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A AGONIA ETERNA
 
Olá, me chamo Daniel, e hoje irei contar uma história um pouco absurda, porém devo dizer que escrevo para mim mesmo afim de não enlouquecer de vez. Era manhã, há exatamente um ano, estava muito feliz com minha família pois nos mudaríamos para uma nova casa, havíamos comprado uma no quilômetro duzentos, era afastada de tudo, e a cidade mais próxima ficava a trinta quilômetros.
Era uma casa antiga, que abrigava móveis antigos, contava com porão e sótão, e haviam alguns objetos estranhos, mas que serviam de enfeite, ela estava à venda por cinco anos e parecia coincidência do destino que não fosse mostrada a todos, e que o movimento monótono da estrada não despertasse a curiosidade dos poucos que passavam, mas nada tirava sua beleza.
Chegamos muito felizes com o caminhão da mudança, e quando ultrapassamos a trilha que chegava à casa, vi que no segundo andar uma moça de branco, olhei para trás e perguntei “Alguém está vendo aquela moça na janela do segundo andar?”, e quando virei para apontar onde ela estava não havia mais nada lá, resolvi ignorar, até porque a felicidade que me corroía o semblante era estirada na alma.
Quando entramos na casa senti um calafrio, e uma sombra correu sobre as escadas, mas mais uma vez ignorei, e aquele dia foi muito bom, estávamos em um pós-casamento, e nosso filho completava sete anos, e corria muito, com uma extrema felicidade no imenso quintal, a felicidade de minha mulher era redobrada quando nos demos em conta que era um lugar romântico, remetendo-nos a um certo bucolismo.
Pela manhã, acordamos e fomos para mesa tomar um ótimo café, e conversamos por horas, aliás, passaríamos as férias de um mês ali, íamos na cidade comprar os produtos e ainda tínhamos uma reserva financeira boa, o que nos dava liberdade, e estas são as poucas lembranças positivas que tenho daquele lugar, passaram-se três dias e coisas estranhas começavam a acontecer, algo me acordava à noite e eu sentia passos pelo corredor, eu pegava minha espingarda num eventual risco de invasão, ligava todas as luzes, mas quando chegava ao ponto do barulho nada encontrava.
Lembro-me que certo dia escutava alguém chamar meu nome enquanto estava passeando no quintal, nas diversas plantações que haviam lá, lembro-me que ao meio dia um assobio podia ser ouvido do horizonte, todos os dias, até que fui verificar se era alguém, quando avistei um pouco distante um lugar diferente, havia uma lápide sutil sob a terra que parecia ter sido mexida ultimamente, o nome estava um pouco apagado, mas podia-se ler malmente: Ricardo Gomes.
Com o passar das horas, minhas visões iam se intensificando, e algo me chamava ao porão, fui até lá, estava um pouco escuro, e alguns livros puderam ser encontrados em um velha caixa, estavam em um idioma esquisito, com imagens que pareciam ser de um ritual; outros estavam em português, mas contavam crônicas de terror. Retirei alguns livros e percebi que havia um jornal datado de 1955, que dizia: pais são brutalmente assassinados pelo filho, filho alega que isso seja obra de uma entidade demoníaca.
Neste momento fiquei assustado, ainda mais quando vi cinco títulos iguais a este, todos com a imagem da casa onde agora eu estava vivendo, porém meu filho ainda estava normal, brincava e se dizia feliz. Ouvi um estrondo estarrecedor, subi para ver o que tinha acontecido, mas tudo estava normal e minha mulher contava uma história a ele, que estava quase dormindo em seu colo, nada tinha acontecido.
Aquela noite estava comum, dormi com minha esposa rapidamente, passaram-se algumas horas e ouvimos um grito muito estrondoso vindo do quarto do filho, acordamos e corremos em direção ao quarto. Quando chegamos ele estava coberto com o lençol, orando e pedindo para aquilo sair dali; aquilo o quê? Perguntamos o que havia acontecido, ele nos disse que tinha visto uma mulher de branco no canto da cama que parecia tocá-lo.
Eu estava um pouco assustado, e minha mulher disse que havia sido um pesadelo, e eu concordei para acalmá-lo e não o assustar ainda mais, mas eu podia ver alguma sombra nas paredes, e um sussurro atravessou-me o ouvido pedindo para sair dali. Fui para o quarto com minha esposa e conversamos um pouco, resolvi não mostrar o que havia descoberto há pouco tempo, para não a aterrorizar; nosso filho dormiu conosco aquela noite, e tudo amanheceu como se nada tivesse acontecido.
Acordei-me, levantei da cama e pude ver pela janela que havia uma criança correndo no quintal, aquilo era estranho, não tínhamos vizinhos, então resolvi ir até ela para fazer algumas perguntas. Desci lentamente, e quando estava no último degrau ouvi alguém bater na porta, vi que a menina não se encontrava mais lá, então deduzi que fosse a mesma; quando abri a porta não havia ninguém, mas não liguei muito para isso.
Já que eu havia acordado mais cedo, faria o café, e enquanto estava fazendo, ouvi novamente alguém bater na porta, abri, e vi um bilhete no chão, que dizia: Olá, vamos brincar de bola? Estou lhe esperando no quintal. “Bem, deve ser brincadeira de alguém”, pensei ao ver que não havia ninguém. Quando voltei à cozinha vi que a água já estava fervendo, fiz o que tinha de fazer, chamei a família e fizemos a refeição do dia.
