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“ Ah! Eu sei porquê vocês estão aqui. Sei bem porquê vieram. Querem ver se é verdade que esse cara que está ai, deitado nessa cama de flores, com esses chumaços de algodão no nariz e nos ouvidos e essa cara de quem dormiu no serviço sou eu mesmo. Se desta vez é verdade que eu bati as botas, que não foi mais uma das minhas ensaiadas de defunto, igual ás que andei fazendo nestes últimos dois anos, desde que descobri este maldito tumor nos testículos"
“Sim, eu sei. Que lugar mais desgraçado para se ter um câncer! Parece até praga de mulher que foi traída a vida inteira pelo marido e só veio a descobrir que ele tinha uma amante quando ele já não podia mais satisfazê-la na cama. Mas não foi isso que aconteceu comigo. Tumor nos testículos não inibe a ereção. O que inibe é o estado psicológico que a gente assume depois disso.”
“ O meu caso foi de desleixo mesmo. Homem tem dessas coisas. Sempre acha que nunca vai acontecer com ele. Por isso não se previne, não faz exames periódicos, não se examina, como as mulheres comumente fazem com seus corpos. Ficam constrangidos com outros homens apalpando seu saco, enfiando o dedo no seu rabo, investigando suas intimidades e quando se dão conta da sua imbecilidade já estão com a próstata comprometida ou com os testículos do tamanho de um ovo de galinha.”
    “Foi o que aconteceu comigo. Percebi que havia um caroço no meu testículo esquerdo e não dei bola. “Deve ser um quisto queratinoso” pensei, uma tumefação de pele, coisa que eu, um indivíduo de pele oleosa, sempre tive. Na minha juventude sofri bastante com os tais furúnculos, uns tumores purulentos que costumavam estourar em todos os lugares do meu corpo, principalmente na testa e na bunda. Quando adolescente meu rosto parecia a superfície da lua: cheia de crateras. Depois que fiquei adulto e principalmente quando entrei na chamada maturidade, parei de ter essas infecções de pele; por isso talvez não tenha dado bola á calosidade que me apareceu na região escrotal, trazendo essa sentença de morte que os médicos conseguiram adiar por uns dois anos, mas que no fim tive que cumprir sem direito á apelação.”
  
     “Médicos são profissionais engraçados. Alguns pensam que são deuses, outros têm certeza que são. O meu médico me submeteu a horríveis seções de quimioterapia que me transformaram em um verdadeiro zumbi. Fiquei carequinha de tudo. Perdi todo o enxerto de carne e músculos que tinha entre a pele e os ossos. Virei um esqueleto ambulante, coberto por uma capa de celofane, pois tal parecia a minha epiderme, depois de toda aquela química." 
      "Foram dois anos horrríveis. Você não sabem o que é a morte em vida. Durante um tempo tive nojo de tudo. De comida, de bebida, de gente, até de sexo. Os médicos diziam que tudo isso passaria, que era apenas uma reação do tratamento. Que logo eu iria recuperar até o apetite sexual, pois um homem com cinquenta e dois anos, como eu, ainda tinha muita testosterona para queimar.”
   “Essa foi a pior parte. Acreditar que eu podia ser curado. A decepção por ter sido enganado é pior do que a própria perda da esperança. Quando se sabe que vai perder a gente pode até concordar em jogar, mas nunca fica decepcionado por ter sido derrotado. Mas quando se acha que pode ganhar e perde, a sensação é de puro desgosto, porque além do sabor da derrota em si, vem também aquela sensação de incompetência e inépcia que acompanha todo perdedor."
      "Eu sou advogado, ou melhor, era. Quando um cliente aparecia no meu escritório com um caso desesperado eu não ficava dando falsas ilusões para ele. Eu lhe mostrava as possibilidades de vitória, mas nunca dizia que a coisa ia acontecer assim ou assado. Se não dá para entrar na mente de um juiz, como achar que podemos entrar na mente universal que rege a vida desses acontecimentos fortuitos e completamente despregados de qualquer sentido, que somos nós, os seres humanos? Mas os médicos pensam que podem fazer isso."
