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O homem feio
 
 
 
O caso envolve a morte de duas crianças, uma de 11 e outra de 8 anos, irmãos. Perola e Benicio foram mortos enquanto voltavam da escola por volta das 13:24 de uma quinta-feira nublada. Todo crime de assassinato é chocante, mas quando as vítimas são crianças se torna pior. Potencializa a crueldade, o agressor ganha traços desumanos, bestiais. Meu nome é Abigail Vital, psicóloga forense responsável por elaborar o diagnóstico mental do condenado, Tobias Alvarenga.

A princípio ele não diz nada durante nossos encontros, se limita a permanecer com o rosto baixo, olhos fugidios, Tobias parece sofrer uma espécie de desligamento do mundo real. Há hematomas por todo corpo, faltam-lhe unhas nas mãos. Estar confinado com outros criminosos não lhe faz bem, cada vez que o vejo ele parece mais debilitado. Tento deixar de lado meu julgamento pessoal, ver Tobias como um ser humano e não como a besta que assassinou e estuprou duas crianças em plena luz do dia. Sou muito boa nisso, mas confesso que nos últimos dias cheguei a sentir piedade da figura decrépita à minha frente. Comecei a pensar sobre a culpabilidade de Tobias. Será que de fato ele foi mesmo o assassino?

O que o levou a ser condenado? Os investigadores encontraram provas suficientes que correm em segredo de justiça. “Provas suficientes”, o termo me deixa um pouco incerta quando estou frente a frente com Tobias. Ele é um homem feio, desagradável aos olhos. À primeira vista não conseguimos encará-lo por muito tempo. Depois simplesmente se acostuma com sua irregularidade.

Ele possui um lado do rosto totalmente desconexo do outro. Olhos totalmente desalinhados, um alto demais e outro baixo. O queixo é desproporcional, quase não há, é afundado misturando-se ao pomo de Adão, desconfio que possui síndrome de Freeman-Sheldon. E os lábios, é a pior parte do conjunto do rosto, ele possui o que chamamos de Fenda Palatina o que compromete sua fala. Tobias se expressa pouco, as palavras saem com dificuldade, e além do mais, sua mente sofreu algum tipo de distúrbio que o prendeu aos 8 anos. Ele tem trejeitos infantis, o seu olhar sempre submisso é típico de quem sofre retardo mental. Ele sempre foi conhecido como “O homem feio” da cidade. Trabalhava como ajudante no maior mercado da cidade, além de fazer serviços de jardinagem para algumas famílias que o acolhiam.

Ele era a figura desconexa, seria fácil torná-lo um bode expiatório. Mas não quero ainda entrar nessas questões. É preciso entender como Tobias chegou de fato ao estado de condenado por crime tão brutal.
 
Durante o tempo que passamos juntos, Tobias se soltou aos poucos e me contou um pouco sobre sua vida. Fruto de um caso malsucedido entre parentes de primeiro grau, sofreu algumas anomalias na sua formação genética. Foi abandonado ainda bebê na porta de um convento, Tobias foi criado por freiras e padres. Totalmente devoto, nunca solta o crucifixo que traz enrolado numa das mãos enquanto conversamos. Fala muito sobre Jesus e seus ensinamentos, sabe as passagens do Novo Testamento de trás para frente, possui habilidade decorativa surpreendente. Para algumas coisas, Tobias é esperto. Calcula rapidamente equações complicadas e consegue decorar datas e detalhes de informações que lhes passam. Sua memória é fotográfica, decora com riqueza de detalhes o que vê. O que não me causa estranhamento ele saber exatamente as roupas que as crianças vestiam no dia dos assassinatos.

