que me sumo com este gato!

 
FOUR

Ao entrar dentro do carro, ligo a chave, custa a pegar. Seria o frio da madrugada? Duas horas da manhã. Abro o porta luvas e pego um boné, visto-o. Escuto o porta malas se mexer.

Ligo o carro e saio de sorrateio. Aperto o botão do alarme para abrir o portão eletrônico do Condomínio.
Algumas luzes aqui e ali ligadas. Mas a calada da noite me remete a total escuridão.

— O que fazer com o gato?

Passa-me o desejo de voltar para a casa, tira-lo do saco, e tentar a convivência com o bichano.

— Não dá.

Meu corpo inerte a adrenalina esta quente. Acelero. Minha casa é em um condomínio onde preciso pegar todos os dias esta pequena rodovia de acesso. Deste modo. Estou na rodovia que é um pouco afastada da cidade.

Olho os pinheiros em volta daquela deserta estrada. Um carro e outro passa. Nenhum observa que estou completamente nu.

Ao acelerar, penso como me livrar do gato.

Vai ser simples. Vou até um córrego, que tem aqui próximo. E jogo o saco, para que o animalzinho sofra um afogamento.
Ele continua a se mexer.

Ligo o aparelho de som na busca de algo pra escutar no pen drive.
Passa um Senhor com um carro próximo e observa que estou sem camisa.
Fecho o vidro e continuo o meu caminho. Ele para de observar.

Ao chegar onde queria, adentrei no barranco, vi que arranhei toda a lataria com pedregulhos. Do que importa? Livrar-se desta peste é o meu melhor consolo neste momento.

Desligo o carro.

Olho ao derredor, a calada da noite com seu zumbido de grilos.
Estou sozinho; eu, o meu carro e este gato.
Abro o porta malas.
Um saco de estopa quieto.
Nenhum movimento.

— Seria já um gato morto?

Facilitar-me-ia o serviço.

O frio da madrugada estava castigando-me com o frio. Mas a vaga lembrança das travessuras de criança, me fizeram a rir, da minha situação. Pelado, de madrugada na frente de um córrego, a ponto de sumir com o gato.

Eu estava com o meu problema resolvido dentro do saco. Era só jogar no córrego e pronto:

— Acabava. Daí convenceria a Amélia de nunca mais querer se enveredar a ter bichos.

— Não posso com bichos. Eu simplesmente os torturo até ver eles morrer. Qualquer coisa, é mais forte do que eu. É algo que me traz uma satisfação inexplicável.
Com o saco em mãos, vejo que o gato deve de ter desmaiado ou morrido. Seria fácil sem diversão se livrar dele.

Pensei.

— Gato, rabo? Roda-se pelo rabo e joga no rio!

Veio-me aquele desejo que me encheu de adrenalina a ponto de ficar até excitado. Fui até o carro e liguei uma música de Beethoven. Era a nona sinfonia queria fazer aquele ato escutando uma música que me faria pleno na crueldade.

O cenário, o som, meu corpo envolto ao devaneio, há anos reprimido. Estava prestes a extravasar o meu "Eu" verdadeiro.
Abri o saco de estopa.

O gato realmente parecia estar morto.

Peguei-lhe pelo rabo.

O bicho acordou.

A guerra estava feita.

Segurei-o com toda a força pelo rabo.

Ele se contorcia como uma cobra tentando se sair.

Seus olhos pareciam surtir sangue.
Sua boca estava com um salivar, de desespero.

Ele grunhava tentando se livrar das minhas mãos.

E veio para o meu braço aquelas patas.

Eu desesperadamente comecei a rodar.

E rodar e a rodar.

O gato miava alto.

— Mie maldito! Ninguém vai escutar.

Aquele córrego estava escuro e a cada volta o brilho dos olhos do gato eram refletidos pela lua.
Quando eu observei que já tinha conseguido o embalo desejado.
Soltei-o.

Ele voou com um último miado. Meu coração estava acelerado. A excitação de um corpo viril ficou sem o seu brinquedo cruel: — O gato. Eu consegui ver, que caiu.
Na água.

Adentrei dentro do córrego.

Era um desejo meu banhar-se.
Precisava abafar o meu ímpeto assassino e cruel.

O gato sumiu, não o vi sair de dentro da água.

Sai da água, e senti aquele remorso cruel daquelas atitudes erradas que a a gente faz.

Peguei aquele saco de estopa e tentei me secar. Estava frio. Precisava voltar para a casa.
Liguei o carro, e sai, a noite seria a testemunha da minha crueldade.
No caminho um carro de polícia me avistou.
Isto me deixou bastante nervoso.

Como explicar a minha atitude suspeita?

Acelerei sem olhar para o lado.

Precisava voltar para a casa e surtir-me a normalidade da vida. Daquela que não há nada de errado, que não faz nada de errado. Simplesmente normal. Olhei o relógio do aparelho de som.