       "Advogados não são deuses que tudo pensam poder. Até porque nós sabemos que no sistema judiciário, se há alguém que sofre de empáfia reivindicatória de direitos celestes, não é o advogado, mas o juiz. Este sim, quando está sentado no Olimpo da sua arrogância, sente-se um Zeus atirando seus raios egrégios sobre os pobres mortais que pediram a sua tutela. Mas o juiz, ainda que na plenitude da sua potestade, será sempre um deus menor porque haverá depois um deus maior atrás dele, que pode revogar sua sentença, ou adiar sua execução indefinidamente, pelo menos neste nosso sistema jurídico onde o direito e a justiça costumam sempre se divorciar no curso do processo. Deus, se ele existisse como entidade, não seria assim. Ele seria um juiz inflexível, que uma vez prolatada a sentença, ela seria irremediavelmente cumprida, façam o que façam os nossos heróicos defensores da vida.”
   “Engraçado que essas elucubrações me venham justamente agora. Eu, que nunca acreditei que Deus existisse estou agora como que admitindo que ele pode existir. Mas é assim mesmo. Já me haviam dito que ateus não existem. O ateísmo é a negação da existência de Deus mas para que a gente possa negar alguma coisa é preciso antes admitir a possibilidade da sua existência. Porque nossa mente é dialética e não consegue construir nenhum conhecimento sem um processo de afirmação e negação. E não é possível fazer negação da negação. Quer dizer: eu não posso afirmar que Deus não existe sem primeiro admitir a possíbilidade de que ele possa existir. Assim como não posso pedir a uma criança para que não coloque o dedo numa tomada sem antes admitir que existe uma tomada.”
    "É o que estou pensando aqui, deitado neste esquife cheio de flores. Se estou morto é porque já estive vivo. Não teria morrido se não tivesse nascido. O grande paradoxo da vida é ter que entrar nela vivo e só poder sair dela morto.”
    “ Espalhei amor e ódio pela vida e as pessoas que estão aqui vieram por uma dessas causas. Para lamentar a minha morte ou para saborear o fato de que morri. Vejo alegria e tristeza no coração e na mente das pessoas que estão velando o meu corpo. Tudo isso é consequência da estrutura dialética deste nosso universo ambíguo e dicotômico."
      "Decerto que o meu pensamento, que agora sei, é o que as religiões chamam de espírito, não está mais no meu corpo. As pessoas que estão aqui não podem me ver, mas se pudessem, veriam que meu espírito é uma espécie de esfera brilhante que saiu do meu cadáver assim que o cérebro deixou de emitir sinais vitais para os circuitos da minha rede nervosa e todos os meus órgãos deixaram de funcionar. Salvo as células que continuarão vivas por algum tempo e que farão ainda os meus cabelos e as minhas unhas crescerem enquanto as minhas carnes forem apodrecendo. Isso também não será um processo muito demorado por que restou tão pouca matéria no meu corpo para ser consumida. Eu só gostaria de ver o espanto dessa gente que está aqui, velando meu cadáver, se daqui há dois ou três meses eles abrissem o meu caixão e encontrassem um esqueleto cabeludo e com unhas do tamanho das do Zé do Caixão. Que susto eles não iriam levar ao ver que na morte os cabelos que o câncer me comeu em vida me foram todos devolvidos com juros e correção monetária do tempo em que o Sarney era o Presidente do Brasil.”
    “Perdoem-me a ilação, mas enquanto a energia desta esfera de construções mentais, que é o meu espirito, não se esgotar, eu ainda vou pensar como o advogado que eu fui. Sou agora um espírito e o espírito são os nossos pensamentos, que criam essa esfera cheia de cores que aureola o nosso corpo, e que só vai apagando na medida em que o nosso organismo vai se decompondo. Alguém me disse uma vez que nós somos luzes que são acesas em meio à uma estrada escura. Brilham por algum tempo, algumas fornecem chama para acender outras, e depois são apagadas. O tempo é igual aos antigos lampiões que iluminavam nossas cidades. Acendem de noite e apagam de dia.”
