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A FACE LÍVIDA DA ESTRELA

A FACE LÍVIDA DA ESTRELA


 I
Paredes de ladrilhos.
Chão de vinil.
Luzes fluorescentes.
Refletores hemisféricos.
Osciloscópios.
Monitor cardíaco.
Chapas de raios X.
Anestesia
Seringa de Pentotal
Tubo endotraqueal
  II
...angiografia cerebral
...edema cerebral difuso
...hipóxia cerebral
...EEG nula
...paralisia.
...EVP.
                                       
                                                                             
  III
                                     
Uma certa manhã, Miguel Winfrey, viu duas figuras imprecisas se aproximando de sua cabana. Parado no limiar da porta, ele colocou a mão aberta sobre os olhos para fazer sombra, embora não houvesse sol no céu cor de chumbo. Devido à distância, não conseguiu distinguir o que era, se humano ou alienígena. Ele sentou-se calmamente, tomou um gole de licor de dente-de-leão. Aquele era o último licor que restava de seu parco suprimento que havia resgatado dos escombros da nave. Como era o último, bebia devagar, saboreando o líquido esverdeado.
Pensou que poderia ser o resgate que chegava, embora não tivesse visto, ou ouvido, uma nave sobrevoar a região. De qualquer forma, não estava com pressa de ir embora, acabou gostando daquele lugar, tinha se adaptado àquela vida, longe da civilização, implicações e aborrecimentos. Era um explorador solitário, um mochileiro das estrelas. Ao tentar descer no planeta, houve um problema nos retrofoguetes. A astronave caiu sem controle. Ele sofreu algumas escoriações, mesmo protegido pela cabine blindada. Nada grave, no entanto. Tirou tudo que podia da nave, antes que os tanques de combustível explodissem, o que acabou acontecendo, alguns minutos depois.
 Em seguida, ergueu uma cabana com uma espécie de caniço, que crescia nas margens de um riacho. Ali ele colocou suas coisas e passou a morar. Bebia água do riacho e comia os frutos dos caniços, que floresciam no outono e davam frutos no inverno. Frutos brancos, que ele deu o nome de blade runner. Até pensou em fazer licor da fruta, mas não tinha equipamento adequado.

A garrafa de licor, que ele havia recuperado da nave destroçada, guardou para ocasiões especiais, como naquele dia em que ele avistou algo, ou alguém, se aproximando de sua morada. Dois vultos brancos, oscilantes, se avolumando na paisagem ocre. Não demorou muito para que chegassem e parassem diante dele. Pareciam nativos. A cabeça era redonda, os olhos pequenos, não tinham sobrancelhas, a boca era como a de um peixe bagre. Ele não conseguia saber o que era aquilo sobre o corpo deles, se roupas largas, ou peles flácidas. O mais alto tinha algo enrolado no pescoço. Quando o objeto se moveu, é que ele viu que era uma espécie de víbora com duas cabeças. O animal poderia estar usando o nativo como transporte, talvez como hospedeiro, numa espécie de simbiose, ou talvez, ainda, fosse simplesmente um animal de estimação, adestrado pelo seu tutor.

A voz do mais baixo era esquisita. Ele falou alguma coisa que, evidentemente, Miguel não entendeu nada. A linguagem, se é que fosse, era muito complexa. Eles deliberaram, talvez considerando o que era ele, se animal inteligente ou irracional. O mesmo queria Miguel, saber o que eram eles. Aquilo eram palavras ou sons sem sentido? Ele tentou se comunicar.
                                                         
  IV

Nasci na primeira hora, da primeira manhã, do primeiro dia.
Acompanhei com espanto e admiração, as montanhas se erguerem, as águas se espalharem sobre superfície vazia, as florestas brotarem da terra e o homem surgir do pó.
O que sou é obra moldada nas forjas de Vulcano, corre em mim, o sangue ferroso com a essência dos imortais. Debrucei-me no alto da montanha e apreciei a orgia em Sodoma e Gomorra. O castigo veio logo.
Ruíram as cidades sob uma chuva de pedras flamejantes. Sumiram nas profundezas abissais do mundo subterrâneo.                                                         Delas só restam os nomes. Eu tornei-me mortal, para ser o escravo a erguer a primeira pedra da pirâmide no deserto. Senti a dor quando o chicote do feitor, abriu sulcos ensanguentados em meu dorso e braços.