Era quase 5 da manhã. Abaixei o som escutava o Beethovem que tanto amava. Prometi a mim mesmo nunca mais fazer algo assim. Era a desforra. Precisava de sentir pela última vez a crueldade de judiar. Prometi que meu sexo não seria mais selvagem, estava extrapolando. Onde vou parar com meu libido?

Fiz várias promessas.

Quando entrei na casa. Corri ao quarto e peguei um shorts, era um devaneio passageiro, me excitou, e deixou-me me sentindo um homem viril, tal situação. De segredo, de desfazer de algo. Era somente umas horinhas nunca descobertas por ninguém. Não é? Nem por Amélia. Quem não tem os seus segredinhos?

Olhei ela estava totalmente inerte ao sono, roncava um ronco suave, das beldades, olhei seu corpo envolto ao lençol. Me excitou aquilo.

Fui para o chuveiro tomar um banho, agora quente e gostoso, senti um pouco as dores das unhadas, e vi que não sai ileso, meu braço tinha um arranhão ali outro acolá. Ensaboei-me, olhando a minha masculinidade embaixo daquele chuveiro, me excitei. E o resto foi disposto junto a aquele ralo.
Estava um caco, precisava dormir. Olhei para o relógio despertador, e logo pensei.
— Meu Deus! Sexta feira 13. Matei um gato justo neste dia.

Dei uma risada, terminando de regular aquele despertador, teria somente duas horas de sono. Nada daria errado num dia destes, aliás, o dia já começou muito bem, me livrei de um gato...
 
FIVE

O Despertador toca. Aperto-o para o soneca, Ela me olha e diz.
 
— Amor, vou lá colocar comida e água para o Poe, e fazer o café.
 
Eu abro os olhos, e tento disfarçar ao máximo. — Não vai rolar Poe hoje, pensei. Peguei o travesseiro e tentei tampar a luz do sol que a janela reluzia no meu rosto. Mais 20 minutos de sono. É tudo o que eu preciso.

Eu escuto a Amélia fazer barulho aqui e ali. Senti: — Já sentiu a falta.
Senti também o cheiro bom do café. Levantei estava de shorts. Fui no guarda roupas e escolhi uma camiseta manga longa. O dia seria corrido, a semana estava terminando, no entanto, a sexta feira sempre é o dia que mais demora a passar.
Tomamos o café.

Ela me abordou:
— Você viu o Poe?

Eu olhava para os lados, e tentava não encara-la. Tipo meu olhar diria. Ah quem? O gato? Aquele que voou ontem de noite.
Dei uma risada involuntária com a cena.
— Amor, sério, ele não apareceu pra comer, é muito estranho ele sempre foi esfomeado de manhã.
Dei outra risada, parecia descontrolado agora.

 
— Que que você tá rindo? Não tem graça não viu. Você bem sabe que o Poe é o meu filhinho querido.
 
Depois que deixei a Love com a mãe, adotei este gato.
 
Terminei de tomar meu café. Levantei da cadeira e peguei meu paletó. Dizendo:
 
— Relaxa, gato é gato, dês de que o mundo é mundo eles sempre dão as escapadelas deles.

Continuei imaginando a cena que ainda era vívida nos meus pensamentos.

No escritório o tempo não passava. Ficava me distraindo vendo e lendo sobre o dia de hoje. — Quantas superstições? Bobagens que o povo conta.
Assustei me aqui e ali com alguns vídeos do Youtube. Mas sempre me retornava aquele gato nos pensamentos. Sua boca a salivar, e os miados de desespero que dava quando rodeava naquela madrugada.

Estiquei a camisa, pois senti calor. Uma estagiária ficou olhando meu braço, estava todo arranhado. Disfarçou com as cópias, e eu voltei a camisa ao que era. Realmente tava chamando atenção aquilo. Droga daquele maldito, deixou sua marca no meu corpo. Fui ao banheiro, não tinha dormido bem, precisava deste modo lavar o rosto.

Ao olhar ao espelho, a sobrancelha com a cicatriz, fez me lembrar da minha crueldade com aqueles filhotes de gato. Os olhos daquela gata desesperada tentando salvar as crias. E quando ela pulou no meu rosto, deixando aquele estrago.

Parecia que tinha um barulho em um dos banheiros. Fiquei quieto para ver se era alguém.
Até olhei abaixo da porta para observar se tinha alguém com as calças arreadas. Vai saber não é?
Ninguém.

Parecia que era um ruído, no teto.
Comecei a ter calafrios.
Voltei para o batente, esperando entediado o voltar para a casa. Olhei algumas coisas que não presta na net. Quebrando as minhas promessas. Sempre as quebro. O gato voltava nos meus pensamentos. Ele me olhando após meu momento com a Amélia.

 
— Preciso parar de pensar neste gato!

