Mudança permanente

[História anterior: "Forrester (o nome do mundo)"]

Acompanhado de seu guia qyamun, Hasim, membro da classe dos sacerdotes, Forrester pousou sua nave pessoal, a "Dédalo", num vale coberto de blocos de basalto, gramíneas e vegetação rasteira, próximo ao sopé das montanhas de Naqsah, que praticamente dividiam ao meio a grande floresta equatorial de Tramh, no continente meridional do planeta Laqsih. Com a aproximação da astronave, animais verdes esguios, lembrando girafas de três patas com uma cabeça esférica, fugiram num galope trôpego em direção à selva.

- Aqueles são os rhusi que você queria tanto ver - comentou Hasim, apontando com o indicador da mão de três dedos para os animais em fuga.

- Ouvi muitas histórias sobre os rhusi... são os guardiões da floresta, segundo as suas crenças?

- Não somente guardiões... eles fazem a floresta crescer - explicou o qyamun. - Comem os frutos e defecam as sementes quando se deslocam, fazendo com que as árvores de espalhem.

- Mas são animais grandes... talvez uns três ou quatro metros de altura cada - avaliou Forrester, observando pela janela de observação lateral a manada de rhusi que se agrupara na orla da selva, balançando as cabeças esféricas em direção à astronave imóvel sobre seus trens de pouso. - A expansão das árvores deve dificultar o seu deslocamento, imagino.

- Os rhusi são bastante flexíveis quando jovens, - observou Hasim - podem esgueirar-se entre as árvores sem problemas, e a cor verde também serve como camuflagem. Mas, à medida que envelhecem, os rhusi procuram um lugar para a mudança permanente.

Forrester imaginou que aquele fosse um eufemismo para "morte", e traçou um paralelo com a Terra.

- No planeta de origem da minha espécie, havia uma lenda sobre grandes animais que denominamos elefantes... eles iriam para um local secreto quando pressentiam que estavam para morrer.

Hasim voltou os olhos triangulares amarelos para Forrester.

- Os rhusi não morrem. Eles mudam.

- Pensei ter entendido errado - desculpou-se Forrester.

Lá fora, os rhusi, em grupos de quatro ou cinco indivíduos, haviam voltado a pastar e dar cabriolas, ou o que quer que fossem as acrobacias que estavam fazendo, pulando por sobre blocos de rocha perseguindo uns aos outros como numa brincadeira.

- Parecem alegres - comentou Forrester.

- Como todas as crianças - avaliou Hasim. - Aproveitam todo o tempo que tem antes da mudança permanente. Quando esta vem, seus corpos tornam-se imóveis como os das árvores que protegem.

"Mas não morrem", pensou Forrester consigo mesmo.

- E com o que se parece um rhusi quando chega a fase da mudança permanente? - Indagou curioso.

Hasim virou-se para a janela frontal da astronave e apontou para a orla da floresta.

- Lá. Está vendo?

Forrester seguiu a linha indicada pelo dedo azul. Havia uma árvore que se destacava sobre todas as demais, muito alta, com uma copa esférica cheia de longos filamentos pendendo dela, como cipós. Dir-se-ia um pararraio em meio à selva.

- Aquela árvore alta? É um rhusi? - Questionou incrédulo.

- Um rhusi de mais de mil anos de vida - declarou Hasim enfaticamente.

Forrester olhou pelas janelas de observação ao seu redor, e verificou que as árvores-rhusi estavam presentes por todos os lados, bem espaçadas.

- Então... um rhusi procura um lugar no meio da floresta - e se planta? - Inquiriu.

- Quando chega o momento, sim - informou o guia.

- E... eles produzem sementes?

- Frutos e sementes, como boa parte das árvores daqui - confirmou Hasim. - E, antes que pergunte, sim, nós fornecemos amostras de sementes para pesquisadores como você, exceto de rhusi. Os rhusi são sagrados. Não podem deixar Laqsih, ou isso poria em risco o equilíbrio do universo.

"Você está brincando", pensou Forrester. "Se esses rhusi fazem parte do ecossistema local, é claro que vou precisar deles para o meu projeto".

- Entendo, entendo... - foi o que respondeu ao qyamun. - Bom, podemos descer então e coletar algumas sementes?

- Naturalmente. Pegue seus apetrechos e vou lhe indicar o que está autorizado a levar.

- Pode ir na frente, Hasim - avisou Forrester. - Preciso preparar as câmeras remotas para conseguir boas imagens da selva... afinal, não são muitos os humanos que vocês qyamun permitem pousar em Laqsih.

- Para ver como confiamos em você, dr. Forrester - replicou Hasim, desafivelando o cinto de segurança e descendo para o nível inferior da espaçonave.

Agora sozinho na cabina de pilotagem, Forrester programou pelo computador de bordo um dos drones que levava oculto na "Dédalo" para que voasse até a selva, em busca de sementes da árvore-rhusi, e as trouxesse de volta à nave. Teria que fazer isso enquanto ele e Hasim estivessem fora, para não despertar suspeitas.

Concluída a programação, Forrester pegou alguns kits de coleta de amostras e finalmente saiu da nave, encontrando o sacerdote à sua espera entre os trens de pouso.

- Eles são perigosos? - Indagou, apontando para os jovens rhusi, que pareciam brincar de pique na orla da floresta.

- Não nesta fase - retrucou Hasim.

- [01-04-2019]