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O Milagre

A vida de Romualdo chegou ao fim quando um cara, completamente drogado e nervoso demais para estar com a arma na mão, puxou o gatilho após Isabel ter feito um gesto brusco ao ser tocada por um dos assaltantes. Por sorte, ela não morreu, mas a bala do .38, conseguido numa favela próxima, atingiu uma das vértebras da adolescente e a sentenciou à cadeira de rodas.
Romualdo era uma ótima pessoa e um policial exemplar. Mas a segunda tragédia de sua vida (a esposa morrera num acidente de trânsito por causa de um motorista embriagado 15 anos antes) foi mais do que o suficiente para fazê-lo mudar. E como todo fim há um recomeço, o seu renascimento foi marcado por chumbo, sangue e morte.
- Tem certeza que são eles? – Romualdo perguntou aos colegas que o levavam até o terreno baldio onde encontraria com os homens que acabaram com sua antiga vida.
- Absoluta, Romualdo, esses caras são como baratas, você taca o chinelo e mesmo assim eles voltam. Pode confiar. –Magalhães respondeu.
Os rapazes, magricelos e ostentando relógios grandes e tênis de marcas caras, estavam amarrados e sob a supervisão de outros 3 policiais.
Romualdo parecia um pouco incerto, em16 anos de corporação, nunca precisara puxar o gatilho, e assim que chegou, 4 armas foram oferecidas a ele.
- Comecem a falar! – Magalhães ordenou.
Os rapazes que deviam ter poucos anos a mais que sua filha que ainda estava no hospital e graças a Deus já fora de perigo, estavam horrorizados.
- Por favor, doutor, não mata a gente, nós é trabalhador e tem família.
- Falem senão eu estouro a cabeça de todos vocês! – Magalhães apontou a arma e os 3 rapazes se encolheram contra o muro.
- A menina se moveu de repente, Buru pensou que ela estava armada e sem querer puxou o gatilho. Poxa, doutor, a gente só queria assustar ela, nunca que nós ia meter um assalto pra matar alguém. – Um deles se explicou.
- E quem é o Buru?
O vulgo foi logo denunciado.
Magalhães se virou para Romualdo e lhe estendeu a arma.
- Eu não disse. Agora é com você.
Romualdo pegou a arma e apontou para os jovens acuados que outra vez se encolheram contra o muro. Ele parecia hesitante, os colegas policiais acharam que ia amarelar. Mas apenas encarava Buru e se perguntava que direito aquele desgraçado tinha para acabar com todos os sonhos de sua filha. Pensaram que ela estava armada? Porra nenhuma!
- Por que você fez aquilo? – Perguntou.
- Eu não queria, doutor, eu juro que não...
Um estampido seguido de uma bala que atravessou a cabeça de Buru e fez com que os miolos dele escorressem pelo muro não deixaram que ele terminasse de responder. Romualdo apontou a arma para os outros dois que começaram a chorar e deu a eles o mesmo destino que o companheiro de crime.
- Boa, Romualdo, três balas apenas para matar esses três vermes, eu sabia que você era o aço! Então, fecha com a gente?
- Ainda não sei, Magalhães – respondeu devolvendo a arma de numeração raspada ao colega – tenho que pensar bastante. Ainda não sei como vai ser a minha vida daqui pra frente, minha filha numa cadeira de rodas, cara – ele lutou para conter as lágrimas – que tipo de Deus permite uma coisa dessa?
- Calma, cara – Magalhães o afagou – o importante é que quem fez aquilo já pagou com a vida. Cuide de sua filha e me ligue quando tiver uma resposta.
