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A dor que nunca dorme


O incômodo se manifestou há alguns meses, mas Cinthia percebeu a gravidade nos últimos cinco dias. Ela não conseguia dormir nem uma hora por noite. A situação se agravou a tal ponto que foi preciso afastar do trabalho por alguns dias sob atestado médico. Cinthia não sabia dizer o que a perturbava, sua vida estava boa, nada extraordinário, tudo normal na medida do possível. O namoro com Samuel ia bem, planejavam se casar no próximo ano, depois de seis anos juntos se convenceram que poderia dar certo. Ela não conseguia entender o que a fazia perder o sono todas as noites. Sua cabeça simplesmente não desligava, permanecia vazia, os olhos secos e vidrados no teto do quarto.
 
Na última madrugada de insônia, Cinthia estava sentada na varanda do seu apartamento como de costume. Levariam duas ou três horas até o nascer do sol. O relógio ainda marcava 4:51. Sentia-se como uma mera espectadora do mundo. Alheia ao movimento da rua abaixo. A cidade se estendia povoada por arranha-céus cor de chumbo. A vista não era bonita se ela mantivesse os olhos focados nas cadeias montanhosas de prédios, por isso, mantinha o olhar nas nuvens laranjas aos primeiros raios de sol.
 
O movimento das nuvens a prendia numa existência sorumbática na qual ela não conseguia dormir nem despertar. Às vezes, sentia o manto da loucura cobrir seus olhos e ouvidos. Cinthia se tornava cega e surda assim que a noite aproximava, permanecia imóvel na varanda sem saber para onde seus sentidos a levavam enquanto o sono não chegava.
 
O médico que atestou seu distúrbio do sono e receitou comprimidos para dormir que não surtiram efeitos. Samuel ligava para ela quase todos os dias, mas não atendia seus telefonemas, pois simplesmente não se importava mais.  Gradativamente, Cinthia mergulhou numa espécie de não-vida. Olhando da varanda o movimento incessante de carros e nuvens misturados. Sua cabeça funcionava em marcha lenta, ela mal conseguia captar as sensações do ambiente tamanha vagareza de raciocínio.
 
O zunido de mosquitos ressoava alto dentro da sua mente que parecia feita de vidro rachado. Os insetos não eram tão grandes quanto soavam, os ruídos ao redor que se tornaram estridentes. Ao ranger os dentes ela percebia que a última gota de paciência estava secando como seus olhos. Mais de dez dias sem dormir, Cinthia começava a ter consciência da dor intensa no centro do seu peito, o coração batia enlouquecido, noutras vezes tinha dificuldade de bombear o sangue.
 
As tarefas corriqueiras deixaram de ser realizadas, pois, suas mãos trêmulas não conseguiam sequer manter um copo firme. Ela permanecia em pé na frente do fogão encarando a chaleira que apitava em seu grito histérico. A água fervente era para seu chá de camomila.
 
Sem qualquer motivo aparente, Cinthia abriu a chaleira e colocou a mão dentro. A carne escaldada dos dedos a fez derramar lágrimas silenciosas, não houve grito. A dor era bem-vinda porque a fazia se sentir real como um ser vivo concreto. Depois de saciar sua necessidade por dor, Cinthia tirou a mão coberta de bolhas, inchada e arroxeada, observou o estrago da sua pele com indiferença.
 
Foi então, na sua última madrugada, que os ruídos voltaram a perturbar seu cérebro na região onde guardamos lembranças perdidas. Eles chegaram como sussurros e se desdobraram em garras aranhando superfícies vítreas, presas triturando pedras. Cinthia se questionava o tempo inteiro se estava enlouquecendo.
 
Eles começaram depois que Lana falou sobre os vídeos de ASRM. Ela disse ao telefone, “Eles vão ajudar a dormir, você vai ver!”. Lana sempre deu ótimos conselhos, talvez por isso mesmo a amizade entre elas se mantivesse firme desde os tempos de colégio. Lana sempre ajudou Cinthia.
 
Quando escutou os tais vídeos de ASMR
[1], não surtiram quaisquer efeitos assim como os comprimidos para dormir. Cinthia se conformou que estava fadada a passar o resto dos dias acordada. A sensação de sonolência se tornara uma lembrança distante. A vida se tornara uma dormência sem sonhos.
 
Cinthia insistiu nos vídeos por algumas noites chegando a pensar que talvez estivesse morta. A paranoia se instalou em sua mente, ela esteve convencida que se tornara um fantasma. Afinal, fantasmas não dormem.
 
A sugestão de Lana veio durante a última semana da severa crise de insônia e depois de dois dias tentando fazer os vídeos de ASMR valarem a pena, algo estranho aconteceu.
Cinthia se esforçava em cumprir seu horário de trabalho, sair com Samuel de vez em quando e manter as cortinas abertas para a claridade dos dias. Havia muito cansaço, e ela lutava contra a aproximação da loucura. Preparou o chá de camomila e foi checar seus e-mails, ela tinha esperança que conseguiria dormir aquela noite, pois nunca tivera quadros de insônia como aquele.
 
Assim que fechou a caixa de entrada, prestes a desligar o computador, uma mensagem saltou no canto inferior da tela. A notificação informava que um novo e-mail havia chegado. Cinthia abriu a mensagem que a direcionou para o e-mail. O remetente estava em branco e no assunto não havia nada preenchido. A curiosidade fez com que ela abrisse, em qualquer outra circunstância teria apenas ignorado. Ao clicar no e-mail ela reconduziu para uma página contendo um vídeo de ASMR.
 
Nesse vídeo, a tela estava focada numa porta de metal ao fim de um longo corredor escuro. Os ruídos eram baixos, quase imperceptíveis, o foco ia e vinha na porta o que a deixou zonza. Cinthia não conseguia desviar os olhos da imagem. O vídeo durou 1 hora e foi o tempo que ela sequer piscou.
A porta se aproximava e crescia para dentro da sua mente, ela ficava na expectativa de que fosse abrir e revelar o que havia por trás. Os ruídos prosseguiam baixos e estranhos. Um líquido quente escorreu pelas têmporas de Cinthia, ela constatou que era sangue.
Não houve desespero apesar da intensa dor que sentia acompanhada do zunido estridente envolvendo seus tímpanos.
 
Cinthia olhou para baixo, sobre o teclado do computador estava uma caneta molhada de sangue. Depois de tal episódio, definitivamente, o sono nunca mais veio. As dores se tornaram a única maneira de Cinthia se sentir acordada e viva. Antes de quaisquer atos extremos, ela escutava a aproximação dos ruídos dentro de sua mente. As cortinas permanecem fechadas para que a claridade do sol não encontre seus olhos. Muito pouco resta de seu corpo imaculado, quase nada. As cicatrizes são as marcas das suas tentativas de sentir-se real. Cinthia mergulha no ciclo infinito de uma dor que nunca dorme acompanhada dos murmúrios infernais que escapam por trás da porta de seus sonhos insonhados. 


[1] Autonomous Sensory Meridian Response, Resposta Sensorial Autônoma do Meridiano, em português) é uma sensação prazerosa obtida, principalmente, através de vídeos que associam barulhos de objetos, sons da boca, sopros e também vozes baixas e calmas. Entre os objetivos, está promover o sono, a concentração e a calma. 
 
Larissa Prado
Enviado por Larissa Prado em 12/11/2019
Código do texto: T6793123
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Larissa Prado
Goiânia - Goiás - Brasil
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