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João e Maria

          João e Maria
          Jajá de Guaraciaba

          Os irmãos Grimm eram dois alemães que se especializaram na criação de contos infantis. João e Maria é um dos que faz parte do fabulário deles. Longe de querer imitar esses famosos contistas, quero narrar pra vocês uma história de João e Maria diferente. É diferente por que eles não eram irmãos como na história desses fabuladores. Então vamos lá:  Numa festa de casamento, Maria estava distribuindo docinhos aos convidados. Todo mundo estava muito satisfeito por que essas guloseimas, que foram feitas com muito esmero e carinho pela noiva, estavam uma delícia, além de que tudo corria às mil maravilhas.
          João, que fora convidado por um amigo do noivo, encantou-se com os beijinhos que Maria lhe deu. João ficou tão feliz que perguntou se não poderia retribuir com alguns dos “outros” noutra oportunidade. Talvez tivesse sido um atrevimento do rapazinho indagar isso àquela encantadora mocinha, mas não foi, pois ele ficara realmente deslumbrado com a beleza dela. Maria ficou ruborizada com aquele pedido, porém feliz, pois o coraçãozinho dela ardeu e bateu forte no peito tão logo pôs os olhos naquele rapazote. Ambos tinham uns quinze anos de idade. Ela, talvez, um pouco menos. Mas o coração não tem idade, por isso é que bateu forte como se fosse adulto.
          João e Maria encontraram-se outras vezes noutras circunstâncias e os beijinhos eram mais doces do que aqueles do casamento. O tempo passou como passa pra todo mundo e eles cresceram como todo mundo cresce, porém não se casaram como todo mundo se casa.
          João era negro; Maria, loira. O pai de Maria quando soube do envolvimento dela com o João a proibiu terminantemente de reencontrar-se com ele. Ela não obedeceu. Os pais de João quando souberam da rejeição do filho ficaram tristes mas não proibiram que se casassem às escondidas. Como o pai da Maria era racista fez de tudo para anular aquele enlace, mas não conseguiu. Com a ajuda do seu pai, João foi morar com Maria num bairro vizinho, todavia, não era visitado pelo sogro. Maria ficava muito triste com isso, mas o amor que tinha pelo marido era verdadeiro e era isso que importava. Quando eles iam visitar o pai de Maria, o marido ficava lá no portão esperando. João era proibido de entrar. Mas o destino, ah, o destino, sempre se encarrega de arrumar as coisas!
          Certo dia, o pai de Maria foi acometido por uma doença grave, por isso teve que permanecer acamado. Mas mesmo assim, o orgulho de ser branco era tão grande que ele não queria a presença do genro por ocasião das visitas da filha. E o João continuava lá fora, esperando.
          O médico, que atendeu ao pai da Maria, disse que se ele não fosse operado com urgência fatalmente morreria. Ficaram desesperados, pois as custas da cirurgia iam muito além das suas posses.  E é aí que entra o famigerado destino: João não tinha o hábito de apostar nas loterias, mas de repente, assim não menos que de repente, ele, num ímpeto surpreendente, jogou na Mega Sena os números do dia do aniversário dele, da Maria, do pai, da mãe, do sogro e da sogra e não deu outra: ganhou alguns milhões. Aquela dinheirama toda tornou-o branco... mais branco do que o próprio sogro!
          Feliz da vida, ele foi à funerária e comprou um lindo caixão de madeira envernizada e o deixou lá à disposição do sogro que fez uso dele no prazo de uma semana.
          E, assim, João e Maria viveram felizes para sempre, enquanto viveram.
 
Jajá de Guaraciaba
Enviado por Jajá de Guaraciaba em 17/10/2020
Reeditado em 17/10/2020
Código do texto: T7089821
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Jajá de Guaraciaba
Pilar do Sul - São Paulo - Brasil, 77 anos
848 textos (94280 leituras)
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Jajá de Guaraciaba