Matar os 3 assaltantes que, por acidente ou não, aleijaram a sua filha não foi nenhum peso na consciência. Romualdo dormiria noites tranquilas facilmente. O que o atormentava era a feição de Buru. O policial tinha quase certeza que já havia prendido aquele safado alguns anos antes. E ele teve a oportunidade de puxar o gatilho e não o fez. É claro que isso podia ser uma coisa de sua cabeça, e era melhor pensar assim, porque a última coisa de que precisava era de se sentir culpado pelo que aconteceu à filha. Mas também não podia ignorar o que estava sentindo e tampouco mascarar com uma racionalização de que era o seu subconsciente e qualquer merda dessa. O mantra que permeou suas noites dali a muito tempo foi que Isabel estaria saudável se tivesse feito como os outro policiais faziam.
Magalhães o aguardava no grupo de justiceiros que estava montando.
- A justiça nesse país não funciona, Romualdo, se a gente não agir na obscuridade, esses vermes vão continuar à solta. Já estou cansado de enterrar colega para esses filhos da puta dos direitos humanos passar a mão na cabeça e para um juiz arrombado mandar soltar. Pense nisso, seremos como super-heróis.
  Romualdo não podia negar que concordava com Magalhães. Era foda ser um policial militar no Rio de Janeiro, onde para cada bandido morto, havia 10 jornalistas e 10 capas de jornais questionando se a PM tinha agido corretamente, mas para cada homem da lei que caía nessas operações suicidas, mal existia uma nota de rodapé.
- A gente pode mudar isso, Romualdo, vamos tirar esses vermes das ruas. Vamos limpar essa cidade!
Em sua vida antiga, Romualdo jamais seria capaz de infringir gravemente a lei participando de um grupo de extermínio, mas aquele Romualdo não existia mais. Se havia gente dirigindo bêbada e aleijando pessoas, ele também podia dançar conforme a música e evitar que outras famílias tivessem seus sonhos destruídos.
Romualdo não perdoava ninguém. Ele atirava para matar e estava pouco se fodendo para a história triste da pessoa que estava do outro lado da sua mira. Seu julgamento era rápido e sua sentença, eficaz. Nenhum deles se levantaria daquelas covas rasas ou sairia de dentro do mato alto para cometer o erro pela segunda vez. Em um ano, viu muita coisa – desde adolescentes clamando por misericórdia a homens terríveis encarando a morte com assustadora naturalidade. Mas não importava, sua Magnum de numeração raspada sempre cuspia a fagulha mortal que erguia em seguida um jorro de sangue, cérebro, ossos e tufos de cabelo.
E foi assim até perder as contas de quantos traficantes, assaltantes, sequestradores, assassinos e viciados mandara para o inferno. Policiais que tentavam impedi-lo também entravam na surrada dança da morte, e, os anos de polícia lhe provaram que era fácil forjar cenas de crime. O grupo de heróis criado por Magalhães não só havia crescido depressa como se tornado bastante rico e influente na zona oeste da cidade.
- Eu não te disse que seríamos como heróis. – Magalhães disse com um imenso sorriso nos lábios quando estavam indo se encontrar com uns fornecedores de armas.
Romualdo não se sentia um herói, mas, realizado, pois era assim que um homem devia se sentir quando cumpria o seu dever. Mas tudo mudou depois que eles sorrateiramente entraram na favela da Grota e exterminaram 15 traficantes de forma rápida e limpa. Só ele, havia eliminado 3 daqueles vermes com tiros dignos no coração. Costumava dizer que era o mínimo que podia fazer pelas mães daqueles safados.
Só que não era bem uma quadrilha de traficantes, afinal, que criminosos se organizam para planejar alguma coisa sem levar as armas? Romualdo estava anestesiado pela adrenalina da matança que sequer pensou a respeito disso naquela noite. Tratava-se de uma pequena cooperativa de transporte alternativo que era um pequeno calo no sapato no grupo dos super-heróis. Quinze pessoas que só queriam levar o sustento para suas famílias que Romualdo pensou estar defendendo.
