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A estranha noiva do duque
 

Se fosse descrever a cerimônia de casamento do duque usaria a palavra assombrosa. Há anos falavam-se na corte sobre tal cerimônia, boatos de todos os tipos. A noiva seria de origem humilde, filha de fazendeiros pobres, sua beleza estonteante despertou a atenção do duque ainda na juventude. Ele pagou alto preço para ter aquela mulher como sua consorte, os pais da menina aceitaram de bom grado e assim se tornaram parte da vida da corte.

Outros boatos giravam em torno da relação estranha que o casal mantinha, não se falavam, não dormiam na mesma torre e eles jamais tinham se encontrado pessoalmente. O duque se apaixonou à distância e assim mantiveram a relação. O que mais inquietava as pessoas era a reclusão na qual vivia a mulher. Não era vista de maneira alguma. Apenas seus pais tinham acesso aos seus aposentos de onde jamais saía.

Durante os anos de espera para que ambos alcançassem a idade adulta, a noiva se tornou uma lenda local, as pessoas duvidavam da sua existência chegando a espalharem rumores sobre a sexualidade do duque ou sobre uma possível doença mental que o fez imaginar a mulher dos seus sonhos. O fato é que a menina foi uma estranha figura que assombrou a imaginação das pessoas da corte. Nós tentávamos imaginar sua fisionomia, manias, sua história de vida, assim cada um criou para si a imagem projetada da mulher

Porém, antes do casamento pude constatar a sua presença por duas vezes o que aumentou minha desconfiança acerca daquela mulher. Eu era o preceptor do duque desde que ele era uma criança adoentada e introspectiva. Ensinei a arte da leitura e escrita além de outros conhecimentos que o tornariam um intelectual respeitado e não apenas mais um cabeça oca da nobreza. Naquela noite, havíamos jantado juntos porque o duque estava, estranhamente, interessado em conhecimentos ocultos.

Assim que deixei o aposento do duque fiquei um tempo parado observando a lua cheia que iluminava o céu sem estrelas, sempre gostei de observar o céu em noites como aquela. Através da minha percepção periférica notei um vulto se aproximando em trajes brancos, mas quando virei o rosto não havia nada ali, ninguém. Por um momento acreditei que estivesse sendo atacado por uma espécie de delírio proporcionado por ilusão de ótica, mas nada no ambiente em volta remetia a trajes brancos. Nada poderia ter causada aquele delírio perceptivo.

Fiquei um tempo observando os elementos à minha volta como um enorme vaso de planta encostado numa das pilastras da torre, os ornamentos do teto e as luminárias que pouco iluminavam os corredores nas paredes. Talvez tivesse sido apenas um erro de luz e sombras, não dei atenção aquilo até que senti o toque frio na minha nuca.

Quando me virei, ela estava parada ali com o rosto encoberto por um véu branco, a noiva do duque era pequena e estava trajando vestes de dormir translúcidas que me permitiam delinear as sombras das curvas do seu corpo. A princípio considerei aquele tipo de atitude ousada e imoral para uma mulher que estava prestes a se tornar duquesa, mas o meu susto aplacou a indignação.

Ela permaneceu parada, não sabia dizer se estava me olhando, não conseguia ver nada do seu rosto, apenas a forma ovalada do queixo e sombras mais densas onde eram os olhos. Não percebi qualquer movimento de respiração, ela não passava de uma estátua.

Cumprimentei-a com um “Boa noite” na tentativa de estabelecer algum contato, a mulher permaneceu calada apenas ali próxima a mim a corrente de ar frio que subiu por minhas pernas e invadiu minhas vestes vinha da sua presença porque antes da aparição a noite estava abafada e quente. Confesso que me senti apavorado apesar do meu ceticismo quanto a boataria em torno da mulher, havia algo de inquietante na sua companhia. Meu coração acelerou, senti o suor frio brotando na testa enquanto os músculos tremiam sob a pele. Virei de costas para ela e andei pelo corredor na intenção de descer as escadas e ir para os meus aposentos que ficavam na torre oposta àquela. Instintivamente, acelerei o ritmo dos passos e quando me vi atravessando o pátio numa quase corrida, eu me senti tolo embora estivesse aliviado. Antes de subir para o meu quarto olhei sobre o ombro na direção da sacada do aposento do duque. Ela permanecia parada, suas vestes flutuavam ao seu redor como se houvesse brisa apenas naquela região. Uma sensação desagradável de pânico me perseguiu em sonhos nas próximas noites recheadas de pesadelos com aquela mulher branca.

