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Às vezes

Eu disse que era lua cheia? Creio que não mencionei isso antes. Pois então: era lua cheia e eu estava surfando em Playa Hermosa, Baixa Califórnia, tendo como assistência na areia apenas Cinthya Melissa, minha bela contato panamenha. Era fácil esquecer do mundo sobre uma prancha, com sequências de ondas cheias, perfeitas, de não mais de 2 m de altura, quebrando contra a praia em cintilações de um azul fosforescente. O que era mesmo que eu viera fazer ali, em Ensenada? Vários pensamentos cruzaram minha cabeça, alguns particularmente agradáveis. Mas a tarefa que eu tinha pela frente era trabalhosa, mesmo que conseguisse reunir as informações que viera buscar. E certamente, Cinthya Melissa tinha todos os atributos para facilitar a minha vida.

Embiquei para a areia, e prancha sob o braço, caminhei até o ponto onde deixara o carro estacionado. Cinthya Melissa me recebeu com palmas:

- Muito bom! Embora a sua prancha deva ter algum mérito na sua atuação...

Finquei na areia a minha funboard de 7,6 pés e três quilhas. Era um modelo para iniciantes, e vendia bem.

- O projeto é meu. Pode-se dizer que sou um bom garoto propaganda para os meus produtos.

- E nada modesto também - riu-se ela.

Vesti a camisa. O vento estava forte e começara a esfriar.

- Vou ter que passar no hotel, tomar um banho e trocar de roupa - comentei, em tom casual. - Vestido assim, só poderei levá-la para comer tacos no quiosque da esquina.

- Se importa se eu der um mergulho antes?

Eu não me importava com nada, naquelas alturas do campeonato. Ela tirou a canga e correu graciosamente para o mar. Nadou de braçada até a arrebentação e furou as ondas. Reapareceu mais à frente e acenou para mim:

- Vem!

Não precisou chamar uma segunda vez. Tirei a camisa e corri para a água.

* * *

Foi uma diversão bem inocente. Nadamos juntos, mas não próximos demais, e quando ela decidiu que era hora de voltar para a areia, joguei um pouco de água nela, que riu, e retribuiu a brincadeira. Tirou uma toalha grande da bolsa de palha que levara, enxugou-se e me entregou para que fizesse o mesmo. Depois, ficamos nos olhando, eu provavelmente com cara de bobo. Finalmente, ela resolveu falar:

- Onde você se hospedou, mesmo?

- No San Nicolas.

- Gosta de jogo?

- Foi mais pelo fato da cozinha ficar aberta a noite toda...

E antes que fosse mal-interpretado:

- Às vezes, eu volto tarde, e sem jantar.

- Ah, sim. Você não tem físico de assaltante de geladeira...

Entramos no carro, ela sentada na toalha e eu na canga.

- E você? - Perguntei ao ligar o motor.

- O que tem eu?

- Onde está hospedada?

- Eu tenho um apartamento em El Sauzal.

Eu devia ter desconfiado, pensei.

- Bom, então passamos no hotel primeiro, tomo um banho, me troco, e depois vou te levar em casa.

- Claro. Eu te aguardo na recepção - disse ela.

- Serei rápido, eu prometo.

- Não sei se poderei fazer a mesma promessa - respondeu, sorrindo.

* * *

Pegamos algum trânsito na Carretera Transpeninsular, mas o trajeto até o San Nicolas não durou mais de dez minutos. Ela vestiu uma saída de praia estampada e sentou-se na recepção do hotel, onde ficou, mexendo no celular, enquanto eu subia para o meu quarto.

Conforme havia prometido, não demorei muito. Tomei uma ducha, e vesti uma camisa polo Lacoste preta, bermudas Ralph Lauren cáqui e docksides cinza-escuros. Vinte minutos depois, eu a reencontrei na recepção.

- Podemos ir - anunciei.

- Você está ótimo - elogiou-me.

- Esse é quase meu uniforme de trabalho - respondi. - Vamos?

- Vamos.

O trajeto até El Sauzal pela Carretera Transpeninsular era mais longo do que da Playa Hermosa até o hotel, mas não nos tomou mais de 15 minutos. Só deu tempo de fazermos um dueto cantando "Despacito". Cinthya Melissa tem uma bela voz e estava de excelente humor.

- Onde vai me levar para jantar?

- Você conhece a região melhor do que eu... afinal, tem um imóvel aqui.

- Bem... podíamos começar pelo Baja Brews. Geralmente, é cheio, mas possui várias opções de cervejas artesanais... você gosta?

- Se está bom pra você, vai estar pra mim - respondi confiante.

- E depois, finalmente, podemos jantar no Planta Baja, que fica quase do lado. Aí, poderemos conversar sobre negócios.

Já estávamos chegando em El Sauzal, e olhei sério para ela:

- Essa passagem pelo Baja Brews... quer me embebedar antes do jantar?

Ela riu.

- É só para quebrar o gelo. E a vista do mar é um espetáculo.

Por mim, pensei, o gelo já estava completamente quebrado, moído e posto numa coqueteleira. Cinthya Melissa seria capaz de derreter um icebergue!

- [18-06-2017]
Alex Raymundo
Enviado por Alex Raymundo em 18/06/2017
Código do texto: T6031128
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Alex Raymundo
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 55 anos
919 textos (42309 leituras)
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Alex Raymundo