Romualdo ficou devastado e foi atormentado pelas imagens dos homens mortos naquela carnificina nos dias, meses e anos que se seguiram. Havia sido ingênuo, muito ingênuo, em acreditar que toda a grana provinha, unicamente, da contribuição mensal dos moradores dos bairros em que eles protegiam. Se no início havia um motivo nobre, no meio do caminho, houve a corrupção, afinal, quem vigia os vigilantes? Ele não podia mais continuar, embora a vontade fosse de acabar com a raça de Magalhães. Contudo, era um homem sensato, tinha uma filha numa cadeira de rodas para cuidar e não podia desafiar o líder de uma organização criminosa totalmente armada como um personagem de filmes de ação.
- Estou saindo, Magalhães, minha filha anda reclamando que passo muito tempo fora e ela tem razão. – Foi a desculpa que deu que tinha um quê de verdade, já que Isabel passava mais tempo com a cuidadora do que com ele.
Romualdo nunca tocara no assunto sobre os 15 da cooperativa de van com Magalhães e nunca demonstrara remorso perto dele, talvez tenha sido por isso que o ex-sócio ou ex-capanga não mandou ninguém atrás dele para silenciá-lo numa medida preventiva. Embora achasse que o líder dos ex-heróis jamais fizesse algo assim contra ele por considerá-lo um amigo. Enfim, não dava para saber; dizem que amigos, amigos, negócios à parte.
Ele também deixou a polícia e o Rio, quanto mais longe e menos envolvimento, melhor. Embora não adiantasse aonde fosse, a imagem dos 15 motoristas mortos iria o perseguir como uma mancha na alma. Que Deus permitiria que caras como nós tirassem a vida de pais de família por um dinheiro que nem fazia falta? Era o que se perguntava nas noites insones. A resposta era óbvia, pelo menos, entendera assim. Não havia Deus, quem dobrava os joelhos e rezava para Ele, fazia para um céu vazio.
Romualdo não renasceu como ocorreu após a tragédia de Isabel, o peso na consciência e os fantasmas daqueles homens eram a prova disso. Mas nada o impedia de ser um homem pacífico, mesmo fazendo uso das economias compostas em boa parte pelo dinheiro sujo do grupo de justiceiros de Magalhães.
A adaptação em Santo Expedito foi rápida, tanto para Romualdo quanto para Isabel. Como levava jeito na cozinha, montou uma lanchonete requintada que fez muito sucesso na cidade. Pai e filha trabalhavam juntos e eles passavam mais tempo um com o outro. Por segurança, ele guardava uma arma embaixo do balcão, mas achava que nunca faria uso dela, pois era um município pequeno e muito pacato. Apesar de ter menos de 5 mil habitantes, Santo Expedito tinha coisas que toda cidade grande possuía, inclusive um pequeno shopping, mas o que chamava a atenção era a quantidade de igrejas.
Uma dessas igrejas se destacava das demais, e embora a cidade fosse batizada com um nome de um santo católico, a Comunidade Evangélica Monte Horebe era a congregação que mais atraía fiéis na região. Isabel, por influência de uma amiga que frequentava a lanchonete, visitou a igreja e para a surpresa de Romualdo se tornou mais uma ovelha daquele rebanho.
- Você devia ir, pai. Tenho certeza que Deus irá te abençoar e essas noites sem dormir vão acabar.
- Talvez em um dia, filha, talvez em um dia.
Romualdo não tinha coragem de dizer para ela que não acreditava mais em Deus, muito porque entendia a preocupação da filha com a quantidade e dosagens cada vez maiores dos remédios que ele vinha tomando. Por isso era melhor manter a possibilidade em aberto. Além disso, desde que Buru a aleijou, foi a primeira vez que viu a felicidade genuína em Isabel.
Era a noite dos milagres na Monte Horebe. Como acontecia no vigésimo quinto dia de cada mês, muitos enfermos vindos de diversas regiões do estado se acomodavam nas primeiras fileiras da igreja em busca de uma cura para as mais variadas doenças. Dois anos como fiel da congregação e tudo o que Isabel presenciou foram curas de enfermidades como dores crônicas na barriga, problemas nas articulações e outras coisas psicossomáticas, mas a amiga sempre contava a história do rapaz vindo de São Paulo que recuperara a visão num dia 25 de março, 6 anos e alguns meses atrás.
