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A Última Pradaria do Céu
Infinito. Esta é uma ideia importante, mas poucos se dão conta. Os parcos sobreviventes habitantes de Zeno sabiam bem disso. Reminiscentes de uma antiga e majestosa civilização interplanetária, sua cultura foi extinta em quase sua totalidade pelas inúmeras desavenças internas e por guerras intermináveis com todas as outras espécies humanas que deles derivaram.

Em Zeno, porém, a humanidade ainda persistia, embora distante desta última pradaria onde me encontro. A última pradaria do céu, assim eu gosto de chamar. Dizem os sacerdotes de Clio que nós não surgimos no Sistema Bétula, mas num planeta distante, em outro braço da Via Láctea. Eles falam que lá, naqueles distantes éons, nós costumávamos olhar da terra para o céu se considerando uma civilização do chão, o céu como um lugar distante e desconhecido, que apenas encimava o mundo. É estranho pensar num mundo em que o céu está apenas em cima da gente. Em Zeno tudo é céu. A velha cidade humana com toda sua poeira e miséria, as grutas dos górkios, as grandes rochas flutuantes de Aerólia e os palácios aéreos dos pálas, tudo isso está no céu porque nós somos um pedaço do céu e não o contrário.

Ah este céu laranja! Se não fosse pelo imenso planeta Bétula, ameaçadoramente vermelho escuro, com seus anéis pálidos, ocupando quase metade do nosso céu, talvez ele fosse mais belo ainda. Apesar disso, eu gosto de Bétula. Os sábios de Urânia dizem que todas as nossas dezenas de luas só são possíveis porque Bétula é gigantesco. Dizem eles, que inclusive nós também somos uma lua. Gosto de pensar em como seria se vivêssemos em um planeta ou em uma estrela. Será que é possível? Eu acho que não. Estrelas são muito quentes e planetas são grandes demais, poderíamos ser esmagados pelo próprio peso. Os sábios urânios dizem que nós já habitamos muitos planetas e até mesmo que começamos em um planeta, que era azul. Os sábios têm essas ideias esquisitas, não sei se acredito.

Por isso sou pintora. Gosto do que vejo. Eu me sento aqui, nesta tenda e olho esta imensa pradaria. As grandes avestruzes de corrida dos povos do deserto pastam calmas perto do oásis e subitamente batem em retirada. Provavelmente algum dente-curvado se esgueira atrás das pedras e assusta a manada. Tem pouca vegetação aqui e isto facilita minha vida. Não gosto muito de pintar vegetação: cada elemento, mil detalhes, isso dá trabalho. Aqueles matagais fechados de Nebula quase me fizeram desistir da arte. Diferente das florestas, a pradaria é um lugar de ar. Tem ar pra todo lado, tem vento e, infelizmente, tem muita poeira. Mas é aí que as coisas ficam legais. Aí mora o desafio: pintar paisagem poeirenta. Simplesmente amo! Tudo fica mais ambíguo, dá pra esconder umas sombras, uns seres tênues se insinuando atrás da cortina de areia.

Aqueles picos no horizonte, onde os sóis se põem, eu já morei lá. A vista é incrível, de um lado a pradaria e de outro o mar infinito. Ninguém navega o grande mar, não há nada depois dele, o mundo inteiro é nosso pequeno país-ilha. E aquelas ondas titânicas, duvido que alguém invente uma nave aquática estável o suficiente para resistir àquela fúria. Os sábios de Clio - cá estou eu de novo falando deles, acho que se fosse sacerdotisa, seria de Clio - dizem que nossas primeiras grandes viagens como espécie foram num Grande Mar chamado Tenebra. E que depois desse mar tinha uma terra de outras pessoas, todas emplumadas. Nunca acreditei. Se hoje em dia é impossível navegar no oceano, imagina num passado remoto.

Mas a vista dos picos é magnífica. Eu sempre falo bem dos picos, me lembra a infância, muitos anos antes de eu ter idade para a escolha do meu destino. Havia meus pais e meus irmãos. E chovia mais. Lembro-me das brincadeiras e das aventuras nas cavernas, das caça aos tesouros nos largos verdes do interior da montanha. Bem, mas a época dos picos se foi. Hoje estou por conta própria, vivendo de minha arte. E eu gosto disso.

Volto ao céu. Talvez o mundo seja uma pintura. Impossível que tantas cores se alternando e se misturando no céu tenha sido ao acaso. Acredito na história do deus pintor. Com certeza o mundo foi obra do pincel de alguém.

Os sábios falam de um tempo em que as pessoas acreditavam numa coisa chamada futuro. Segundo dizem, essa ideia significava pensar que nós não teríamos fim e podíamos imaginar coisas boas num porvir distante. Em Zeno o futuro morreu, somos uma civilização que definha. Estamos nos últimos anos da humanidade e o presente é tudo que possuímos. A cada minutos ficamos menor, a cada minuto a poeira aumenta e mais difícil se tornam ver as magníficas cores da última pradaria do céu. Um dia a pradaria vencerá o céu, sepultando a todos nós em sua mortalha de areia. E nós, os filhos do céu, estaremos para sempre esquecidos na eternidade.
Wilde Green
Enviado por Wilde Green em 08/07/2020
Código do texto: T7000168
Classificação de conteúdo: seguro


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Sobre o autor
Wilde Green
São Gonçalo - Rio de Janeiro - Brasil, 36 anos
60 textos (1809 leituras)
4 áudios (86 audições)
2 e-livros (36 leituras)
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Wilde Green