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Os misseis de outubro e o verão de 1973 (Parte I)

A GRUTA
Max olhou o mostrador de seu velho relógio de pulso e soube que estava para amanhecer.  Aproveitou para dar corda nele, tinha medo que um dia ele deixasse de funcionar. Adorava aquele relógio, foi um presente de sua mãe quando fez quinze anos, recordava-se que a todo momento ficava olhando para ele na expectativa que alguém lhe perguntasse que horas eram.

Mais um pouco e o dia amanheceria. Dizer que estava para amanhecer era uma bela e inútil maneira de falar, pois na verdade ninguém via um nascer do sol há mais de dez anos.

Dentro daquilo que eles chamavam de gruta, na verdade um espaçoso porão de uma antiga loja de eletrodomésticos, o frio não era tão intenso, mas ainda assim fazia com que todos dormissem amontoados.
Desajeitado pelas várias camadas de roupas que vestiam seu corpo Max levantou-se. Sentia-se ainda cansado e com fome.

EM ALGUM DIA DE OUTUBRO DE 1962
Max estava ensaiando na frente do espelho pela vigésima vez como iria se declarar para Eleonor. Aquela moça era um ano mais velha que ele e desde que a conhecera, há quase um ano atrás, achava que ela seria a sua primeira namorada. Só que ninguém tinha lhe dito que era complicado aquela coisa de pedir alguém em namoro ...

Ia começar a treinar beijos com uma maçã quando sua irmã irrompeu no quarto gritando que estava dando no rádio que tinham jogado um monte de bombas atômicas nos Estados Unidos.

Ele não sabia direito como aquilo começou. Os jornais vinham falando já há alguns dias que a ilha de Cuba estava cercada por muitos navios da marinha americana. Via seus pais ouvindo as notícias no rádio e conversando sobre se ia haver guerra ou não. Para ele aquelas coisas estavam muito distantes do drama que ele estava vivenciando. Naqueles dias ele só pensava em como se declarar para Eleonor.

Tudo aconteceu porque os russos tinham instalado um monte de misseis nucleares lá e os americanos se sentiram ameaçados. Ninguém sabia ao certo quem atirou primeiro.

Uma ilha pequena e distante do Brasil de repente virou o palco principal do mundo. O fim de todas as coisas havia começado em um pequeno pedaço de terra lá para as bandas do Caribe.

FOME
O pequeno grupo de homens caminhava com dificuldade por entre uma rala vegetação e uma vastidão embranquecida pela neve. Não havia muita coisa para ver, era algo monótono. Suas roupas não eram as mais adequadas para aquela temperatura, mas era tudo o que eles tinham. Todos eles estavam com fome.

Suas únicas armas eram galhos de árvores que foram transformados em lanças, facões e facas. Andavam lentamente sentindo seus pés um tanto quanto amortecidos pelo frio. Eles tinham que caçar alguma coisa.

No começo daquele maldito inverno alguém tivera a brilhante ideia de plantar batatas, tomates e outras coisas lá mesmo na gruta. Inicialmente acharam que era uma grande besteira, principalmente porque tiveram que levar um monte de areia e estrume. Mas quando o estoque de feijão, arroz e os enlatados acabaram foram as batatas que fizeram a diferença. Só elas, por algum motivo, conseguiam germinar naquele ambiente sem iluminação solar adequada, mas nunca elas eram o bastante para todos.

Max olhava com uma certa tristeza para seus companheiros de caçada. Há pouco mais de dois anos eles eram o dobro dos que estavam ali agora. As doenças, a fome, as matilhas de cães e os confrontos com grupos rivais haviam ajudado a diminuir dramaticamente o número de caçadores.

Hoje eles tiveram sorte. Conseguiram pegar um cachorro grande que, estranhamente, estava isolado de sua matilha. Melhor ainda, não encontraram nenhum outro grupo rival de caçadores. O último encontro custara a vida de dois deles ...

O INVERNO E O CAOS
Quando os misseis explodiram na América do Norte, Ásia e Europa centenas de milhões morreram na hora. Em minutos poderosas nações foram reduzidas a escombros. As pessoas do hemisfério sul acharam que a hecatombe nuclear ficaria restrita ao lado norte do planeta. Estavam todos enganados.

O que se viu nos meses seguintes foi uma transformação radical no clima do planeta. Bilhões de toneladas de detritos, fumaça e cinzas, resultado das inúmeras explosões nucleares, foram lançadas na estratosfera impedindo que a luz solar atingisse a superfície terrestre.

Com o passar dos dias a temperatura começou a cair vertiginosamente. Como resultado disso as mais variadas vegetações foram desaparecendo. Sem uma vegetação abundante muitas espécies animais morreram gerando uma alteração radical em todo o ecossistema terrestre.

O caos instalou-se de vez O mundo vive agora em um inverno nuclear. A era das complexas sociedades humanas organizadas acabou. Tudo o que resta agora são pequenos agrupamentos humanos esparsos que lutam pela sobrevivência.

LEMBRANÇAS
Mais um dia sem sol. Max e seus companheiros andam em meio a uma mistura de carros velhos congelados, restos de casas e ruas que não existem mais. Procuram qualquer coisa que possa ajudá-los a viver mais um dia. Poucos dias atrás encontraram um bujão de gás que por um milagre ainda funcionava.

Ao longo do que havia sobrado de uma rua, Max caminha e, por alguns segundos, olha para um céu escurecido. Lembranças de um passado não tão distante emergem. Seu pai tenha uma máquina fotográfica, lembra que morria de vontade de tirar fotos de Eleonor. Que fim ela teve? Provavelmente morreu junto com os outros milhões. Ele não teve essa sorte.

Seus passos o levam para nenhum lugar específico. Olha novamente para aquele céu triste e lembra que logo acima ainda existe uma lua. Nunca iremos até lá, é o que ele pensa.

Lembrou que pouco antes das bombas explodirem estava empolgado lendo um romance de ficção científica. Na história, o personagem principal morava em um tempo futuro onde todo mundo tinha computadores que cabiam na palma da mão e a humanidade já tinha conquistado a Lua e se preparava para viajar até marte.

Ele estava gostando muito do romance, mas não chegou a terminá-lo porque na confusão que se seguiu, com todo mundo correndo para estocar comida e água, houve muito vandalismo e violência. Terminou esquecendo o livro em algum lugar e jamais soube como era o final da história.

O VERÃO DE 1973
É verão agora. Hoje Max e seus companheiros comemoram dez anos juntos. Muitos já morreram e outros simplesmente desapareceram. Não há um único bar onde possam ir tomar umas cervejas, contarem piadas, rirem e conversarem sobre coisas triviais. Não há praia onde possam ver o azul do mar, não há músicas e nem festas.

O verão de 73 é um inverno de fome, doença, morte e desespero. Não há um lugar quente e seguro o suficiente onde posam se abrigar. Mesmo assim o pequeno grupo segue em frente, sobrevivendo um dia de cada vez na esperança de, em um futuro qualquer, ver o sol nascer novamente.
Jota Alves
Enviado por Jota Alves em 08/10/2019
Reeditado em 08/10/2019
Código do texto: T6764705
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Jota Alves
Belém - Pará - Brasil
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Jota Alves