Isabel nunca duvidou daquela história, e por isso sempre fazia questão de ir à igreja nos dias 25, mas ela não queria um milagre para ela e sim para o pai, cada vez mais afundado na depressão e mais dependente dos remédios. Ela temia que ele usasse a arma que guardava embaixo do balcão da lanchonete para pôr fim à dor silenciosa que sentia. Bia, sua amiga, do nada arrastou sua cadeira de rodas para perto dos enfermos.
- Bia, eu não quero ir lá para frente, o que está fazendo?
A amiga que estava com uma expressão esquisita simplesmente respondeu:
- Não sei por que estou fazendo isso, amiga, mas eu devo fazer.
O culto começou às 19h em ponto e no meio daquele clima forte e no calor das orações, o performático e jovem pastor Santiago afirmava com veemência que Jesus enviaria a sua graça para curar os enfermos de corpo e de espírito. Com os olhos fechados, ele apontou para Isabel e disse:
- Filha, Deus vai te devolver o que o homem lhe tirou, venha aqui que sua fé te salvará.
Isabel ficou sem reação no primeiro instante, seus braços passaram a tremer tanto que tiveram que a levar até o altar. Em nenhum momento, ela teve dúvidas, apenas pensou que se voltasse a andar, seu pai também se curaria, pois era assim que Deus agia na vida das pessoas.
Santiago se aproximou com o rosto impassível e mediúnico pondo a mão direita sobre a cabeça dela.
- Sinta o fogo do espírito santo te libertando! – Gritou para ela e para a congregação.
Isabel realmente sentiu seu corpo queimar como o fogo. Com os olhos fechados, conseguiu enxergar o fulgor que as pálpebras não eram capazes de evitar. Havia uma presença forte ali naquela igreja, uma presença que era mais brilhante que todo o carrossel de estrelas que cintilava no céu. Era como se o próprio Deus estivesse ali avaliando o teor de sua fé. Um turbilhão era criado, sons que pareciam ser as trombetas dos anjos atravessavam os seus ouvidos como lâminas, tudo aconteceu tão rápido, tão fantástico, até que subitamente o silêncio se instaurou e a forte luz se arrefeceu.
- Levanta-te e anda, a sua fé te curou. – Disse o pastor ofegante.
Estava feito, Isabel sentiu as pernas formigarem e os dedos dos pés se moverem timidamente obedecendo ao comando cerebral. Levantar da cadeira de rodas foi um processo cauteloso, mas logo se lembrou de que seu Deus era o Deus do impossível. Ergueu-se e as pernas as sustentaram, as lágrimas desciam em torrentes quentes de seus olhos e de muitos dos que ali estavam. A jovem caminhou até o pastor que enxugava o suor do rosto, ela caminhou, ela correu, ela pulou, o milagre havia sido sacramentado.
Ao vê-la voltando para casa caminhando, Romualdo a abraçou forte e derramou todas as lágrimas que ficaram reprimidas durante tanto tempo. Ele estava errado o tempo todo, pois só havia uma pessoa que podia ter curado a sua filha.
O caso repercutiu em todas as mídias pentecostais do país. Uma semana depois, Isabel fora convidada a dar o seu testemunho numa rede de TV de um famoso missionário. Aceitou o convite com o consentimento do pai e viajou a São Paulo acompanhada de Bia.
Enquanto Isabel estava fora participando de horas de gravações, Romualdo, que ainda andava tendo pesadelos com os 15 homens inocentes que ajudara a matar, sentiu que devia agradecer a Deus por ter devolvido à filha os sonhos perdidos. Gratidão, era uma palavra bonita, apesar de achar que o altíssimo nunca o perdoaria por ter feito o que fez.
Ele chegou mais cedo, conversou com Santiago e perguntou se poderia agradecer à igreja por ter curado a sua filha. O performático pastor disse que sim, mas sem deixar de salientar que não foi a congregação que a curou e sim, Deus e a fé dela.