Trabalhou na casa das crianças por um longo tempo. Os pais pagavam para que limpasse a piscina e levasse os cães para passear. As crianças adoravam-no. Ele passava algum tempo brincando com eles, e muitas vezes os levou e buscou da escola. Tobias teve a infelicidade de encontrar os corpos, nas investigações o condenam como um psicopata frio e meticuloso que teve a necessidade de retornar à cena do crime. Mas Tobias não apresenta traços de psicopatia, ele não parece saber do que está sendo condenado a maior parte do tempo. Quando trago o assunto à tona, quando exponho as fotos dos cadáveres mutilados, Tobias foge da realidade e se tranca em sua carapuça infantilizada cobrindo os ouvidos e choramingando. É difícil imaginá-lo machucando um animal indefeso quanto mais armando para trucidar duas crianças pelas quais nutria imenso carinho.

Em algumas ocasiões ele me disse na sua maneira titubeante de escolher as palavras, “é porque eu sou feio, senhora, aí eles me acusam de tudo que é feio. Se a cerca caí com a chuva forte é porque Tobias não soube consertar. Se a senhora caí saindo do mercado é porque Tobias não estava lá para ajudar. Tudo ruim que acontecia no bairro é porque eu era feio e indecente.” Sem rancor, ele dizia essas coisas casualmente, Tobias parecia ser o tipo de pessoa que nunca sentia raiva pelas humilhações e chacotas pelas quais passava. Sua mente sempre o levava para outro tipo de realidade quando os fatores externos ameaçavam machucá-lo.
 
À medida que me esforçava para escrever o relatório da sua saúde mental, procurei conversar com pessoas que o conheciam, muitas delas serviram como testemunhas durante o processo. Ninguém me surpreendeu mais do que os pais das vítimas. A mãe tinha opinião distinta da do padrasto das crianças. Durante a tarde que passei na casa da família, percebi que havia uma tensão entre o casal quando o assunto era a condenação de Tobias.

Procurei conversar com um de cada vez, pedi para que o marido me deixasse a sós com a esposa, em seguida fiz o mesmo com ela. Durante o tempo que durou nossa conversa, ela se mostrou receptiva apesar do trauma vivido. Segurava no colo o seu terceiro filho de apenas 8 meses que se mexia todo esperto e emitia sons típicos de bebês.

- As crianças não eram filhos do seu atual marido?

- Não, mas ele as tratava como se fossem. Eles eram loucos por Silas.

- O que aconteceu com seu primeiro marido se me permite a pergunta?

- Ele morreu. Foi rápido, quando descobrimos o câncer era tarde demais.

- Sinto muito. Me diga, como era Tobias enquanto trabalhou para vocês?

Nesse momento, ela ficou em silêncio encarando o filho que brincava com um mordedor de Mickey Mouse.

- Ele era um amor, Abigail. Ele era um rapaz tímido, você sabe... – ela apontou para o próprio rosto – aquela aparência o fazia humilde e retraído. Eu tinha pena de Tobias, e tenho mais ainda hoje.

- Por quê? Ele foi condenado como assassino dos seus dois filhos...

- Não acredito que tenha sido ele. Me desculpe, mas Silas e eu brigamos muito por causa dessa questão. Não quero mais falar sobre isso até porque minha opinião não vale nada a essa altura.

- Você falou sobre isso com os policiais durante as investigações? Você falou sobre o tipo de sujeito que Tobias é?

Ela sacudiu a cabeça numa negativa e abaixou o rosto.

- Sentia tanta raiva e dor... tanto desespero. Eu fiz o que Silas me orientou, ele mais do que ninguém queria encontrar um culpado. Encontramos.

- Você tem noção do que está me dizendo? Pode ser que um inocente seja condenado a passar o resto dos seus dias em meio a criminosos realmente perigosos. Pode ser que eu não consiga provar sua debilidade mental e o mande no mínimo cumprir a pena num hospital psiquiátrico. Não seria a melhor opção para um inocente, mas poderia ser mais suave do que o presídio.

- O que a senhora quer que eu faça? Eu não posso fazer nada e saber que o culpado verdadeiro pode estar a solta me consome todos os dias.

Nesse momento, Silas entrou na sala de visitas com uma bandeja. Tomamos algumas xícaras de café enquanto Frida nos deixou a sós, ela saiu com o seu bebê no colo e percebi que tentava disfarçar o choro iminente que lhe subia às faces coradas.
 
