Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

Voltar ao meu lugar

Leio um conto do Juremir, desses que volta e meia ele nos brinda, gratuitamente, em sua coluna no jornal, e paro no seguinte diálogo de apenas duas linhas, em que não há respostas, apenas perguntas:

- Por quê tu não voltas pro teu lugar?
- Voltar à minha infância, como?

Diria que é regra geral esse sentimento de todo forasteiro almejar um dia voltar para o seu lugar de origem. Na verdade, não conheço ninguém que não alimente essa vontade. Ao menos, ou sobretudo, em sonho.

Não sou exceção, confesso que também sonhei com inúmeras possibilidades de voltar às minhas raízes, ao meu chão original. Ao único que chamo de meu lugar - e não por acaso é descrito como nossa naturalidade (cidade natal).

Tantas vezes sonhei, tantas vezes me frustrei.

Tentei, concretamente; não apenas abstratamente. Fiz planos, busquei coloca-los em prática. Todas as tentativas jamais chegaram ao papel, sempre ficaram apenas no plano das intenções – talvez fosse melhor dizer dos devaneios.

Conjecturava mil opções. Com elas na cabeça me dirigia pessoalmente ao meu lugar. A cada conversa com conterrâneos, a cada passo naquelas conhecidas calçadas e ruas da minha velha (e destruída) cidade, conjectura por conjectura, opção por opção, tudo se esvaia como a água entre os dedos das mãos. Sonhos por sonhos desfaziam-se como castelos de areia na beira mar.

O choque daquela realidade, sempre tão diversa do que eu imaginava à distância, era um tremendo balde de água fria. Enquanto meus pensamentos ficavam presos ao passado, ou seja, à uma cidade que de verdade não existia mais, não havia como conciliar, como compatibilizar qualquer ideia de retorno.

Porque, de fato, aquele lugar é hoje um outro lugar. Muitíssimo diferente do lugar em que nasci e cresci. Aquele lugar da minha infância ficou no tempo passado, ele jamais será presente, tampouco futuro. Ele pode ser lembrado e revisitado em minha memória, mas nunca mais será vivido novamente.

Precisei ler esse conto de um conterrâneo para descobrir que não há como eu voltar para o meu lugar, porque o meu lugar é o da minha infância. E esta não volta mais. Tal qual o meu lugar.

 








Ricardo João
Enviado por Ricardo João em 04/07/2020
Reeditado em 04/07/2020
Código do texto: T6996235
Classificação de conteúdo: seguro

Comentários

Sobre o autor
Ricardo João
Brasília - Distrito Federal - Brasil, 62 anos
38 textos (817 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 05/08/20 11:36)