Ao terminar o serviço, passei buscar a Amélia para voltar para a casa. Na ida veio aquele arrependimento de ter comprado uma casa tão longe da cidade. Condomínio fechado envolve segurança, é uma rodovia, uns 10 minutinhos e já está na cidade.

— Uma rodovia deserta, parecia que estava me escondendo em um descampado isto sim.

Era boa bonita e o preço era atraente.
Comprei. E todo o santo dia tenho que encarar esta rodovia.
Ela entrou. Passamos no posto abastecer, no mercado. E ela quieta.
— Amor? Já na rodovia na volta.
— Sim fale. — parecia aliviado.
— Sério que você não sabe nada do Poe? Ela me conhecia como ninguém. Demonstrava claro, como água cristalina que estava enganando-a.
— Mas era um bom exercício não é? Vai que eu encontre outra, uma distração? Preciso saber dissimular.
 
Ela começou a chorar.
Eu parei o carro.

Ela disse:

 
— Seja sincero pelo menos uma vez na sua vida!
 
Ela de modo abrupto levantou a manga da minha camisa demonstrando os arranhões.
 
— Você sumiu com o gato eu sei! Eu escutei quando você saiu ontem! Como você teve coragem seu monstro! Eu te odeio!

Estava parado no estacionamento daquela rodovia levando sopapos da minha mulher, por conta de um animalzinho qualquer, um gato vira-latas, que foi encontrado num abrigo pense?!
— Pare Amélia, é só um gato. Quer saber? Sumi com ele mesmo, e fui bem cruel pra ser bem sincero com você, e é bom que você saiba pra nunca mais na sua vida me contrariar ouviu! Não quero gato, periquito, papagaio. Nada!
 
— Então como você casou comigo seu safado? Ficava fingindo o tempo todo lá na casa da mãe?

Ela falando lembrava de ter judiado daquela gata também que nem podia ver eu que se sumia.
— Amor é eu e você somente naquela casa, Vamos viver nosso amor.
— Também não estou gostando do teu jeito na cama. Ontem você me machucou viu? Você precisa se controlar. Quem machuca e faz malvadeza com criações, é dois passos já está fazendo coisas que nem gosto de pensar.

 
Olhei pra ela pensando ser voto vencido e disse:
— Relaxa amor, já era, nunca mais que faço e no nosso quarto, você me impõe limites e boa. Agora voltamos pra casa. Sem o gato, só eu e você.
 
Liguei a chave. Ela emburrada.

Eu liguei o som, que foi a trilha sonora do meu ato, dando risadas de lembrar da cena. Parecia me alimentar de cada segundo que rodava e jogava-o para cima.

A miada, o desespero, parecia que estava vivendo cada momento novamente e estava me trazendo um tesão estranho, coisa de inflar a braguilha da calça.
Estava bem próximo do local do despejo.
Decidi olhar para o lado.

Olhei para a Amélia que olhava pra fora evitando me olhar.
Fiquei imaginando a cena da madrugada.

E no barranco eu olho algo sentado. Me observando de longe, aqueles olhos vívidos refletiram a luz do início da noite. Eu vi aqueles pelos, intactos, aquele olhar de que nada aconteceu.
A minha atenção se tomou totalmente a ele. Ele me hipnotizou parecia que estava me tragando com aquele olhar de quietude e sagacidade. Eu disse dentro de mim:
— Não acredito! É ele, e está à espreita bem no lugar que eu o matei: — Como?

Foi rápido ela me puxou.
— Amor, Amor! Olha pra frente. Meu Deus Não!

 

SIX

As dores de cabeça ainda a perseguem.
Os músculos das pernas vez ou outra ainda falham, o que na maioria das vezes rende uma queda. A visão do olho esquerdo se perdeu e a do direito os cirurgiões conseguiram manter com 75 por cento.

No entanto é quando chove à noite e Amélia está esparramada sobre a cama, solitária na frieza do seu quarto, que as agonias daquele acidente retornam como lembranças vívidas.
Tudo naquela noite foi uma avalanche de sensações, na maioria delas horríveis.

O caminhão.

Ela sonha com ele todos os dias.
E nesses sonhos o grito áspero de Edgar era horrível. Mas haviam outros sons tão terríveis quanto: o vidro se despedaçando, o ferro sendo retorcido; o para-choque sendo comprimido contra ela e o seu amado. Os ossos estalando e ainda houve o gosto de sangue... O beijo gélido da quase morte.

E depois aquele cheiro tenebroso de éter. O hospital, o ressurgimento das cinzas. A fuga do coma induzido. O estado vegetativo de Edgar...

Ela ainda o vê. O maxilar quebrado, a língua guilhotinada pelo ataque do volante contra sua face. Os olhos claros derramando sangue, o pescoço roxo, os lábios partidos ao meio, a testa perfurada por estilhaços de vidro.

