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Uma Viagem no Tempo - Parte II

À princípio não me dei conta de onde poderia estar, mas uma coisa era certa: a atmosfera pavorosa que me recepcionara anteriormente não existia mais. O ar estava claro, as nuvens embranquecidas vagavam na sua lentidão costumeira denunciando, aqui e ali, por trás delas, um céu azulado e acolhedor. Já na outra extremidade do horizonte não era esse o cenário. Pairava ali a escuridão quase que total como se a luz do sol esquecera-se de visitar aquela região. Não havia aqui sinais de luminosidade, mas estrelas pontilhavam o horizonte, infringindo flashes tímidos de uma luz opaca, quase inexistente. Tudo aquilo me pareceu estranho demais. Jamais vira, na face da Terra que sempre julguei conhecer, uma manifestação tão estranha, em que dia e noite visitassem o mesmo céu visível a olho nu. Era intrigante imaginar que tipo de vida poderia existir ali, se é que possível fosse haver criaturas em uma atmosfera tão desarmoniosa. Em seguida ao leve solavanco da máquina denunciando aterrissagem, permaneci estático em minha cadeira, incapaz de realizar um movimento sequer. Não era mais um deserto o que me recepcionara como da vez anterior, mas uma pista infinitamente longa e reta, levando a um horizonte comum, de céu claro e límpido. O que me paralisara não fora nada assustador, mas a surpresa de constatar a semelhança com coisas do nosso tempo, ou seja, prédios, ruas e aquela longa avenida.

Tudo aparentava solidão e abandono, o silêncio era mortal. A claridade ofuscante do ar dificultava a minha visão. Havia um brilho intenso, uma luz que se projetava em todos os lugares ao mesmo tempo, mas que não era a luz do sol, pelo menos como a conhecemos. A estrutura das construções desafiava qualquer criatividade humana que eu pudesse conceber; uma beleza indescritível, uma harmonia de cores e de traços indignos de se definir com simples palavras. Orgulhei-me da raça humana e de sua capacidade de construir obra tão deslumbrante. Esse pensamento repentino trouxe-me uma espécie de medo e insegurança por estar ali, naquele tempo e naquele estranho lugar. Seria mesmo a raça humana a responsável por aquelas construções ou seres também especiais estariam por trás desses feitos? Isso me trouxe insegurança e eu titubeei um pouco antes de me decidir sair da máquina e visitar o local pessoalmente. Por fim, tomei coragem e deixei o interior da máquina, ganhando o solo. Não estranhei a temperatura; correspondia exatamente a que marcava o meu medidor no painel: 28 graus centígrados. O silêncio era total, a falta de vida e de atividade insuflava-me depressão e angústia. O que haveria por trás dos prédios? Sendo uma viagem no tempo algo repentino, a dimensão de altura só se faz presente após parada total e completa da máquina; o que vemos na chegada compara-se a um espaço indiscernível, porém linear e completamente horizontal. Então eu precisava ver aonde eu realmente me encontrava.

Caminhei em direção a um dos prédios, o que mais me chamara a atenção por sua beleza arquitetônica. Nada nele se comparava às nossas construções mais modernas e ostentosas. Não era alto, mas extremamente espaçoso; diria que um campo de futebol caberia ali dentro. Não havia janelas, mas aberturas imensas de onde pendiam algo como imensas rodas de aço ou coisa parecida. Digamos que fossem rodas gigantes, mas que não possuíam movimentos de rotação; giravam todas muito lentamente, deixando-se impulsionar por uma força que, até aquele momento, eu não conseguira identificar. Pareciam ter sido construídas para se encaixarem nas aberturas principais do prédio, substituindo as janelas, tais como as conhecemos. Se havia por ali passagens, essas não eram para seres humanos comuns, a não ser que portassem veículos especiais para esse fim.

A curiosidade fazia-me, sem que eu percebesse, afastar aos poucos da máquina. Aqui era uma longa avenida tomada por construções imponentes, mas muito castigadas pela ação do tempo; elas enfileiravam-se a se perder de vista. Embora fosse agradável a temperatura, o ar era seco e um tanto pesado para se respirar. Eu percebia a poeira do solo erguer-se por uma brisa inconstante e pairar no ar como nuvens densas; isso se passava ao longe, por trás dos prédios. Andei um pouco mais e, qual não foi a minha surpresa e espanto quando vi o que vi. Ao passar entre dois edifícios e ganhar o outro lado tive que amparar meu corpo a uma das pilastras a fim de não desmoronar de susto e de estupefaço. O que parecia ser um oceano sem água estendia-se diante de mim a se perder no infinito. Não mais do que uns quinhentos metros distanciavam-me de sua margem. Era um panorama que ser humano algum de meu tempo teria o privilégio de testemunhar. Não sei como descrever em simples palavras o que meus olhos presenciavam. Eu tinha as pernas trêmulas só de imaginar a profundidade daquele abismo. Pelos meus parcos conhecimentos de oceanografia era a plataforma continental em toda sua imensidão.

Então era isto! Por isso toda essa densidade no ar. Não havia mais água em nosso planeta. Extinguira-se toda e qualquer forma de vida. Eu estava estático, sem coragem de tentar um passo sequer; o medo tomara conta de mim. Se havia alguma água naquele oceano fantasmagórico devia estar numa profundidade inalcançável ou que eu não ousava verificar. Eu estava à beira de um precipício, aterrado pela minha própria inação. Comecei, do nada, a ser tomado por vertigem e em seguida, por uma sensação se sufocação e fraqueza; atribui-a a atmosfera sob a qual me encontrava, que me parecia extremamente nociva naquele ponto. Bem que eu notara, subindo das profundezas daquele oceano macabro uma substância volátil, totalmente incolor, bem próxima de um gás qualquer, desconhecido por mim. Senti que perdia as forças. Quis me afastar de imediato, mas meu estado parecia não corresponder a minha vontade; tropeçava em minhas próprias passadas. A certa altura fui ao chão, levado por uma mal estar incontrolável. Perdi os sentidos antes mesmo que meu corpo alcançasse o solo.
Professor Edgard Santos
Enviado por Professor Edgard Santos em 02/11/2019
Código do texto: T6785820
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Sobre o autor
Professor Edgard Santos
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil
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Professor Edgard Santos