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FUMAÇA ( DTRL 37 — TERROR INFANTIL )

                       


  Tudo que ele precisou, foi encostar em mim. Nós mantínhamos inúmeras conversas antes deste toque, eu deitado em minha cama, ele debaixo dela. Ele me dizia que vivia em um lugar fantástico, onde você poderia fazer o que quisesse e ser o que quisesse.
Eu perguntava se as pessoas brincavam de pique-esconde lá embaixo, e ele me respondia que as brincadeiras nunca cessavam por lá. Eu sorria, olhando para o teto e sentindo uma vontade absurda de me virar e espiar para baixo da cama. Só que eu não podia fazer aquilo, pois ele me dizia que eu não era capaz de vê-lo, apenas de ouvi-lo. Também sentia um cheiro ruim que vinha lá debaixo, mas achava que seria desrespeitoso de minha parte lhe dizer aquele tipo de coisa.
Quando ele tocou em mim, estava escuro e frio. Eu senti um raspar gelado pelo antebraço, como se uma unha cumprida deslizasse por ele. Aquela sensação subiu até a altura do cotovelo, depois desceu bem devagar, num toque malicioso mas ao mesmo tempo angustiante. Eu queria abrir os olhos e ver o dono daquele dedo, encarar o causador do meu arrepio, mas eu não podia. Ele me pediu para não olhar, então eu não olhava. E quando você tem apenas sete anos de idade, você obedece quando sente medo.
Fato é que aquele toque durou apenas alguns segundos, mas os seus efeitos duram até hoje. Desde aquela noite eu passei a transpirar fumaça.


Naquela mesma semana, minha mãe procurou diversos especialistas na área da medicina, mas nenhum deles soube nos dar um resultado conclusivo. Um deles, um senhor gordo e com alguns fios de cabelo grisalhos, chegou a dizer que eu havia adquirido uma espécie de germe, e que provavelmente minha mãe estaria correndo perigo se continuasse entrando em contato com aquela fumaça. Ela até chegou a acreditar naquela hipótese por longos quinze segundos, depois disse que jamais iria se afastar do próprio filho e mandou o doutor ir a merda antes de se levantar e sair de seu consultório. No caminho de volta para casa, não havia quem não me encarasse dentro do ônibus. As pessoas deveriam pensar que eu estava prestes a pegar fogo, e em determinado momento reparei que uma senhora se levantou para abrir a janela. Pensei que minha mãe iria dizer alguma coisa gentil para aquela senhora ( algo que fosse muito mais do que um simples vá a merda ) mas ela não o fez. Ela permaneceu em silêncio durante toda a viagem, e as vezes eu notava que ela secava alguma lágrima com o pulso.
Aquilo me fazia pensar que ela estava triste por minha causa. Eu não tinha idade suficiente para compreender que o sofrimento dela era algo muito maior, que na verdade aquelas lágrimas não eram de tristeza e sim de medo.
Eu passei mais duas semanas fumegando em minha casa, sem permissão para sair além dos portões de minha residência. Por sorte, eu estava de férias da escola, mas de alguma maneira sabia que aquelas férias seriam eternas. Minha mãe não iria permitir que eu fosse até a escola daquela maneira. E as mães das outras crianças não iriam aceitar que os filhos dividissem o ambiente com alguém como eu.
Então eu estava fadado a viver para sempre em meu mundo fantasmagórico, onde sempre estaria rodeado pelo meu próprio nevoeiro. Nem mesmo o meu amigo que vivia sob a minha cama havia aparecido mais. Aquele toque com a ponta do dedo frio foi a sua maneira de se despedir, e a fumaça é a sua eterna lembrança de amizade.
Eu até achava que tudo ficaria bem, que nada poderia ficar mais estranho em minha infância, que conversar com alguém que vivia embaixo da minha cama e começar a transpirar fumaça seria o auge das minhas aventuras de menino, mas então comecei a notar que estava mais leve.