Até hoje Amélia não faz ideia do que tirou a atenção de Edgar. Não imagina o que o esposo viu naquela parte da estrada que o fez perder a noção e deslizar para a contramão.

A discussão por causa do desaparecimento do gato Poe já se encerrava quando aquelas duas bolas prateadas vieram trazendo toda aquela tonelada de aço na direção deles. A buzina, tão estridente, faz tudo parecer infernal...

 
— Filha...? Ainda ta aí?

A pergunta veio destroçando quilômetros de distância, atravessou o cabeamento telefônico e penetrou o tímpano de Amélia. Por um breve instante o telefone lhe pareceu uma serpente com escamas cinzas e língua pendendo veneno.
— ... Preciso que venha... Se possível... No...
— As dores não passam. Nem as alucinações.
— O que disse Amélia?
— Hã...? Não foi nada mãe. O que dizia antes?
— Por Deus. Já faz um ano...
— E eu não sei disso mãe?
— Então por que não aceita ajuda da psiquiatra que nos indicaram?
— Não preciso. Escuta, vai ou não dizer do que se trata a ligação?
— Nossa, calma! A mãe aqui sou eu esqueceu?
— Desculpe, é que...
— Sei sei... Os remédios. Sempre eles.
— Então mãe, o que deseja?
— Apenas que venha me ver. Na verdade me ajudar a vender... Nossa antiga casa.
— Por quê?
— Bom... É que... Conheci alguém e já chega de guardar lembranças do seu...
— Pai. Seu esposo...
— Que está morto há um bom tempo. Assim como...
— Ele não está morto!
— Mas Amélia...
— Chegaaaa! Edgar não morreu. Ele está apenas...
— Sinto muito filha. Não quis...
— Sim, quis sim. Desde o acidente nossa relação não tem sido a mesma.
— Mas é que você insiste em se prender ao passado filha! Liberte-se di...
— Deixe a chave sob o vaso de Camélias. Se é que ainda há algo naquela casa que você não tenha se desfeito.
— Filha! Me ouça ao menos uma vez!
— Chego aí na quinta e depois disso... Não nos falaremos mais mãe.
— Filha...?!
— E por favor, não esteja lá quando eu chegar.
 
— Amélia...? Alô...? Alô...?

Relembrar da conversa ácida que teve com a mãe na semana anterior ainda machucava. Os dias correram rápidos, a agonia em voltar por aquela estrada só não foi maior que o desprazer de se desfazer da casa onde as recordações eram presentes.

Lá já não havia mais nada que a lembrasse do passado.

A mãe havia feito um limpa, como se tudo pudesse ser simplesmente enterrado naquelas paredes velhas.
Remoer tudo aquilo fez Amélia perder a noção do tempo e quando percebeu a campainha já tocava há algum tempo.

Amélia atendeu à porta e se deparou com Fabíola e Luna; um projeto de mãe e filha que deu certo. Ambas apresentavam um cansaço, mas a menina ostentava um olhar triste, deprimido.

 
— Bom dia. Vim conforme combinamos... Trouxe minha filha. Espero que não haja problemas.
— De modo algum. Qual o seu nome princesinha? - Indagou .

Amélia enquanto se agachava até a altura da menina.
A garota não respondeu. Correu pra trás da mãe e lá ficou, os olhos fitando o chão, parte da mão esquerda dentro da boca.
— Desculpe... É que minha filha passou por alguns problemas e... Ela não fala há dois anos.
A culpa pela indiscrição atingiu Amélia como um soco no estômago.
— Creio que seria bom nos levar pra conhecer as dependências da casa. — disse Fabíola meio sem graça.
— Antes posso oferecer uma água ou café...?
— Pode sim.
— Muito bem. E a...
— Luna. Bem ela pode ser só um copo com água. Por favor.
— Certo. Depois daqui prometo que podemos fazer o tour.

Em pouco tempo as mulheres conversavam como se fossem amigas há décadas. O que deveria ser apenas um bate papo rápido regado a um café quente se tornou uma viajem nutrida por alegrias e decepções do passado.

Enquanto as palavras saíam amontoadas por seus lábios Amélia e Fabíola esqueceram-se de que já foram crianças um dia. Negligenciaram o poder da curiosidade infantil.
E assim, não notaram Luna desaparecer.

Foram poucos minutos, talvez horas. Não dá pra se ter uma ideia quando se trata de crianças. O que realmente importa foi o que aconteceu ali, na casa de Amélia e que talvez muitos não acreditem.
Luna se distanciou da cozinha e se dirigiu até a porta da sala. Algo a incomodava desde que chegou àquela casa. Na verdade a angústia em seu peito aumentou quando ela e a mãe foram recebidas pela "moça triste", dona da casa.