No decorrer da minha longa carreira como psicóloga e no curto período que trabalho na área jurídica me deparei com algumas figuras humanas que costumamos chamar de psicopatas, sociopatas e que sofrem de distúrbios afins. Assim que Silas colocou a xícara sobre a bandeja e firmou o olhar sobre mim eu sabia o que representavam os trejeitos, sua camuflagem. Não sou apenas uma estudiosa da mente e comportamentos humanos, por um bom tempo estudei a linguagem corporal. Silas cruzou as pernas e relaxou as mãos sobre os joelhos, sustentando um sorriso forçado. Ele estava na defensiva e, também, pronto para qualquer ataque.

Totalmente o oposto de Tobias, Silas era um homem de uma beleza estonteante. O maxilar quadrado e forte, suas linhas faciais eram todas simétricas, se eram assim por conta de procedimentos estéticos ou por obra da própria genética, não sabia dizer, mas ele era o tipo de homem que faria qualquer um tocar fogo no próprio corpo caso lhe fizesse abrir o sorriso de dentes perfeitos em lábios cheios e sensuais. Além do mais, Silas detinha poder como um grande empresário na área de entretenimento era respeito na comunidade. Na realidade do condomínio em que moravam ele era uma espécie de líder, todos recorriam a ele se tivessem algum problema e ele estava por perto para ajudar. Muitos me disseram que Silas emprestava dinheiro sem cobrar juros. Sua bondade era louvável.

- Vou direto ao assunto, o senhor acha que Tobias é o culpado pela morte dos seus afilhados?

- Sim, não acho, tenho certeza.

- Sua esposa discorda, Frida não consegue imaginá-lo machucando as crianças.

- Mas isso é o trunfo de todo psicopata: fingir, dissimular, enganar. A senhorita deveria saber disso melhor do que eu.

- E por que o senhor acha que sabe algo sobre psicopatas?

Ele abriu um sorriso de canto, se fosse leiga teria me deixado seduzir por sua forma de criar expressões agradáveis e amistosas. Teria simplesmente concordado com ele.

- Hoje em dia todos sabem muito sobre psicopatias, Abigail. A literatura está cheia deles, os filmes e documentários. Acho que todos nós sabemos um pouco do que a senhora leva anos para estudar na universidade. O que deve ser bem frustrante para senhorita.

- Estamos fugindo do foco, senhor Silas. Por que tem tanta certeza da culpabilidade de Tobias? Enquanto trabalhou para o senhor ele deixou escapar algum comportamento suspeito?

Silas descruzou as pernas deixando-as levemente abertas e cruzando os braços sobre o tórax. Ele estava na defensiva de novo, tentando disfarçar seu incômodo. Olhou para cima, pensativo, buscava na sua memória lúdica algum argumento que pudesse criar. Ele estava recorrendo à ficção, não às memórias reais.

- Digamos que sim. Depois que acontece a gente passa a lembrar de detalhes que deixamos passar despercebidos. Ele ficava muito tempo com Pérola no jardim, tinha uma espécie de obsessão por ela, e depois fui saber de outros pais que quando ia buscar as crianças na saída das aulas, ficava de olho nas garotinhas e até mesmo mexeu com algumas.

- Ele é pedófilo? O senhor alega então que Tobias é pedófilo?

- Sim. E disse isso nos meus depoimentos. Ele pode parecer muito inocente e infantil, mas isso é apenas uma parte dele, entende? Ele é perigoso. Acho que algo toma conta dele, um impulso. Algo obscuro o faz cometer essas coisas e depois não se lembra, volta a ser um completo idiota.

- Isso o caracteriza como um homem com distúrbios mentais graves. Eu posso mandá-lo para cumprir a pena num hospital psiquiátrico diante isso. O que acha disso?

- Acho que hospitais psiquiátricos podem ser piores que a cadeia, Abigail, então, a justiça seria feita. Ele não merece menos que o pior dos sofrimentos pelo o que fez a essas crianças.