Cansado, lambi minhas feridas nos prostíbulos de Cades e fui acalentado nos braços de uma cortesã, adoradora de Isis. Foi onde, com certeza, adquiri meus vícios. Quem não os tem?
Os virtuosos vagam pelos becos com seus espíritos vazios. Recostados numa esquina qualquer, olham com inveja os filhos de Eva.
Na Ásia, andei entre tendas de mercadores de especiarias que vendiam ferro, bronze, lanças, espadas e escudos, porque era Época de Guerra, de Batalhas e não de sementes para fecundar a terra.

Os campos ficaram alagados com o sangue daqueles que sonharam glorias vãs. E a peste voou com suas asas fedorentas, com seus espíritos imundos, assolando a terra e a tornando estéril. Evitadas por viajantes, civilizações foram esquecidas, cidades soterradas na poeira dos tempos.
Onde vou agora? Como um timoneiro em transe, segui para o espaço, audaciosamente indo, onde nenhum homem jamais esteve. Procurei nas sombras do horizonte, a parte que me faltava.
Solitário, cheguei a lugar nenhum, onde o infinito faz a volta.


 V
                                       
Já existíamos quando o Espirito soprou sobre as Águas e as sombras se recolheram às cavernas. Éramos física quântica, pó das estrelas. Mergulhamos na atmosfera de Netuno e nas tormentas sibilantes, dançamos com os vórtices de gás metano. Nossos risos eram como estouros de relâmpagos. Visitamos a galáxia mais distante e repousamos nas areias brancas de uma praia em Urphil. Naquela manhã, foi a primeira vez que nos beijamos e nem sabíamos que ela partiria tão cedo, sem despedida, sem aviso.
                                                       
                                           
  VI

 Mirei seu corpo sem vida, estendido sobre o mármore frio. A face lívida, inerte, imutável, fria e distante. Nada mais era possível. Nada mais teria importância. Nada mais. Nunca mais! Naquele dia, meu universo secou, tornou-se árido, inóspito. Rachaduras rasgaram o mundo de meus sonhos e nada mais ali, iria germinar, florir. Deixei-me abater sobre o deserto e me tornei parte dele. Vazio. Inerte. Morto.
 Morri no último minuto, da última hora, do fim do dia.

                                                         
 VII
                                             
─ Então doutor, que o senhor acha?
O médico ajeitou o estetoscópio no pescoço.
─ Eu diria que é um caso raro. Exames exaustivos foram feitos e não foi detectado nenhum dano físico. Ele já devia ter recuperado a consciência. Existem casos em que o paciente entra num mundo de fantasias e se recusa a enfrentar a realidade. Especialmente quando sofre um trauma muito forte. É recente, a morte da esposa!
 ─ Ele está sorrindo agora, doutor!
─ Eu diria que ele está em algum lugar, fora deste mundo. Espero que seja melhor que o nosso...
                                                           
 VIII
                                                                                     
E os dois alienígenas ficaram ali, trocando impressões, enquanto Miguel saboreava sua última taça de licor. Em seguida, ele avistou outro personagem que surgiu na distância. Esse tinha uma aura envolvendo o corpo. Ele a reconheceu logo em seguida. Estendeu a mão, largou o cálice vazio sobre a cadeira e foi ao encontro dela. Era sua falecida esposa que vinha buscá-lo.
Fim
ANTONIO STEGUES BATISTA
Enviado por ANTONIO STEGUES BATISTA em 25/09/2019
Código do texto: T6753829
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Sobre o autor
ANTONIO STEGUES BATISTA
São Leopoldo - Rio Grande do Sul - Brasil, 74 anos
78 textos (6487 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 05/12/19 18:46)
ANTONIO STEGUES BATISTA