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Uma Viagem no Tempo - Parte VIII

- já fizeram parte da nossa comunidade, mas vivíamos envoltos em problemas. Se somos considerados hoje uma raça pura e feliz devemos isso às nossas mulheres. A opção de viver em comunidades isoladas não foi nossa, dos homens, mas delas mesmas.

- E porque decidiram assim?

- Perceberam que já não éramos felizes. Acharam-se culpadas por essa situação. Vivíamos enfeitiçados por seus encantos, a magia de suas vozes e a harmonia indescritível de seus gestos e movimentos. Como sempre foram em número maior que o de homens, o machismo sempre atuante tornou-se incontrolável. Elas sofriam e nós também. Era impossível haver a fidelidade e, consequentemente a vida familiar feliz. Por incrível que pareça, esta estratégia eu já aguardava essa pergunta de sua parte. Terá que ver com seus próprios olhos.

- Como assim?

- Nossas mulheres não são mulheres comuns. São deusas. Como poderei explicar? Para nós mesmos parece não haver uma explicação. Elas vivem em outro local, mas não muito longe daqui. Disse deusas por não encontrar um termo mais adequado. Se está vendo em nós, homens, modelos perfeitos de seres humanos, como há pouco mencionou, espere até ver nossas mulheres.

- Há quanto tempo vivem assim?

- Há, no mínimo trinta anos, até onde consigo me lembrar. Todos vamos e voltamos ao mesmo tempo. Os solteiros ficam e os casados vão ao encontro de suas famílias. Apenas essa mudança trouxe, definitivamente a paz para nossa civilização. Pode ser que isto ainda venha a se alterar no futuro e as famílias consigam viver uma união diária sem a o perigo da traição.

- Isto não parece uma situação forçada? - perguntei, curioso para conhecer a sua resposta.

- Também pensávamos que assim fosse. Mas tudo mudou e hoje a paz é completa. Os homens, ou mesmo as mulheres, menos contidos, mantêm-se unidos e fieis aos seus parceiros e se amam mais a cada dia. Não há, como a saudade para aquecer o fogo do amor e da paixão. Como disse, enquanto estiver dando certo, vamos manter essa forma de união entre os nossos casais.

Continuou falando, entusiasticamente e não escondendo o orgulho por suas famílias e, principalmente suas mulheres. À medida que ia falando, a luminosidade que escapulia de seu corpo ia adquirindo um brilho mais vivo e intenso. Essa intensidade não era permanente. Ao contrário dele eu não tinha a capacidade de ler pensamentos, então intuí que, a um pensamento ou outro, talvez de saudade, preocupação ou algo assim, o brilho esmaecia-se um pouco, mas esses eventos eram bem rápidos e infrequentes: logo, aquela luz intensa e cativante volta a contornar o seu corpo. Fiquei surpreso quando ele me disse que a “capacidade” de enxergar a luz circundante no corpo era mais minha do que dele próprio. Melhor dizendo, eles viam, também, quando assim desejavam.

Porém, sendo um fenômeno mais do que natural deixavam-no de lado e, por isso ele pouco se manifestava. Entendi, após essa explicação que viviam numa era de luz. Era como se vivessem envoltos nela sem perceberem-na como o peixe que vive e respira imerso na água. Perguntei sobre as guerras e ele, pela primeira vez, soltou uma gargalhada que ecoou no ambiente, deixando-me muito embaraçado diante da minha própria pergunta. Desconhecia essa expressão. ‘Então, porque riu?’ perguntei. Pela sua resposta compreendi que ainda não fazia ideia do quão adiantada Era eu me encontrava.

- Vejo que está confuso. Deixe-me explicar melhor. Não é que desconheçamos a expressão. Desconhecemos, sim, o que é guerra. Conhecemos o passado, o presente e o futuro do mundo. Isto é, com limites. As guerras foram extintas da face deste planeta há pouco mais de duzentos anos. Pode não parecer um tempo suficientemente longo, mas finalmente a humanidade deu-se conta da inutilidade dessa estratégia. É certo que o mundo muito progrediu por meio de guerras, embora sempre tenha sido muito alto o preço que pagamos, não é mesmo? Não há mais essa necessidade. Temos outros meios muito mais eficazes de progredir e as provas estão aí, diante dos seus próprios olhos.

Ele não precisava falar mais nada e nem mostrar prova alguma. Nos primeiros momentos em que chegara àquela época futura, antes mesmo do encontro com aqueles homens eu já tivera noção do avanço que iria presenciar. As coisas que já vira, as impressões que me assaltaram e agora aquela conversa peculiar só fizeram concretizar em mim essa convicção. A partir daquele nosso diálogo e nas horas seguintes, minha insegurança ia-se amenizando até desaparecer completamente.  Aos poucos, fui tomando contato com outros homens, sempre acompanhado de Bradock, era esse o nome de meu anfitrião. A conselho seu, embora sob sua supervisão eu jamais ultrapassava os limites daquela grande área. Ele não entrava em detalhes sobre a razão de não podermos ir mais além. Apenas me dizia que não havia necessidade; que eu não veria nada de interessante. É óbvio que essa sua alegação não fazia sentido para mim, pois sendo eu um alienígena, não poderia haver, no meu caminho algo familiar, tudo me seria novidade, senão pasmo e horror.

Contudo, mesmo sem me afastar muito, o que eu via me deslumbrava.
Não havia muitas construções, por isso as ruas eram espaçosas e a natureza se fazia presente com grande imponência. Diante do meu embaraço ao não conseguir sair da casa por mais que eu caminhasse ali dentro a procura de uma saída, ele me explicou, um tanto surpreso com meu espanto, dizendo que todas as construções eram germinadas constituindo, o que poderíamos chamar de uma mesma família. Havia não mais do que três em toda a região. Por isso a presença da natureza por todos os lados. Rios e lagos eram a paisagem predominante.

A temperatura era sempre agradável e, segundo fui informado, estávamos em pleno verão e, mesmo durante o inverno o frio não era intenso. Tudo me enchia de paz e um bem estar indizível. A sensação era indescritível; não encontro meios de comparação com o que me era familiar no meu tempo. Poderia dizer, a grosso modo que era como passear no meio de uma floresta, inundado pelo frescor da brisa vespertina e respirar, a plenos pulmões um ar puríssimo e revigorante. Eu escutava o ruído de cachoeiras vindo de várias direções e, realmente eu constataria mais tarde que elas eram reais e em grande quantidade.
Professor Edgard Santos
Enviado por Professor Edgard Santos em 08/11/2019
Reeditado em 08/11/2019
Código do texto: T6790466
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Professor Edgard Santos
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil
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3 e-livros (135 leituras)
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Professor Edgard Santos