Não vieram lágrimas, mas ele cobriu os olhos e arfou. Passou a mão pelos bastos cabelos sedosos e por fim coçou a barba rala. Seus olhos recaíram nos meus, grandes e claros. Magnéticos, frios.

- Se pudesse, faria o mesmo com ele. Se ele caísse em minhas mãos.

- Entendo, sinto muito por tudo isso, senhor Silas. Como era sua relação com as crianças?

- Eu os amava. Por Deus, eu os amava muito. Praticamente os criei.

Não senti verdade, Silas titubeava com as palavras tentando entonar mais emoção do que realmente tinham. No fundo, senti quase uma espécie de alívio em sua voz quando falou nas crianças no tempo passado.

Deixei a residência da família e após alguns dias me encontrei pela última vez com Tobias. Seu relatório todo indicava que deveria ser tratado, não tinha consciência dos próprios atos. Sofria de retardado mental e até questionei as “provas suficientes” sobre uma pessoa mentalmente incapaz. Tobias se mostrou mais abatido, ele não estava se alimentado e tinha perdido muito peso, permanecia com o rosto baixo e os hematomas aumentaram. Sua mão esquerda estava engessada, ele me relatou que quebraram seu punho.

- Tobias, vou tentar te transferir para uma instituição psiquiátrica. Não vão te espancar, abusar ou humilhar lá.

Ele levantou o rosto e me olhou por um tempo, seus olhos castanhos amedrontados estavam vazios, restou pouco do rapaz que conheci. Não havia mais brilho, ele não conseguia mais se refugiar em seu mundo infantil, era apenas um homem estranho e abatido.

- Você vai ficar bem lá.

Ele me olhou de novo o que me fez lembrar de cachorros adoentados que precisam de sacrifício. Era impossível acreditar que aquele homem tivesse abordado duas crianças e as decapitado depois de estuprar a garota. Era impossível para mim mesmo que sua aparência fosse monstruosa, não havia nada feio por dentro. A maioria das pessoas não podia perceber isso. Eles o tinham condenado por sua extrema feiura, ninguém se atentou para a grandiosidade de sua alma.

- Tudo bem, doutora. Será que se eu morrer aqui na Terra, as crianças vão estar em paz no reino de Deus?

O crucifixo enrolado na mão direita tremia, os olhos cintilarem com as lágrimas que ameaçavam transbordar, mas o resto do seu rosto estava sereno e piedoso.

- Não sei Tobias, não sei o que quer dizer. Mas eu acredito na sua inocência.

- Doutora, eu não sou inocente. Não estava lá para impedir que elas morressem. Cheguei muito tarde.

Poucos momentos me tocaram tanto como aquele. Eu me lembrei de um filme que vi há alguns anos chamado “À espera de um milagre” uma tradução tosca para o original “The Green Mile” e quase pude ver John Coffey ali na minha frente dizendo:

“Estou cansado, chefe. Cansado de estar na estrada, solitário como um pardal na chuva. Cansado de nunca ter amigo para me dizer aonde vai, de onde vem ou por quê. Principalmente, estou cansado de as pessoas serem ruins. Estou cansado da dor que sinto e ouço no mundo todo dia. É muita dor! São como pedaços de vidro na minha cabeça o tempo todo...”

Quando Tobias levantou definitivamente o rosto para mim e pude ver a imensa beleza da sua alma. O homem feio se transfigurando em algo divino.

- Sabe doutora, pureza é estar limpo, sem nenhuma mancha. Deus é perfeitamente puro, nele não há pecado algum. Deus nos chama para sermos puros como ele. Eu posso aguentar isso, doutora, não estive lá para salvá-las, mas se a minha morte libertar suas almas, eu morrerei feliz. Serei puro, doutora, como Deus, expurgando os pecados de outros, pacientemente.
Larissa Prado
Enviado por Larissa Prado em 19/05/2019
Reeditado em 19/07/2019
Código do texto: T6650994
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Larissa Prado
Goiânia - Goiás - Brasil
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