     “O pensamento não morre com o cérebro. Ele fica girando em volta do cadáver, como uma nuvem, que só com o vento se dissipa. É isso que acho engraçado. Daqui, de onde estou, ora pairando sobre a testa do meu cadáver, ora girando em volta do coração, ás vezes subindo como um balão de gás que se solta e fica preso ao teto, eu posso ver todos os corações e cérebros das pessoas exatamente como eles são. Centros pulsantes de energia, que expelem fluxos de sangue e eletricidade para todo o corpo, em forma de líquidos pastosos e centelhas luminosas. É bonito e aterrador ao mesmo tempo. Vejo como as chispas elétricas que a química do cérebro expele formam pensamentos e como os pensamentos se transformam em ações. Aquele sujeito ali, que não conheço, está com a bexiga cheia e está pensando que precisa ir ao banheiro. Aquela moça está incomodada com o fluxo menstrual que está para chegar. Seu desejo é ir logo para casa para não ser surpreendida sem o necessário absorvente . Aquele outro está preocupado com o compromisso que marcou para daqui há duas horas. Não vai poder esperar o meu enterro. Vaja com Dios, amigo, que sua hora vai chegar e todos esses compromissos que você acha tão importantes não valerão mais que esse peido que você está fazendo força para segurar. Lá fora um grupinho de pessoas aproveita para por em dia as fofocas e as piadas recebidas pela Internet. É o de menos. Quantas vezes eu mesmo já não fiz isso enquanto velava o cadáver de algum amigo que estava aqui, no meu lugar?”
    “Ainda bem que durante a vida não nos é dado saber o que as pessoas pensam verdadeiramente quando estão na nossa presença. Se tivéssemos essa faculdade amaríamos mais e odiaríamos com infinita intensidade as pessoas, de forma que seria impossível manter essa farisaica paz social que garante a nossa convivência num nível suportável. Os núcleos de amor e ódio seriam muito mais intensos do já são, principalmente quando se exacerba o ódio racial e se sublima o pensamento religioso.”
    “Aliás, essa é outra coisa sobre a qual gostaria de falar antes que a energia do meu espirito se esgote e a esfera de pensamento que se despregou do meu cérebro se apague definitivamente. Nosso corpo material é como uma bateria que só aos poucos vai descarregando. A mente, uma vez carregada de sentimentos e memórias, ainda vibra durante algum tempo depois que a gente morre. Ela dura precisamente o tempo que se leva para apagar todas as lembranças da vida. Uma pessoa cuja mente está desapegada dos bens materiais ao morrer, isenta de ódios, amores, enfim, afetos e desejos, consegue fazer isso mais depressa. Ás vezes está pronta para apagar já no instante em que ela se desprega do corpo. Isso porque já está vazia de tudo que se convencionou chamar de Ser. Já é completamente nada quando o corpo dá o último suspiro. Nenhum peso a chumba mais á roda da existência. Se a gente descobrisse essa verdade ainda em vida trataria de aprender logo a se desapegar de tudo para não sentir esta angústia de saber que se está morto e tudo que foi, sentiu, pensou, fez e achou que era, nada significa no fim das contas."
     “Mas a maioria das pessoas não tem essa consciência. Quanto mais motivos se têm para viver, quanto mais sentimentos, mais desejos, mais apegos, mais lenta será a nossa desencarnação, pois a mente é como uma pilha carregada, cuja energia, depois que o invólucro onde ela foi armazenada se desfaz, ainda continua circulando em volta dela, como limalhas de ferro presas em volta de um corpo imantado.”
     “Esta esfera de energia, que sou eu fora do meu corpo, vai demorar bastante para apagar. Meus amores e ódios foram muito intensos. Ainda são. Vejo dentro da cabeça das pessoas os seus pensamentos. Marli, a mulher de Pedro, o meu filho caçula, está olhando para o meu rosto e pensando se este velho canalha deixou grana suficiente para eles viverem numa boa. Luiza, a esposa de Walter, meu filho mais velho, quer que fique para eles a nossa casa de praia. Está pensando no que vai dizer ao seu marido para que ele não abra  mão desse imóvel. Walter, por seu lado, prefere ficar com o apartamento de Moema. Vale mais, pensa ele. Pedro quer fazer uma viagem à Europa. Acha que agora, com o que vai herdar, terá grana suficiente para isso. Pior é o meu genro Paulo, marido de Rosana, minha filha primogênita. Ele está pensando em vender tudo que eles herdarem para fazer uma boa grana. Vai precisar dela para salvar aquela empresa falida que ele fundou. O miserável já enterrou lá todo o dinheiro que eu dei para eles. Rosana está pensando em como vai defender sua parte na herança frente aos seus irmãos e em como vai preservá-la da voragem do se pródigo marido . Pelo menos ela é sensata. Está preocupada com o meu neto Paulinho, que está terminando os estudos secundários e vai entrar para a Universidade. Com um pai irresponsável como o dele, seu futuro não  parece muito animador.”
