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A MALDIÇÃO DO DIA DAS CRIANÇAS
 
Hoje é dia das crianças, para alguns é o símbolo de uma comemoração singela e afetiva, para mim é a personificação de uma lembrança apavorante, já com os meus cinquenta anos não me sinto à vontade para esconder-me por mais tempo em meus próprios pensamentos. Eu tinha dez anos na época, no auge de minha infância, e neste dia em especial iria com meus pais ao circo, era filho único.
Estava nublado, o dia estava escurecido, e na pequena cidade todos estavam indo ao espetáculo de domingo, todas as crianças estavam animadas, todos bem vestidos para contemplarem o palhaço que iria fazer a estreia no local. Chegamos rapidamente ao circo, estava lotado, apesar de a cidade ser pequena, o fato de ser dia das crianças criava um laço entre todas. Estava um pouco frio dentro do circo, algo parecia estranho para mim, havia uma energia ruim, as crianças estavam a correr enquanto iria começar o espetáculo, e eu estava sentado ao lado de meus pais, que até estranharam o fato, mas preferiram não comentar nada, afinal, era dia das crianças.
Começou o espetáculo, aquelas coisas mirabolantes estavam a me deixar com um certo medo, não sei o que tinha dado em mim, nunca havia sentido medo de palhaço, nem de circo, mas algo nos olhos daquele palhaço me deixavam com medo, as outras crianças pareciam não sentir absolutamente nada. De vez em quando chamavam crianças para uma dinâmica, uma brincadeira, e fui escolhido em uma hora para uma mágica; subi ao palco, e aquele palhaço me olhava de uma forma diferente, parecia sentir que eu estava com um pouco de medo, quando me tocou senti um calafrio, e seus olhos estavam fixos nos meus, a mágica foi feita e fui para a cadeira.
Ao fim do show, enquanto todos saiam fui chamado: ei, venha aqui! Virei-me para ver quem era, e o palhaço me chamou, meus pais me mandaram ir lá com ele, e disseram que me esperariam no carro.
Fui em direção ao palhaço, e tudo me assustava muito, ele perguntou se eu havia gostado do show, eu disse que sim, convidou-me para conhecer sua casa outro dia, disse que diversas crianças iam brincar lá, e que tinha um espaço reservado a elas; soltei sua mão e corri em direção ao carro, e fiquei surpreendido pelo descaso de meus pais em não se preocuparem com a situação, então fomos para casa, eu não sabia o porquê daquele medo repentino por palhaço, e o interesse dele em mostrar-me sua casa.
Eu era uma criança sem amigos, não iam à minha casa, não andávamos de bicicleta pela cidade, então eu brincava sozinho; eram duas horas da tarde e fui passear um pouco de bicicleta e aproveitar até o fim do dia das crianças, quando de repente vi um homem a chorar nos cantos de uma árvore, estava extremamente triste, perguntei-lhe o tinha, quando se virou puder ver o palhaço com os olhos borrados e vermelhos, conversamos um pouco e vi que não poderia ter medo de uma pessoa tão boa, que estava triste, pois neste dia das crianças ele se lembrara de seu filho que morrera há dois anos, senti até dó dele, ele disse que gostava de crianças, pois elas lembravam seu filho.
Ele convenceu-me a ir à sua casa para fazer companhia, quando chegamos à frente dela, vi que era uma casa antiga, de madeira, mas que era bonita, formou-se um tempo de chuva, então o mesmo pediu-me para entrar, pois iria molhar-me lá fora. Quando entrei na casa senti um calafrio, vi a foto de um garoto pendurada na parede, parecia ser filho do palhaço, ele colocou uma música para relaxarmos, confesso que na hora que ele colocou a música fiquei apavorado, parecia um enredo de filme de terror de um assassino, ao colocar a música olhou-me e deu um sorriso macabro.
O palhaço me mostrou seus diversos quadros que tinha pela casa, algumas brincadeiras, alguns truques de mágicas, quando tirou de sua gaveta, depois de uma hora, um imenso livro negro, e me disse que gostava muito e que tinha aprendido muito com o livro. Neste momento ele foi ao banheiro e me pediu para esperar um pouco ali, de curioso, abri o livro; vi imagens bizarras, textos assustadores, histórias de assassinatos e rituais...
Ouvi passos vindos distantes, voltei ao lugar de onde estava esperando; ele veio com uma máscara de palhaço ainda mais assustadora, estava com um manto negro, chamou-me em sua direção, e disse: não conte para ninguém o que irei te mostrar agora! Ele me levou ao porão, estava muito escuro, estava frio, foi quando senti um baque muito forte em minha cabeça, e desmaiei. Quando acordei, estava em uma espécie de cela, e inúmeras crianças estavam mortas no chão, me desesperei e comecei a gritar por socorro, quando percebi que dois garotos estavam escondidos sobre o pouco de sombra que vinha das paredes, eles me disseram que o palhaço fazia as crianças de escravas, e que depois se alimentava de sua carne, um dos meninos estava sem perna, e o outro sem braço; disseram também que o palhaço escolhia uma criança para levar a uma outra sala, e que não sabiam o que acontecia lá, apenas que ouviam muitos gritos e pedidos de socorro, algumas meninas voltavam sem roupa, algumas morriam de tanto sofrimento, quando vários corpos estavam em decomposição os levava para cozinhar o que restava deles e enterrava os ossos no quintal da casa.
