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A Morte de uma Nação

- O que foi que fizeram desse país? - Exclamou o idoso irritado, saindo da fila com o punho cerrado e erguido, como se fosse dar um soco em alguém. - Estamos aqui faz quase duas horas, e ninguém dá qualquer satisfação!

- Calma, senhor - tentei acalmá-lo, enquanto passava ao lado dos deslocados com uma prancheta na mão. - A sua vez já vai chegar... o pessoal da Cruz Vermelha está apenas organizando a última remessa, antes de começar a distribuir os mantimentos.

- E seria bom demonstrar um pouco de gratidão - alertou o guarda de segurança, um sujeito de quase dois metros de altura num uniforme preto com a braçadeira azul e branca das Nações Unidas no braço direito. - Há muita gente no resto do mundo que acha que vocês receberam o que mereciam, e que essa comida teria mais utilidade em outro lugar.

O velho o encarou atônito, o rosto ainda mais vermelho. Parecia a beira de um ataque cardíaco.

- Pega leve, Santiago - alertei. - Não estamos aqui para procurar culpados, mas para entregar ajuda humanitária. Esse povo certamente não merece ser culpado pelo que seus governantes fizeram no passado.

- O cidadão aí não parece arrependido - retrucou o segurança, apontando o cassetete elétrico na direção do homem.

- Vocês têm razão - admitiu uma voz masculina cansada, no meio da fila. - Nós merecemos mesmo tudo isso. A fome, a miséria... era o que ajudávamos a exportar para outros países, essa é a verdade. Eles roíam ossos, enquanto nós comíamos toda a carne. Um dia, a conta iria chegar.

- E chegou, com juros e correção monetária - assentiu satisfeito Santiago, guardando o cassetete no cinturão. - Volte para a fila, vovô!

- Éramos um gigante entre os gigantes! - Resmungou o velho, voltando contrafeito para seu lugar.

- Quanto mais alto o coqueiro, maior a queda - ironizou um dos motoristas da Cruz Vermelha, saindo de uma das tendas empoeiradas da administração do campo de deslocados, com uma velha caneca de propaganda política em punho, cheia de café. Gravado em letras vermelhas desbotadas na lateral do recipiente, lia-se "MAGA 2020".

- [13-01-2021]
Alex Raymundo
Enviado por Alex Raymundo em 13/01/2021
Código do texto: T7159025
Classificação de conteúdo: seguro


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Sobre o autor
Alex Raymundo
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 58 anos
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Alex Raymundo