     “De todos estes que estão aqui, velando o meu cadáver, só Lucinda está pensando em mim. Lucinda é, ou melhor, foi minha esposa. Ela está repassando mentalmente os vinte e cinco anos que vivemos juntos. Tivemos momentos bons e ruins.Não fui um mau marido, no fim das contas. Não a traí de forma sistemática, que é quando a gente mantém outra mulher no banco de reserva para tentar mudar o jogo quando este está ficando muito chato. Claro que dei algumas escapadas nas ocasiões em que viajei a serviço e encontrei mulheres bonitas, loucas por um pouco de diversão, sem compromisso. Mas foi esporádico e sem maiores envolvimentos emocionais. Apenas sexo, como diziam alguns amigos meus, que nunca resistiam aos encantos de uma fêmea fatale. Mas acho que no fim o balanço me favorece, pois que sempre voltei para casa sem o resíduo dessa energia negativa que costuma ficar depois dessas aventuras inconsequentes."
     "Lucinda está se achando velha demais para começar uma vida com outro homem. Não tem certeza, está insegura quanto ao fato de poder se dar bem em uma nova relação. Comigo ela já sabia tudo que devia fazer para que as coisas andassem bem. Ela está pensando que eu não era um cara difícil de lidar. Não concordo. Ela é que era tolerante e cordata o bastante para não ficar me cobrando pelos meus deslizes, que eu sei agora, ela sempre soube, ou pelo menos desconfiou, que eu cometi. Mas eu fico feliz ─ se é que um morto ainda pode falar em sentimentos ─  em saber que ela se sente assim. Podem dizer, eu não importo, que eu fui um cara cheio de defeitos. Fui sim, um cara ciumento, egoísta, mesquinho e não é porque morri que deixei de ser.  Sê-lo-ei enquanto a minha consciência ainda estiver ligada ao mundo. Talvez por isso eu vá demorar mais  tempo para descarregar de vez a minha pilha e deixar de influir na mente de outras pessoas, que ainda destilam vapores de  amor e ódio quando olham para o meu corpo imóvel dentro deste caixão."
    “Quem sabe até fique por aí, penando, tateando na escuridão, vagando feito uma sombra sem rumo e nem vulto para se integrar, como dizem os espiritualistas que algumas pessoas ficam, quando não se dão conta que morreram. Mas acho que não. Em vida sempre achei uma baita bobagem essa idéia de vida após a morte. Nunca acreditei na existência de espíritos e não vejo nenhum motivo para acreditar agora. Eu sei que estou morto. Eu vejo meu cadáver ali, deitado em meio aquela cama de flores e sei que este é um estado irreversível. Sei também que há outras esferas de pensamento desgarrado de seus corpos nas proximidades porque este é um local de velório. Neste momento quatro outros corpos estão sendo velados neste edifício. Mas não sei seus nomes, nem me lembro se os conhecia. Não há comunicação entre nós. Comunicação é ação entre vivos. Nem percebo, pelo menos neste momento, qualquer ação externa, de uma entidade ou força, no sentido de orientar-me para alguma ação futura. O que sinto é um constante enfraquecimento da minha energia, como uma vela cujo sebo  está se acabando e ela, aos poucos, bruxuleia e começa a se apagar.”  
     “Não estou vendo Deus nem anjos nem espíritos luminosos ou sombrios a me esperar. Se eles existem devem estar ocultos na escuridão que daqui a pouco será total. Aliás, isso seria mais coerente e justificaria a premissa de que Deus, antes de ser Deus, era um campo de energia imerso em profundas trevas. Isso até dá para acreditar. Deus era a luz que estava dentro das trevas. Uma energia, que por ser tanta, não coube em si mesma e explodiu. O Big Bang dos cientistas! E se tornou esse mundo do qual fui uma partícula, cuja luz está apagando, porque a energia que a sustentava acabou.”
     “Mas também, dentro de pouco já não precisarei mais me preocupar com crença nenhuma. Já, já, serei, ou não, apenas trevas. E trevas é sinônimo de nada. Daqui só levo uma certeza, se é que levo alguma coisa: a de que, se passo desta para outra, melhor ou pior, tudo que fui ou fiz de nada me servirá porque eu estarei definitivamente extinto para todos os tempos e para todos os universos. E este universo que um dia fui, finalmente estará em paz, pois a paz definitiva, integral, inviolável, é sinônimo de extinção total e absoluta de toda consciência.”
João Anatalino
Enviado por João Anatalino em 14/08/2019
Reeditado em 14/08/2019
Código do texto: T6719997
Classificação de conteúdo: seguro

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