O palhaço iria escolher uma das crianças para um ritual que para ele, lhe daria a imortalidade, em troca, daria a alma da criança a um espírito. Quando terminaram de me contar pude ouvir um barulho de porta enferrujada se abrindo, era o palhaço que estava ali, escolheu o garoto que havia me contado tudo desta vez, e me disse: você vai gostar da brincadeira, com uma risada maquiavélica. Ouvi gritos vindos da outra sala, estava realmente sentindo na pele um extremo terror, o garoto pedia para parar, e o palhaço ria e dizia: você não devia ter sentido medo.
Passou-se um tempo, a porta se abriu e o palhaço jogou o menino no chão como se fosse um animal; todos nós estávamos desesperados, sem saber o que fazer, o outro garoto que estava ao nosso lado se suicidou sem que víssemos, com uma agulha, teria cortado a própria garganta. O tempo parecia não passar, estava escurecendo e eu apenas pensava em meus pais, já deveriam estar me procurando, havia um pequeno rádio nos fundos da sala, o liguei, e os radialistas estavam comentando sobre o palhaço, que estava dando um espetáculo nesta noite para milhares de crianças.
Passaram-se duas horas e o palhaço trouxe mais duas crianças, fomos obrigados a nos alimentar do garoto que estava morto, quando terminamos, ele levou a mim e mais um menino para a sessão de tortura, ele nos amarrou, dava chicotadas, choques, nos marcou com um símbolo estranho, mais uma vez desmaiei. Acordei dois dias depois e restava apenas o garoto que estava comigo na sessão de tortura, e havia uma garota que estava toda ensanguentada no chão, ela parecia ser uma adolescente e já tinha sofrido tudo que eu nem poderia parar para imaginar.
Sofremos por mais uma semana, quando montamos um plano, para nos libertar, quando o palhaço abriu a porta, o garoto ao lado deu um grito muito alto e xingou o palhaço, enquanto ele estava correndo para cima dele eu peguei uma pedra e com todas as forças atirei sobre sua cabeça, ele caiu no chão, enquanto isso nos saímos e trancamos a porta, passamos por um túnel revestido de corpos humanos, subimos às escadas do porão, quando íamos abrir a porta ele apareceu na nossa frente, estava com o ódio ainda maior e a máscara havia caído, percebemos que era um homem sem face, com poderes sobre-humanos, que se alimentava de nossos medos, coloquei em minha mente que não sentia medo, e consegui me libertar, parecia que o palhaço não estava a me enxergar, apenas aos dois, que voltaram à prisão. O que eu poderia fazer? Pude sair pela porta e vi que ainda estava escurecendo, andei até à minha casa, e tudo parecia normal, meus pais perguntaram porque demorei um pouco para chegar, resolvi não contar-lhes a história, porque não iriam acreditar.
À noite, quando olhei pela janela, o palhaço estava a me assombrar, às oito horas da noite vi uma mensagem escrita na parede: não conte a ninguém, senão seus pais irão morrer, depois você. Por algum motivo isto não saiu de minha cabeça, tive diversos pesadelos, vi diversas coisas sobrenaturais, e sempre a figura de um palhaço era eternizada em minha mente.
Dias depois se descobriu que o tal palhaço era um assassino em série, que já tinha matado milhares de crianças e adolescentes, os corpos estavam em sua casa, estavam desaparecidos há dias, há anos, tudo foi descoberto quando ele foi flagrado tentando levar um garoto à sua casa. O palhaço não resistiu à prisão, e disse que não era ele quem mandava em seu corpo, os médicos chegaram ao diagnóstico de psicopatia, disseram que ele sofria de psicose também; dias depois o palhaço se matou na cadeia e escreveu uma carta com apenas uma frase: o palhaço ainda não morreu, as crianças continuarão a morrer.
Em todos os dias das crianças milhares desaparecem, a maioria dos corpos não são encontrados, mas tem uma coisa que me esqueci de contar: eu posso ver cada uma delas, eu sinto suas dores, eu vejo seu sofrimento. Não tive mulheres, nem filhos, sou sozinho, meus pais também foram assassinados, e eu não sei por que isto aconteceu comigo, só sinto que fui o escolhido e a qualquer momento o palhaço.
 
Itacoatiara-AM, 12 de outubro de 2019.
Abraão Marinho
Enviado por Abraão Marinho em 15/10/2019
Código do texto: T6770731
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Abraão Marinho
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