Na segunda vez que a mulher apareceu eu estava jogando xadrez com o duque nos jardins. Era uma área bonita, cercada por estátuas de árvores podadas em formas de bichos onde um labirinto se erguia ligando o jardim norte ao jardim da ala sul. Nunca havia adentrado as paredes que formavam o labirinto, mas sabia que haviam fontes no seu interior e locais para convivência cheios de lagos e mesas. O duque passava boa parte do seu tempo livre ali dentro com seus amigos íntimos e familiares. Estávamos na ala norte, próximos ao labirinto quando a vi deslizar pelas paredes e se posicionar ali na entrada a nos observar.

Tentei ignorar a sua presença o máximo que pude, mas era inevitável não deixar o olhar recair sobre a figura de vestes translúcidas esvoaçantes. Eu avisei ao duque que sua noiva estava nos observando aos sussurros como se fosse um segredo. Ele me encarou, mas não disse nada e muito menos olhou para trás para cumprimentá-la ou checar a informação, continuou jogando xadrez.

À medida que tentava me concentrar nos movimentos do jogo eu percebia sua aproximação através da visão periférica, cada vez mais perto e mais perto. Até que seus dedos gelados tocaram a minha nuca e me fez arrepiar. O duque não se mostrou incomodado com aquilo. Olhei para a ela, na altura dos olhos notei o cintilar de um brilho estranho em meio as sombras densas por trás do véu. Aquele brilho me levou à histeria, eu me levantei num salto e deixei o jardim correndo na direção do labirinto, ali adentrei e circulei assombrado tentando me afastar da presença fria da mulher, mas a cada curva ela aparecia a me observar no seu silêncio sepulcral.

Não demorou até que o duque me encontrasse com a ajuda de seus soldados. Estava tão desorientado que não sabia onde estava e demorei a reconhecê-los, haviam arranhões por todo meu corpo e minhas vestes estavam rasgadas. Aparentemente eu havia feito aquilo. Fiquei sob os cuidados do médico e amigo Alpino durante muitos dias. Evitei comentar sobre a noiva do duque, quando tentavam me questionar o que havia acontecido despistava com as desculpas alegando cansaço mental. Todos acreditavam, afinal, era um homem das letras, estudioso e pesquisador e dedicava muitas horas de sono às leituras.

Na cerimônia de casamento eu me sentia disposto e quase curado até o momento que a vi entrar na direção do duque. Ela trajava as mesmas vestes translúcidas e o rosto permanecia encoberto pelo véu. Notei que as pessoas começaram a cochichar entre si, um murmúrio tomou conta da catedral. Até que por fim chegou ao seu noivo e segurou seu braço, suas mãos eram azuladas e apodrecidas. Eram mãos de cadáver como os que o doutor Alpino dissecava em seus estudos.

O cardeal ficou paralisado diante aquela presença, não conseguia realizar a cerimônia, ficou sem fala e o duque parecia tão orgulhoso da sua consorte, tão alucinadamente apaixonado! Por fim, ele ignorou o choque do cardeal e levantou o véu da noiva e depois daquele gesto todas as pessoas começaram a se atacar como animais raivosos, arrancando pedaços de si mesmas e abocanhando os próximos. Escapei daquela balbúrdia ao correr para fora da catedral. Os gritos que ecoavam atrás de mim eram assombrosos. Uma verdadeira carnificina ocorreu naquela cerimônia e quando percebi o casal estava ali de fora, mãos dadas a face da noiva era uma caveira e o duque acenou para mim como se tudo aquilo fosse normal. Eles se aproximaram, permaneci estático e o coração galopando no peito, a boca estava tão seca que não consegui falar nada.

- Essa é minha esposa, grande amigo e professor, minha amada Dulce que morreu de misteriosa doença quando ainda éramos jovens. Não são belas as coisas renascidas da morte?
 
Tudo fez sentido naquele momento, o interesse do duque sobre conhecimentos ocultos e necromancia, suas lamentações sobre os falsos contatos que o cercavam na corte, seus estudos sobre maldições antigas guardadas durante séculos em livros empoeirados do antigo Egito.
Larissa Prado
Enviado por Larissa Prado em 18/04/2019
Reeditado em 19/07/2019
Código do texto: T6626316
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Larissa Prado
Goiânia - Goiás - Brasil
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