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Amor e cólera

Até o momento, a moléstia havia surgido em cinco cidades. Tudo indicava que fora trazida para o continente pelos barcos mercantes, que faziam a rota para Djaghar através do Mar Brilhante. Uma quarentena fora instituída, mas só depois que a situação saíra de controle; não se sabia quantos haviam fugido antes que as medidas restritivas houvessem entrado em vigor, e levado o mal para outras regiões. Era um tempo de grande desconfiança, e estranhos não eram bem-vindos. Ao mesmo tempo, como a economia local dependia do comércio entre as diversas cidades, algum tipo de contato tinha que ser mantido, mesmo que isso aumentasse a possibilidade de contágio.

- O que sabemos até agora, - informou à Cordelia, Jensen, o alcaide de Gamdhara - é que os adultos são pouco afetados pela praga, mas ela parece ser fatal para três em cada quatro crianças abaixo dos 7 anos de idade.

Cordelia o procurara na qualidade de grã-mestra da Liga Comercial da cidade, visto que a paralisação dos negócios afetava diretamente o seu faturamento e o dos outros associados.

- Mas se a praga é fatal apenas para crianças, o que nos impede de continuar a comerciar? - Opinou ela. - Basta apenas restringir a presença de menores nos mercados e locais frequentados por adultos.

- Não é assim tão simples - ponderara Jensen. - Basta circular por qualquer mercado, em Gamdhara ou nas demais cidades, para constatar que a circulação de crianças ali é uma constante. E mesmo a Liga Comercial não se posiciona contra o trabalho de aprendizes.

- Mas não em tão tenra idade - retrucara Cordelia. - E na qualidade de alcaide, caberia a você determinar uma proibição de acesso aos mercados por crianças.

- Inclusive os órfãos que vivem vagando pelas ruas? - Questionou Jensen. - Sem a comida que obtém nos mercados, a maioria morreria de fome.

- Este me parece ser um problema da sua alçada - replicou Cordelia secamente.

- Mas quando pedimos ajuda aos comerciantes para resolver problemas sociais, nunca há dinheiro, não é mesmo, grã-mestra? - Ironizou Jensen.

- Não fomos nós quem criamos tais problemas - irritou-se Cordelia.

- E também nada fazem para resolvê-los - atalhou Jensen com firmeza. - A minha decisão já foi tomada: nada de comércio além dos limites da cidade, enquanto a praga não estiver sob controle.

- O senhor está condenando os comerciantes de Gamdhara e todos os que dependem deles, à morte pela fome - replicou Cordelia.

Jensen laçou-lhe um olhar cético.

- Não acredito que vá faltar pão na sua mesa... ou na dos demais membros da Liga Comercial. Mas espero que dividam o muito que têm, com aqueles pelos quais são responsáveis, e que pouco ou nada têm. Esse problema, deve reconhecer, não foi criado pela administração da cidade.

- Nenhuma criança morreu ainda em Gamdhara por motivo da praga - insistira Cordelia.

- E nenhuma criança morrerá, se depender da minha autoridade - disse Jensen para encerrar a discussão.

Ao despedir-se de Cordelia, à saída da velha fortaleza que abrigava a administração de Gamdhara, Jensen fez uma última pergunta:

- A grã-mestra possui um filho pequeno, não é mesmo?

- Sim - Cordelia estreitou os lábios.

- E não se preocupa pelo que pode ocorrer com ele, em meio à essa epidemia?

Cordelia o encarou, enfurecida, mas a resposta veio absolutamente tranquila:

- Não vou colocar meu filho em risco, senhor alcaide. Corey é pessoa mais importante no mundo para mim.

[10-06-2020]
Alex Raymundo
Enviado por Alex Raymundo em 10/06/2020
Código do texto: T6973766
Classificação de conteúdo: seguro


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Sobre o autor
Alex Raymundo
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 57 anos
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Alex Raymundo