Ela teria contado à mãe sobre a sombra que parecia cobrir todo o local, ou melhor, poderia ter contado sobre as mãos que viu coladas ao ombro da moça triste. Mas de nada adiantaria, a mãe não acreditaria.

Não acreditou nem mesmo quando falou sobre a morte do pai, há dois anos. E como Luna não queria voltar a ver o médico que fazia perguntas estranhas e a induzia a desenhar e ver rabiscos pretos num papel branco, dedicou-se ao silêncio eterno.

Talvez por esses medos profundos Luna tenha tido o impulso de girar a maçaneta e abrir a porta. O ambiente sufocante podia ser renovado com a lufada de ar que entrasse.

Essa era a ideia.

Porém, ao abrir a porta algo entrou.
Passou por entre as pernas da menina e deixou um rastro viscoso e frio.

Arrepios subiram pela espinha de Luna e a fizeram tremer.

Olhou para os sapatinhos vermelhos que calçava e os viu sujos de uma coisa escura. Talvez lama, talvez lodo... Ou seria terra?
Luna olhou pra trás e viu o rastro imundo que subia os degraus da escada.

Então algo pior que o medo lhe ferroou o peito. Uma coisa, provavelmente a mesma que a fez ir ver se o pai estava bem naquela noite há dois anos. Algo que talvez nasça com cada humano ou animal e que muitas vezes é o que nos leva ao encontro da morte:
A curiosidade.

E foi por culpa dela que Luna fechou a porta e, notando que não tinham dado por sua falta, subiu a escada até o segundo andar da casa.

Luna chegou ao outro andar numa rapidez sem igual. O combustível que a impulsionava era forte o suficiente para ignorar o medo.

O rastro escuro permanecia lhe conduzindo pelo caminho, tal como os pedaços de pão a João e Maria na historinha que o pai lhe contava.
Luna passou por três portas fechadas, e pelo pequeno acesso que dava à varanda.

O rastro sumiu justo na porta à direita ao tal acesso. Uma porta como qualquer outra, exceto pela energia que parecia emanar dali.
Luna esticou a mão, alcançou a maçaneta e tentou girá-la. Os nós dos dedos ficaram brancos e cada músculo do corpo ficou tenso.

O medo, naquele breve momento, venceu a curiosidade.

Luna afastou a mão. Os olhos foram para o chão, viu aquele rastro asqueroso e decidiu que o melhor era sinalizar pra mãe que não queria morar ali. Que o correto era dar as costas pra aquela cidade que havia lhe roubado o melhor pai do mundo.

Ir embora era a solução.

Luna girou sobre os calcanhares de modo infantil, mas decidida.

Foi quando a porta começou a abrir.

O rangido da maçaneta girando parecia alto o suficiente pra ensurdecer, as dobradiças gemendo eram como...

 
— Luna...

A menina estancou no meio do corredor. O coração em disparada no peito; os batimentos ecoando como se estivessem dentro dos ouvidos. As mãos úmidas, a pele num misto de calor e frieza.

A porta se abriu por completo e do cômodo um cheiro nauseante se dispersou no ar. Espalhou-se como um veneno e invadiu as narinas de Luna.

Seus dez anos reduziram-se a cinzas e a menina sentiu como se voltasse a ser uma recém nascida total e exclusivamente dependente da proteção da mãe. Apresentada a um mundo novo, o qual nem sonhava existir.
Ela estava ali, à mercê do mal que fazia daquela casa algum tipo de lar, esconderijo.

Luna até tentou reunir forças pra gritar, até mesmo correr. Não queria virar o rosto e ver quem a tinha chamado. Preferiria não ter que ver pra crer.
— Luna... Sou eu... O Papito!
As pernas da menina tremeram.
— Venha... Preciso de você.

Os olhos esbugalhados num pavor visível. Tentou engolir saliva mas a boca estava seca, a garganta áspera como uma lixa de parede.
— Se não vier, vou até aí...

Luna virou-se e viu a porta escancarada. Uma luz fraca vinha do cômodo e uma fina névoa começava a entupir o corredor do segundo andar. O fedor ficava pior e aqueles rangidos que escapavam do cômodo a hipnotizavam.

Então ela deu alguns passos, avançou contra o cômodo.
A boca aberta emitia sons grotescos.

Ela não queria ir, mas ao mesmo tempo ela precisava, ansiava ver. Era como se as pernas a estivessem guiando para a beira do precipício. Forçando-a a pular para o desfiladeiro do medo.
— Venha filha...

Luna alcançou o batente da porta, esticou as mãos e colou o corpo na parede. Decidiu que apenas uma espiada no que havia no cômodo fedorento era o suficiente.

Em seu íntimo sabia que não era o pai quem a chamava, apesar da voz ter usado o apelido carinhoso com o qual ela se referia a ele.

Ela sabia do mal que abraçava aquela casa. Do maligno que assombrava a vida da Moça Triste que já parecia mais feliz com a conversa na cozinha.
Mas a curiosidade... Ela sempre vence.
Então Luna colocou o olhar lá pra dentro.