Estávamos sentados e meu filho estava pensativo, perguntei-lhe o que tinha, e ele disse-me que havia tido um sonho esquisito, que um garoto havia o chamado para jogar bola, e que do nada o tempo teria ficado tempestuoso, e que esse garoto havia contado um segredo para ele: que alguma força teria o levado a matar seus pais, e que quando tinha contado isto suas mãos ficaram ensanguentadas, e nesse momento teria acordado.
Fiquei perplexo, o copo que estava em minha mão quebrou-se e caí da cadeira, minha mulher perguntou o que havia acontecido, chamei-a correndo e fomos ao porão, contei-lhe minhas experiências, mostrei a caixa, os jornais, minha mulher ia desmaiando, e disse que sentia-se com medo na casa, que parecia estar sendo observada, que ouvia vozes, passos, correrias e risadas.
Olhamos para trás, e nosso filho perguntou: O que estão fazendo aí? Inventamos alguma coisa, e resolvemos sair daquele lugar. Assim, voltamos para casa, nosso filho começou a ficar estranho, conversava sozinho, desenhava muitas coisas e tinha cada vez mais pesadelos. Já faziam três meses que tínhamos saído de lá, e nosso filho estava aterrorizado, eu ainda via a mulher de branco, e o menino continuava a nos assombrar.
Mudamos de casa quatro vezes em menos de um mês, mas o mal nos seguia, algo muito ruim se alimentava de meu filho, que ficava cada vez mais esquisito, com um semblante assustador. Certa vez ele desenhou uma coisa terrível e mostrou para mim e minha esposa, tratava-se de nós mortos, e ele com uma faca na mão, sorrindo. O menino ele “meu amigo me manda desenhar isso, ele me ajuda, ele diz que isto é uma coisa normal”.
Chamamos um casal paranormal, e logo eles acharam algo estranho logo ao entrar, algo que estava preso ao meu filho, que estava se alimentando dele, o menino ria e dizia: meu amigo está dizendo que esses dois são do mal, e que são palhaços. O casal nos alertou o perigo que esse demônio apresentava, e que deveríamos voltar à casa na estrada para tirar o mal da companhia do meu filho.
Voltamos a morar naquela casa, eu e minha mulher não dormíamos mais, os espíritos nos atormentavam, os passos eram mais intensos, pancadas nas paredes, nas portas eram frequentes; às três horas da noite, fomos ao quarto do menino e ele estava com um dos livros da caixa na mão, e sabíamos naquele momento que não era mais ele que estava ali.
Parecia sem vida, parecia que era guiado por algo obscuro, o casal tentava conversar com o menino, que não tirava mais o livro da mão. Quando lhe foi tomado ficou louco, se debateu no chão, a pancada foi tão forte na cabeça que desmaiou. A noite passou e pareceu que tudo teria passado. O mal parecia estar no livro, passaram-se sete dias, e nada nos atormentava mais.
De repente, à noite, acordei, e vi que minha esposa não estava na cama, fui ao quarto de meu filho e vi a pior cena da minha vida: ela estava debruçada sobre a cama, sangrando, o menino a esfaqueava ainda mais, e o livro estava ao lado da cama. Eu gritei, e ele olhou para mim com os olhos negros, e de repente mudou de tamanho, estava com uns dois metros de altura, e correu atrás de mim com a faca.
Corri com agonia, e todas as saídas foram trancadas, e o mal estava a me perseguir. Fui para o porão, e escondi-me em uma passagem secreta que tinha por lá, o espírito que possuía meu filho falava: Irei te achar, papai! Não irá conseguir se esconder de mim, eu sei aonde fica esta passagem secreta.
Neste momento pus-me a orar, orei como nunca orara antes, então vi que havia no esconderijo algo que ia para cima, tinha uma pequena lanterna ao meu lado, peguei-a e subi lentamente sem fazer barulho, então vi que a passagem levava ao quarto de meu filho, saí pelo guarda-roupa, e minha mulher estava agonizando no chão, ensanguentada, disse-me que me amava, o que repeti a ela, e disse-a que ficasse fingindo-se de morta.
Fui em busca de meu filho, pedi-lhe para lutar interiormente, segurava a cruz e a bíblia e pedia para o mal sair de seu corpo, nesse momento a faca atravessou meu corpo, e uma lágrima caiu sobre o sangue, foi quando meu filho voltou ao normal, conseguiu tirar o mal de seu corpo, mas chorou violentamente.
Minha mulher conseguiu sobreviver, mas eu continuei a vagar no além, vejo que ele se culpa até hoje, mas eu apareço para ele às vezes e digo que ele não tem culpa nenhuma, posso aparecer em seus sonhos, minha mulher ainda tem traumas, e o mal não deixou de segui-lo. Por esse motivo, ela o colocou em uma clínica, e terá de viver assombrada em sua vida toda, não importa para onde se mude.
Continuei preso na casa, e tenho que ver novas vítimas por milhares e milhares de vezes, e percebi que a mulher de branco era do bem e que tentava avisar de todas as formas, agora eu a ajudaria nesta missão, estávamos fadados à prisão naquele lugar, e presenciávamos as entidades nos atormentando ainda mais quanto quando estávamos vivos. Devo dizer que escrevo para mim mesmo afim de não enlouquecer de vez.
 
Itacoatiara-AM, 08 de setembro de 2019.
Abraão Marinho
Enviado por Abraão Marinho em 08/09/2019
Reeditado em 08/09/2019
Código do texto: T6740383
Classificação de conteúdo: seguro

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Abraão Marinho
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