Minhas roupas começaram a ficar folgadas, e eu tinha de segurar as calças pela cintura para que não caíssem. Eu sentia como se o meu peso fosse feito de pluma, e os meus passos por vezes não podiam ser escutados. Em algum momento, minha mãe foi capaz de começar a perceber aquela nova mudança em minha vida, e acho que este momento até que demorou um pouco para acontecer. Mas não a culpo por isso, afinal ela andava preocupada com minha outra situação, com toda aquela fumaça evaporando de mim. E também havia o problema com a saúde dela. Minha mãe sofria de pressão alta, tinha pedras nos rins e uma dor aguda em um dos joelhos que ficava ainda pior quando estava prestes a chover.
Quando ela notou que eu estava mais magro, nós estávamos jantando na sala de estar. Eu segurava o prato com uma das mãos, sentado na posição de lótus em cima do sofá. Ela estava diante de mim, na poltrona e com o prato praticamente intocado. Já fazia quase uma semana que ela não vinha se alimentando bem, de modo que não era apenas eu a ter o peso reduzido.
— Suas bochechas estão ficando encovadas, — ela me disse. — Mas você tem se alimentado regularmente. Aposto que tem haver com essa droga de fumaça.
Eu tossi como resposta, e então eis que mais uma etapa de minha infância estranha se revelou : um vapor de fumaça saltou de minha boca como se eu estivesse fumando.
Assim como o restante que saía do meu corpo, esta também subiu devagar pelo ar, em ondas irregulares e depois desapareceu. Minha mãe quase deixou o prato cair, e com uma das mãos cobriu a boca. Meus olhos acompanharam a fumaça até ela quase tocar no teto. Um instante depois, minha barriga roncou e eu devorei o prato de macarrão com batatas.


Eu passei o restante de minha infância sofrendo com a minha perda de peso. Eu comia tudo que aguentava comer ( até mesmo os biscoitos recheados que minha mãe escondia na prateleira sobre a geladeira ) e ainda assim meu peso mais diminuía do que aumentava. Não era algo que acontecia exageradamente, tanto que dos doze aos quinze anos minha perda foi de apenas dois quilos.
A fumaça também pareceu diminuir, pois naquela época de minha adolescência ela preferia evaporar pela boca, de modo que o restante do corpo expulsava apenas alguns filetes. Também foi nessa época que eu comecei a armazená-la em garrafas Pet, soprando o máximo que conseguia de fumaça para dentro delas e fechando com a tampa logo depois. A fumaça ficava presa ali dentro, dançando em círculos e de maneira incansável, nunca se esvaindo por completo. Algumas adquiriram um tom alaranjado depois de certo tempo, e eu às ficava observando por horas, como um cientista louco a procura de respostas. Nunca fui capaz de compreender o que era aquela fumaça, apenas sabia da onde ela tinha vindo e como ela havia sido transferida para mim. Preferi não contar nada para a minha mãe sobre a coisa debaixo da cama ( quem acreditaria nesse tipo de história contada por uma criança? ) e até hoje acredito que ela morreu achando que eu estava mesmo contaminado por alguma espécie de germe.
Não afasto essa possibilidade por completo, já que desde que passei a armazenar toda essa fumaça, sinto como se alguma coisa dentro de mim a quisesse de volta. Então, quase que diariamente, eu vou até o porão e abro uma das garrafas diante da minha boca. A fumaça vem para dentro devagar, sugada por alguma coisa ou milhares delas. Venho fazendo esse tipo de coisa há alguns anos, e por vezes acabo me sentindo como um viciado. Sempre que termino de sugar a fumaça de volta, caio sentado no chão e começo a chorar. Há cerca de duas semanas, parei de descer até o porão.
Decidi que não posso continuar alimentando seja lá o que for que aquela coisa enfiou dentro de mim. Desde então, meu peso tornou a cair. Mas não apenas isso. Algumas partes de mim não são mais humanas. Elas nem sequer existem mais, pois viraram fumaça e sumiram no ar. Hoje mesmo estou calçando apenas um de meus sapatos. O esquerdo, pois o direito evaporou no exato momento em que acordei pela manhã. Nada disso dói de fato, mas sinto como se ele estivesse outra vez debaixo da minha cama.
Talvez para buscar algum coisa.

  TEMA : BICHO-PAPÃO
dissecando
Enviado por dissecando em 14/10/2019
Reeditado em 14/10/2019
Código do texto: T6769286
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
dissecando
Nova Santa Rita - Rio Grande do Sul - Brasil, 33 anos
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