A boca se abriu. A língua parecia presa dentro de um pote de areia, os olhos ficaram tão arregalados que pareciam desejar saltar das órbitas. As mãos apertaram forte o batente da porta, ao ponto de Luna cravar as unhas na madeira.

— Veio né? O que te ensinei sobre conversar com estranhos menina teimosa?

Luna entrou em desespero.

Que o dono da voz não poderia ser seu pai isso ela já esperava, mas aquele monstro ainda vivo e naquele lugar ainda por cima, era algo impossível de imaginar.

O assassino de Alan, pai de Luna, jazia escondido na casa de Amélia. Coincidência? Luna ainda acreditava em Papai Noel e na Fada do Dente. Era nova o suficiente até pra cantarolar a música tema do filme Frozen, mas acreditar em coincidências? Não, inocência tem limites. Luna sabia disso, seu pai a ensinara bem.

 
— A curiosidade ainda vai te matar! – disse a voz asquerosa.

Luna olhou bem no fundo daquelas duas grandes bolotas prateadas que eram os olhos do dono da voz e lá dentro viu a quem ela um dia tanto amou. Estava lá preso, gritando. Rios de sangue escorrendo pelos olhos, as mãos estendidas tentando a alcançar.
A alma do pai de Luna numa miniatura perfeita, tão quanto as maquetes que a professora de Artes criava na escola.

 
— Quer se juntar a ele menininha? – Indagou o dono da voz.

Luna recuou alguns passos. Lágrimas escavaram os olhos.

O ser monstruoso abriu um sorriso de tubarão e mostrou as garras.

Os olhos fantasmas refletindo o inferno, o hálito de peixe podre atingindo o rosto de Luna, os pelos rajados derramando terra molhada. Provavelmente de cemitério.

— Chegou a hora do pesadelo, Luna...
A fera saltou.

E então, após dois longos anos enterrada em um silêncio sepulcral, Luna falou. Ou melhor, gritou.

 
SEVEN

O grito de Luna foi carregado de pavor. Rasgou o ar e se impregnou nas paredes até alcançar as mulheres absortas na conversa lá em baixo.
— Luna?!

Os olhos de Amélia ainda procuravam a menina pela cozinha quando viram Fabíola partir em disparada para a sala, derrubando alguns pratos e cadeiras no caminho.
Em instantes a mãe desesperada alcançou o topo da escada.

 
— Filhaaaaaa!

Luna gritava a plenos pulmões. Batia contra a porta, chorava pela mãe.

E então, tudo se tornou silêncio novamente.

Fabíola girou a maçaneta quase a arrancando, mas a porta não cedeu. Ela deu pontapés e socos até ferir os dedos.
Nada.

A saliva já não lubrificava a garganta e os nervos tensos faziam-na sentir dor. Mas nada foi suficiente para fazê-la desistir.

Amélia chegou para ajudar; ambas forçaram a entrada batendo com o ombro.

A porta se escancarou.

Quando entraram encontraram Luna no canto do antigo quarto de Amélia.

A menina chorava com os olhos fechados, sentada e abraçando os joelhos.
O cabelo úmido de suor esparramado sobre parte da testa onde arranhões despejavam filetes de sangue.
A roupa de baixo com estampas da Minnie molhada pela urina que desaguou descontrolada e os sapatinhos vermelhos fora dos pés, cheios de terra escura.

 
—  Filha... O que houve meu bem?
 
Fabíola correu e abraçou a filha; apertou com força e desabou em um choro sufocado.

Luna içou o olhar perdido para o lado e apontou para o canto esquerdo do quarto. O dedo indicador tremendo, lágrimas fugindo dos olhos.

A cena deixou Amélia paralisada, as mãos suavam deixando a pele grudenta. O ar abandonou seus pulmões num suspiro profundo. O nervosismo cresceu ainda mais ao olhar na direção para onde Luna indicou.

Fabíola também engoliu em seco. A boca num grito de surpresa. A voz engatando na garganta, as narinas arfando como um touro cansado. Lá em cima de uma prateleira amarrotada de ursos de pelúcia, havia um gato.

Poe, o felino que Edgar se recusava a aceitar estava ali são e salvo há milhas de distância de onde desapareceu.

O animal lambia com calma o sangue de uma das patas dianteiras. As unhas vez ou outra escapavam da pelugem rajada.

Os olhos traziam a noite mais escura, a sanguinolência estampada nos pelos. As garras reluziam a luz de sódio que atravessava a janela, a boca era um poço sem fundo transbordando saliva.
— Mas o quê? ... Craft?! Esse gato...

O monstro quadrúpede se moveu devagar, com algo idêntico a um sorriso repulsivo esticando os lábios finos.

