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Dívida paga

Corey olhou para o relógio na parede do hall da escola, pouco antes de sair. Tinha cerca de uma hora para chegar em casa, ou teria problemas com a mãe. E com a tia, que até o dia anterior, ele sequer sabia que existia. E que era praticamente uma cópia 3D da mãe dele, exceto que vestia roupas bem mais caras e tinha um penteado condizente.

O restante da véspera também fora estranho, a mãe tentando esquivar-se das perguntas que ele fizera, mas finalmente, vencida pelo cansaço, acabara revelando alguma coisa:

- Eu devo um favor muito grande para a sua tia, filho. Ela nos ajudou quando a hipoteca da casa estava para vencer, e eu não tinha dinheiro para pagar... o banco ia tomar a nossa casa, nós não tínhamos para onde ir.

- A tia Cordelia lhe emprestou o dinheiro? - Inquiriu Corey.

- Não - admitiu Delia. - Ela me DEU o dinheiro... em troca de um favor. Que eu teria que cumprir depois que você completasse oito anos.

- Favor, mãe? Que tipo de favor? - Insistiu o garoto.

- Você teria que passar algum tempo na casa dela...

- Quanto tempo, mãe? Se eu começar a faltar a escola...

Delia ergueu as mãos.

- Calma! Eu não sei exatamente quanto tempo, mas você não vai perder as suas aulas; pelo menos, foi o que ela prometeu.

Corey ficou um pouco mais sossegado. Como teria aula pela manhã, isso não significaria passar mais do que uma tarde e uma noite na casa da tia Cordelia.

- Está bem, mamãe. Trato é trato - resignou-se.

Delia o encarou com os olhos arregalados.

- O que foi que você disse?

- Trato é trato - repetiu Corey, inocentemente.

Delia engoliu em seco. Fora exatamente a mesma expressão que Cordelia usara na rápida visita que fizera mais cedo, para ver Corey. Será que ele ouvira alguma coisa? Ou... vira? Não! Abanou a cabeça, para afastar os pensamentos ruins que lhe haviam ocorrido.

- Amanhã você vai ter que sair um pouco mais cedo da escola, pois sua tia virá buscá-lo às 12 h em ponto - alertou a mãe.

E mais não disse, pois não sabia como Cordelia iria explicar a sua técnica para viajar entre realidades. Ou como abria portas no meio do ar...

Quando Corey chegou em casa, já encontrou a mãe e a tia sentadas no sofá, aguardando por ele. Cordelia consultou o relógio de pulso caro que usava.

- Cinco minutos adiantado! Bom rapaz!

Ajoelhou-se no carpete da sala para ficar à mesma altura dos olhos do menino.

- Pronto para viajar com a tia Cordelia? - Indagou em expectativa.

Corey olhou para a mãe, que estava triste e silenciosa. Ela apenas balançou afirmativamente a cabeça.

- Sim, tia - confirmou Corey.

- Vá se despedir da sua mãe - ordenou Cordelia, erguendo-se.

Corey correu para os braços da mãe, que o apertou com força.

- Oh, meu querido... - murmurou ela.

- Eu não vou demorar, mãe! - Prometeu ele.

- Está na hora - observou Cordelia, retirando uma venda de um dos bolsos do casaco que vestia. - Vamos fazer uma pequena brincadeira, Corey...

O menino soltou-se dos braços da mãe e parou em frente à tia.

- Vire de costas - comandou ela. - Vai ser como na cabra-cega... só que você vai segurar na minha mão.

Corey virou-se de frente para a mãe, que mordia os lábios. Foi a última imagem que registrou dela, antes da venda ser colocada sobre seus olhos.

Em seguida, Cordelia ergueu os braços e desenhou um retângulo no ar. Uma porta escura com maçaneta de latão surgiu do nada; ela girou a maçaneta e a porta se abriu. Em seguida, pegou Corey pela mão e o conduziu atrás dela.

Ainda olhou uma última vez para Delia, sentada no sofá, antes de fechar a porta atrás de si.

- [09-06-2020]
Alex Raymundo
Enviado por Alex Raymundo em 09/06/2020
Código do texto: T6972774
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Sobre o autor
Alex Raymundo
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 57 anos
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Alex Raymundo