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Antítese (Micro Conto)

Na areia ruiva dos campos abertos, o vento açoitava delicadamente sua pele macia. Os pássaros grasnavam melodias, o Sol entoava um cântico surdo e a relva refletia um brilho sombrio em seus olhos cor de mel. Daria tudo para que o nada fizesse sentido. Porém, não desejava voltar àquele estado anterior de um futuro incerto; um bater de asas.

Consciente de sua inconsciência, observou a borboleta transparente pousar em seus ombros e tornar-se uma lagarta multicor. As ondas trinavam num ritmo agradável, enquanto luzes piscavam em desarmonia. As montanhas assumiam losangos disformes – um sonho lúcido recorrente que teimava em se distanciar assim que seus lábios pronunciavam a sentença, lábios carnudos feito mármore. Uma sentença fria, escaldante, com cheiro de jasmim; um fechar de asas.

Era isso. Tinha certeza. Aquilo ocorrera mais vezes. Agora as letras pesadas e flutuantes entoavam-lhe claramente em lusco-fusco a pergunta acima do cenário mnemônico:

[DESEJA INTERROMPER A TRANSFERÊNCIA? SIM/NÃO]

Com muito pesar em seus olhos cegos, embora de coração lívido, tocou a superfície líquida e finalmente escolheu... A primeira opção.

[ALERTA DE DANO NEURAL IRREVERSÍVEL]

Ainda era cedo demais. Arrancou os fios da cabeça, desvencilhou-se dos aparelhos e limpou seu corpo sintético. Longa, demoradamente, de maneira perfeita. Quanto ao corpo estendido sobre a mesa de cirurgia, fez questão de fechar-lhe as pálpebras, após tatear todas as partes, num gesto contido de autopiedade. A escuridão ainda era sua melhor amiga.

Os humanos que ficassem com suas idiossincrasias.
Victor O de Faria
Enviado por Victor O de Faria em 28/09/2019
Código do texto: T6756245
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Victor O de Faria
Araranguá - Santa Catarina - Brasil, 36 anos
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Victor O de Faria