Fabíola pegou a filha nos braços e ficou de pé. Os olhos grandes e vermelhos fitando o animal. O SEU felino, o mesmo que há dois anos...

 
— Craft?! Não, o nome dele é Poe! – disse Amélia aos gritos.

O felino ficou de pé sobre as patas traseiras. Abriu a boca e emitiu um som nefasto; algum tipo de rosnado, que arrepiou a pele de todos.
 
— Chegou... A hora... – disse o animal maldito.

Ele saltou contra Fabíola.

A mulher e a filha caíram. O gato começou a arranhar, tentava alcançar a garganta da mulher. Rosnava como um leão faminto; a boca emitia um hálito podre, as presas eram como pequenas agulhas.

Amélia não sabia o que fazer. As pernas pareciam concretadas no chão. O coração sem ritmo e a respiração escassa fazia arder os pulmões.

Tudo estava perdido, mãe e filha iriam morrer diante de seus olhos e a covardia dela seria a culpa.
Amélia desabou de joelhos.
E quando tudo parecia inevitável, ouviu um sussurro próximo ao ouvido.

— Eu avisei que não queria esse gato...

Amélia olhou para o lado apenas para ver um vulto se dissipar no ar.
Ao olhar pra frente viu o gato demoníaco urrar numa voz quase humana.

Dessa vez de dor.

O animal teve uma das patas quebradas, um dos olhos vazados e parte da barriga voou pra longe num misto de carne e pelos.

O gato rosnava e arranhava o ar.

Fabíola reuniu forças e se afastou com Luna enquanto o gato era içado por alguma força sobrenatural e invisível a seus olhos.
Amélia sabia o que estava acontecendo.

Era Edgar.

Ela o viu arrancar a outra pata do animal. Viu Poe tentar arranhar o rosto carcomido do fantasma em vão, enquanto Edgar lhe cavoucava o corpo até arrancar nacos de carne.

Edgar mantinha um sorriso hediondo no que sobrou de seu rosto. As bochechas esticadas mostravam parte de seus dentes enquanto um dos olhos se liquefazia dentro da órbita escura. A língua deslizava amolecida por entre os lábios partidos, roxa e ferida.

Eram monstros lutando afinal.
Amélia ficou de pé e ajudou Fabíola e Luna a ficarem também.

O fantasma de Edgar abocanhou o focinho do felino e o dilacerou em meio a miados estridentes.

O fantasma soltou o corpo inerte do bichano e se voltou para Amélia. Ainda avançou alguns passos até se dissolver no ar, com as mãos estendidas.
— O que diabos está acontecendo? – Amélia perguntou a si mesmo.
— Não sei, mas não fico aqui mais nenhum minuto! – berrou Fabíola que se afastou do quarto correndo com a filha colada ao corpo.

Amélia se aproximou de Poe e ao ver que este ainda respirava o pegou e lançou pela janela com uma fúria sem igual.

Não demorou muito até Amélia ouvir o som da porta da frente bater em alto e bom som. Ela olhou para fora e viu Fabíola entrar no veículo, para fugir e a deixar com seus próprios demônios.

O carro, um Fiat Uno, avançou contra a rodovia ultrapassando os 100 Km/h.

A escuridão o engolia como um monstro faminto, enquanto os pneus flutuavam sobre o asfalto.
No volante, Fabíola dos Santos.

Advogada, viúva, mãe de Luna; uma mulher que foge pra salvar a vida da filha. Os gritos ainda ecoam em sua mente. O pavor esculpido no rosto de Luna irá provavelmente a assombrar até o fim de seus dias.

Com uma das mãos livres do volante ela procurou cigarros no porta luvas mas não encontrou. Melhor assim. A viagem pra longe daquela sombra felina iria durar quase toda a noite.

Fabíola olhou pelo retrovisor e viu a filha deitada no banco de trás, os olhos inchados e vermelhos. Ainda soluçava, mas não disse uma palavra durante todo o percurso.
— Filha... Quero que saiba que pode falar comigo sobre qualquer coisa... Tá?

A menina deu um forte suspiro e olhou para o retrovisor. Mãe e filha se encararam pelo que pareceu uma eternidade até que Luna abriu a boca.

Fabíola sentiu todo o corpo tremer. Imaginava que iria ouvir, a voz da filha e não GRITOS, após tanto tempo de silêncio. Mas Luna apenas soltou um bocejo antes de deitar e fechar os olhos marejados.
Fabíola aquietou o coração e sentiu as lágrimas rolarem. A filha já sofrera demais.

A mulher manteve a atenção na estrada e conduziu com pressa, odiava viajar a noite.

Lá atrás Luna abraçou um sono tumultuado e já começava a sonhar.
Dali a pouco, quando acordasse, não traria boas notícias.

Já passava das dez da noite quando Amélia reuniu coragem pra descer até a cozinha pra pegar um saco de lixo e um par de luvas. Iria se livrar do gato de uma vez por todas.