Um pouco nervoso, o ex-policial esperava a sua vez de agradecer àquelas pessoas enquanto assistia ao culto. Droga, por que não preparei um discurso? Ele se perguntava, porém, ler um discurso soaria um pouco artificial e não queria que aquelas pessoas tivessem essa impressão de si.
- Irmãos, sabem por que os milagres acontecem aqui? – Santiago pregava - Porque vocês têm fé e creem no salvador. A mesma fé que permitiu com que Moisés atravessasse o Mar Vermelho com o seu povo, a mesma fé que mantém o mal longe de nossas vidas, longe de nossas casas, longe de nossa igreja.
O mal longe de nossas vidas. Romualdo refletia sobre aquelas palavras e se perguntava se aquelas 15 pessoas não tinham fé o suficiente para impedir que 6 homens armados invadissem o galpão em que estavam no meio da noite e pusesse fim às suas vidas.
O culto decorreu por mais uma hora e antes dos avisos finais, o pastor anunciou:
- Amigos e caros irmãos, é com um imenso prazer que lhes apresento uma pessoa que veio nos agradecer por uma imensa graça concebida em sua vida, por isso, chamo aqui no altar o pai de Isabel, a jovem cadeirante que voltou a andar, por favor, recebam com uma imensa salva de palmas o senhor Romualdo.
Romualdo se dirigiu ao altar sob aplausos estrondosos. Estava um pouco tímido e se lembrava de como odiava apresentar seminários na época da faculdade. As palmas ainda eram fortes quando ele se postou diante do púlpito. De lá, viu como a igreja era grande e que não parecia tão cheia como imaginou que estava. Pigarreou, respirou forte causando uma rápida microfonia. Uma mosca rodopiava a alguns centímetros à sua frente num voo débil e preguiçoso. Olhou para a madeira do púlpito e os aplausos cessaram de repente. Respirou fundo outra vez e quando ia começar a agradecer, uma voz o interrompeu.
- Está agradecendo às pessoas erradas por ter feito Isabel voltar a andar, meu caro Romualdo.
Os olhos do ex-policial se arregalaram e giraram alucinados nas órbitas à procura da pessoa que havia dito tais palavras. Naquele instante, percebeu que só ele podia se mover, tudo ao redor estava congelado, as pessoas com as mãos unidas em palmas silenciosas. As fitinhas dos ares condicionados projetadas e paralisadas numa horizontal que contrariava a gravidade. A mosca que rodopiava à sua frente, inerte como se um fio invisível a mantivesse ali. Era a mais bizarra sensação que ele já havia sentido, era como se estivesse numa enorme fotografia tridimensional.
- Quem é você? – Perguntou.
- Eu sou muitas pessoas, Romualdo. – Um jovem se destacava no meio daquelas pessoas paralisadas no espaço-tempo e caminhava até o altar.
- Não, você não devia estar aqui!
Era Buru, o jovem que havia aleijado a filha e que Romualdo matara há alguns anos.
- Não se assuste, meu caro Romualdo, apenas assumi essa forma para soar mais convincente, por mais não fosse necessário, basta olhar ao redor.
- O que você quer?
- O que eu quero? Ora, Romualdo, eu realizei o seu desejo, e você me disse que faria qualquer coisa.
- Meu desejo? Eu nunca te pedi nada, eu sequer acreditava em vocês!
Buru sorriu, na verdade, a pessoa que se disfarçava de Buru sorriu. Pois havia um ar eloquente nele, muito diferente daquele drogado de merda cujo corpo já tinha apodrecido em algum lugar do Rio de Janeiro.
- Tem certeza, Romualdo?
O cenário da igreja se dissolveu dando lugar para a pequena capela do hospital em que sua filha havia sido operada horas depois de ser baleada. Romualdo via a si mesmo ajoelhado diante do Cristo crucificado, arrasado após ser informado que havia muitas chances de Isabel nunca mais andar.
