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O VILAREJO (Parte 2/2)

PARTE II


Ao longe, o vilarejo já começava a ganhar forma, graças a luz da lua cheia, que iluminava tudo com precisão absurda. Conforme me aproximava, ia percebendo que o local estava praticamente abandonado, e olha que estou sendo gentil com o 'praticamente'. Luzes apagadas, portas trancadas, tudo parecia ter saído dos anos 30. O que me chamou grande atenção foi um edifício antigo completamente queimado, no meio da cidade. Apesar da iluminação quase nula, ainda dava para perceber. Lembrava uma igreja gótica, com traços bem mais suaves e mal feitos do que estamos acostumados a ver quando falamos sobre. Aquilo era animal, botava um medo danado em qualquer um. Ao que parecia ser o centro do vilarejo, havia um poço de pedras com um balde de madeira ao lado. O fato que me deixou intrigado, talvez fosse besteira minha, era que o balde estava úmido, apesar de vazio, como se tivesse sido utilizado há pouco tempo. Será que alguém ainda morava ali? Próximo ao poço, havia o que parecia ser um cemitério antigo, com uma grande cruz com escritos - ilegíveis - em latim. Okay, aquilo estava ficando um pouco sinistro, eu sei. O sono já estava batendo, já se passavam das 22h e não havia qualquer sinal de vida humana naquele local. Fodeu! Vou ter que me acomodar em algum lugar por aqui.

Resolvi montar a barraca mais ao canto, onde se podia ter uma vista iluminada a distância, poderia ser uma cidade pacata há uns 20km, a vista era deslumbrante. O sono e o cansaço já estavam me abatendo, resolvi permanecer na entrada da barraca. O mais impressionante é que naquela localização existia conexão 3G. Não estou tão só assim. Com a vista, resolvi bolar e acender meu baseado. Finalmente! Coloquei uma musiquinha e fiquei refletindo sobre a vida. Como havia conexão, resolvi pesquisar no Google sobre essa tal cidade esquecida no mapa. "Vila Católica Nossa Senhora do Socorro".

Após procurar por uns cinco minutos, consegui encontrar informações decentes sobre o local. De acordo com o site, teria sido uma pacata vila em meados da década de 20. O local foi projetado para abrigar uma vila católica, sendo a 'igreja', um convento para freiras. Segundo o site, os mais antigos diziam que o local é amaldiç...

"QUEM TÁ AÍ?"

Ouvi um barulho a uns 40 metros de distância. Será que tô brisando, porra?!

Continuando... O local é amaldiçoado, onde reza a lenda que, por volta do ano de 35 o convento pegou fogo durante a noite, inexplicavelmente. Todas as freiras morreram carbonizadas - eita porra. A história conta que coisas estranhas começaram a ocorrer depois que um homem misterioso se hospedara na cidade, nos primeiros anos da década de 30. Ele se dizia católico e enviado por um superior para auxiliar o vilarejo. Conforme o tempo passava, cadáveres de animais começaram a surgir pelo local, inexplicavelmente. Pessoas começaram a desaparecer, outras se suicidaram na calada da noite com cordas e retalhos de roupas nas árvores que ladeavam a vila, enquanto algumas enlouqueceram dizendo ter visto coisas inexplicáveis. Após o episódio do convento, em 35, os habitantes que sobraram decidiram abandonar o local, com medo do que poderia vir a ocorrer. Desde então, a cidade permanece inabitada.

Puff. Pura lenda isso aí, essas coisas não existem. Eu tô muito brisado, meu deus [risos], preciso dormir. [00h24]


...


[01h30] QUE BARULHO DE MATO É ESSE? TEM ALGO AQUI FORA.

Acordei com o coração saindo pela boca tamanho meu susto. Ao abrir, percebi que havia um coelho na entrada da barraca andando sobre as folhas secas, por isso o som. Um alívio...


...que durou cinco segundos...


QUE LUZ É ESSA? Será que eu ainda tô dormindo, ou foi o beck??? Havia uma luz muito clara, e tinha certeza que não era apenas a Lua. Ela mudava constantemente, do branco, para azul, vermelho, amarelo...

Quando eu saí da barraca e olhei pra cima, o que eu vi me deixou sem reação. Eu não soube qual era a origem daquilo, se eu estava brisando ou não, se eu estava sonhando ou não, mas aquilo não era, definitivamente, desse mundo. De repente, o coelho que estava na minha frente dispara em direção ao poço do centro da vila, desaparecendo do meu campo de visão. Eu tô sozinho de novo, não consigo me mexer, não sei o que fazer, a quem recorrer...

A última coisa que me lembro foi de uma luz lilás muito forte surgindo. Depois disso, foi como se eu tivesse perdido completamente a consciência.

...

[07h45] Acordo assustado, com a luz do sol sobre a barraca. O que foi aquilo??? Eu não sei o que pensar. Sento sobre uma rocha próxima, tomo algumas goladas da garrafa d'água, tento forçar minhas memórias, mas nada emerge delas. Olho para o vilarejo, e sinceramente, fico impressionado com o quanto aquele lugar parece muito mais assustador de manhã do que a noite. O prédio totalmente queimado é apavorante, assim como as casas abandonadas. Resolvo explorar o local, sem tocar nas janelas e portas completamente cerradas. Vou em direção ao cemitério. A frase registrada na cruz agora está mais legível, apesar de não saber o significado do que está escrito: "Quae fieri necesse est, illa pro tempore fiunt". Continuo caminhando ao redor e me deparo com o balde do poço caído. Teria sido o coelho? Então não estava sonhando realmente! Ao me aproximar do poço, vejo algo brilhante dentro do balde - tenho certeza que aquilo não estava ali quando cheguei. Me aproximo, abaixo devagar e encontro o que poderia ser um broche, uma peça, ou pingente dourado. Definitivamente, aquilo não é desse mundo. Parece uma Vimana ou qualquer coisa que o valha. Guardo aquilo, arrumo minhas coisas e sumo daquele lugar o mais rápido que posso.

...

Dois anos já se passaram desde que esse fato aconteceu. Infelizmente, até hoje, não sei o que ocorrera naquela noite de verão. Foi um delírio? Uma 'brisa' devido ao entorpecente? Sinceramente, eu não sei... Tudo o que eu contei é real, não teria motivos para mentiras. Cabe a você acreditar ou não. O "broche" ainda permanece comigo, assim como o aprendizado em ser mais cauteloso com os locais que visito.

Tome cuidado nas suas próximas viagens.
___________________

Salazar Albuquerque
Enviado por Salazar Albuquerque em 16/10/2019
Reeditado em 16/10/2019
Código do texto: T6770985
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Salazar Albuquerque
Vinhedo - São Paulo - Brasil, 24 anos
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