Durante o percurso o arrependimento por ter contrariado Edgar a fulminava.
A tragédia toda havia começado por culpa dela. Ou teria sido destino?

Amélia abriu a porta da sala com tais pensamentos lhe perturbando. Andou até o jardim e evitou alguns cacos de vidros até chegar ao local onde o corpo estraçalhado de Poe havia caído.
A mulher parou de repente.
Não havia sinal algum do animal.

No local da queda, uma poça de sangue banhava algumas flores murchas e parte da grama estava tão escura quanto breu, como se algo tivesse entrado em combustão bem ali.

Ao ouvir um miado ao longe, como um aviso tenebroso Amélia correu para dentro de casa e trancou a porta. Foi até a cozinha, apanhou uma faca e subiu os degraus da escada tão veloz quanto pôde.
Lá em cima, antes de entrar no quarto, tropeçou nos próprios pés e caiu.

A lâmina da faca passou perto o suficiente para tirar um filete de sangue da pele. Apenas um corte superficial, ainda assim doloroso.
Mais uma vez ouviu o miado.

Amélia tornou a fica de pé, empunhou a faca e correu para o banheiro. Ligou a lâmpada e se trancou lá.

A respiração ofegante de Amélia ecoava no minúsculo banheiro. A testa borbulhava suor, a faca deslizava na mão suada. A roupa grudando no corpo já começava a incomodar.

O suor escorrendo até os olhos também.

Amélia aguardou alguns minutos até tomar a iniciativa de lavar o rosto. Colocou a faca de lado, ligou a torneira e deixou a água molhar a face. Juntou as mãos em concha e lançou sobre os olhos que queimavam.

Agora estava mais calma.

Pegou a toalha de rosto e se secou.
Passou o tecido também sobre o espelho e foi nesse momento que viu Edgar atrás de si, sangue escorrendo pelos cantos da boca.

— Amoooorrrr...

Ela virou e tentou alcançar a faca.
Mas não houve tempo.
Edgar enfiou a mão no peito de Amélia e o atravessou.

Num primeiro momento, Amélia sorriu. Afinal, se ele realmente era um fantasma, como poderia feri-la? Mas a partir do momento em que uma dor aguda percorreu seu braço esquerdo e pontadas começaram a brotar no peito, ela se deu conta de que aquilo era o fim.

Edgar pressionou o coração de Amélia com toda a força que possuía. Olhou no fundo dos olhos de sua amada e viu, pela janela da alma, a luz da vida se apagar num suspiro.
Longe dali, Fabíola cochilava no volante.

O carro deslizava para contramão quando Luna acordou a mãe com um grito.

— Mas que...

Um caminhão buzinou e por pouco não colide com Fabíola.

A mulher jogou o carro para o acostamento e parou. Olhou para trás e viu que a filha estava ofegante. A boca aberta, o abdômen subindo e descendo. Lágrimas corriam dos olhos sem cessar e as mãos com as unhas enterradas no banco do carro.

Luna era um quadro idêntico ao de quando viu Craft, o gato de estimação, se enlaçar nos tornozelos do pai e o lançar escada abaixo.

Naquela época havia contado à mãe o que testemunhou, mas ela não acreditou. Ali começaram as visitas aos médicos e o silêncio em seus lábios.

Na ocasião Fabíola imaginava que se tratava de algo relacionado ao trauma de ver o pai com aquela feição fria, o pescoço torcido, os dentes quebrados, o rosto numa máscara de morte.

"A menina se culpa pela morte do pai." Era isso o que Fabíola imaginava antes de passar por todo aquele pesadelo na casa de Amélia.
— A Moça Triste... Morreu mamãe.
Luna falou após tanto tempo de silêncio e Fabíola nem ao menos pôde comemorar.
— Como você sabe?!
— Eu... Sonhei.
— Mas filha...
— Iremos morrer também mamãe. Ele já está vindo.

Fabíola virou para frente e viu a estrada como um tapete negro estendido diante dela. Girou a chave na ignição e fez o motor do carro roncar. Engatou a marcha e afundou o pé no acelerador. O carro derrapou rapidamente e voltou para o caminho rasgando a noite.

A voz de Luna ferindo seu raciocínio. Aquele pavor, o medo concreto de que algo ruim em breve aconteceria era de gelar a espinha.
Luna olhou para o céu estrelado e para o outro lado da estrada onde o matagal crescia e parecia vir em sua direção. Lá dentro viu um par de vagalumes piscando, como tochas.

A menina começou a chorar baixinho pra que a mãe não ouvisse e então sussurrou para si mesma:

— Ainda restam cinco vidas ao Craft.

FIM. 
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Wan Moura
Enviado por Waldryano em 07/02/2020
Reeditado em 13/02/2020
Código do texto: T6860560
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