- Por favor, não deixe que minha filha passe o resto da vida numa cadeira de rodas. – Ele rezava.
Buru caminhou saindo da frente do Romualdo do presente e atravessou o espaço-tempo indo para próximo do desesperado e despedaçado Romualdo do passado. A transição temporal transformou Buru num simpático padre que apalpou os ombros do então policial.
- Faria qualquer coisa para que seu desejo se realizasse, meu jovem?
- Sim, qualquer coisa, seria capaz de tudo pela minha filha.
De volta ao presente paralisado, o ex-policial, incrédulo, tentava falar.
- Então, era-era-era vo-vo-vo você?
- Exatamente, Romualdo. Fui eu quem ouviu as suas preces e não Ele. – Buru apontou para cima.
A chocante verdade foi difícil de ser engolida de uma maneira tão repentina e sobrenatural. Mas desde que Isabel estivesse bem, para Romualdo não importava quem a tivesse curado. Se Deus ou o diabo, o importante era que ela estava andando novamente.
- Agradeço muito pelo que fez a Isabel, muito mesmo.
Buru sorriu.
- Não precisa me agradecer, meu caro Romualdo, lembre-se que você disse que faria qualquer coisa.
- Então, o que quer que eu faça?
- Você se demonstrou um assassino muito eficiente, eu estive observando você bem de perto – o rosto de Buru se transformou no de Magalhães – e em muito tempo que não via alguém com tamanho feitio para a matança. Por isso quero que seja um dos meus agentes.
- Mas o que eu teria que fazer especificamente?
Magalhães sorriu antecipando a resposta que Romualdo de certa forma temia.
- O que você sabe de melhor, meu caro Romualdo.
Os fieis aguardavam os agradecimentos do pai da linda Isabel. Alguns ainda estavam emocionados, pois jamais imaginariam que uma pessoa sentenciada à cadeira de rodas pudesse voltar a andar bem diante dos olhos deles, era um fato que eles só imaginavam que aconteceria quando Jesus voltasse.
O homem diante do púlpito estava de cabeça baixa, talvez nervoso por falar diante da congregação ou talvez por estar apenas escolhendo as palavras certas, mas quando ergueu a cabeça, toda a graça que pairava sobre a casa de Deus pareceu ter sido escurecida. As portas laterais da igreja começaram a bater em baques pesados e sequenciados. As últimas foram as imensas portas da entrada principal do templo. O sinistro fato causou um alarido entre os fieis que gritaram quando Romualdo, com uma expressão diabólica, abriu os braços exibindo duas armas e começou a atirar.
Santiago foi o primeiro. O pastor só teve tempo de se perguntar de onde aquele homem havia conseguido aquelas duas armas antes de a bala atravessar o seu olho direito. Os ministros das palavras e diáconos foram em seguida. Um deles tentou se esconder atrás do altar, mas era gordo demais para ser mais rápido do que o atirador.
Em pouco tempo, Romualdo empilhou mais de 60 corpos dentre homens, mulheres e crianças. As últimas pessoas a serem mortas foram as que tentaram abrir desesperadamente a porta principal da igreja e falharam. O ex-policial deu cabo delas em menos de 1 minuto.
- Bravo! Bravo! – Magalhães aplaudia – uma bala para cada um, você é o homem mais talentoso que já vi, não tenho dúvidas disso, meu caro Romualdo.
O ex-policial olhou ao redor e fitou toda aquela gente morta. Naquele instante, sentiu que pela primeira vez teria uma noite de sono tranquila desde que matara aqueles 15 motoristas de van. Não haveria mais pesadelos e não haveria mais aqueles coquetéis de antidepressivos que foi obrigado a tomar para não enlouquecer.
As portas da igreja finalmente se abriram, e os dois saíram caminhando como velhos amigos, com Romualdo deixando pegadas sangrentas para trás.
Edu Berdague
Enviado por Edu Berdague em 13/10/2019
Código do texto: T6768890
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