Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto
ENTRE O CÉU E A LITERATURA

Debrucei-me em um banquinho verde de listras brancas. O cansaço era surreal. Limpei todos os cômodos retirando cada lembrança de Gustavo. O chão estava empoeirado assim como meus pensamentos. De que adianta retirar lembranças físicas, se ainda as tem em mente?

A palavra "maldição" ecoava por toda a casa deixando-me nauseada. Já era 15:00 H da tarde e nada de almoço. O ronronar do estômago misturou-se com o gosto amargo de uma paixão desconcertante. Vomitei! Teria mais cansaço para sentir!

Levantei-me tonta olhando os pedaços moídos de comida. Péssimo estrogonofe de carne! Era a comida preferida de Gustavo, porém entre os nossos "gostares" e "não gostares" havia muita sintonia.

Não quis compor versos para tal momento, relembrar aquele homem causava-me um mix de ódio e ternura. Tão suave eram suas carícias e tão bruta fôra suas palavras de despedida (a maldição ecoava mais forte por toda a casa.)

Enquanto tentava me desprender das recordações, ouvi bem distante o canto de um bem-te-vi. Queria vê-lo! Assim o fiz! O quintal era espaçoso e havia uma árvore com alguns rabiscos (um coração desenhado por um palito de pirulito). Os batimentos eram irregulares. Árvore quase morta!

O pássaro já perdia a comunicação, parecia fatigado de aguardar meu desprendimento de Gustavo.

- Desculpa, Sr. bem-te-vi!
- Vem comigo, moça!
- Para onde?

O silêncio pairava pelo ar. Eu não sabia voar, não entendia de céus. O inferno já me foi confiado desde os primeiros segundos da minha existência (a maldição ecoava cada vez mais intensa.)

- Te levarei a um novo amor!
- Amor? Não quero!
- Gustavo é o único!
- Seu amor brotará dos céus!

Não entendia nada. A ideia de voar assustava-me demasiadamente enquanto o olhar daquele pássaro penetrava a minha alma. Começava alí uma viagem que eu nunca imaginei realizar.

- Conte-me das nuvens!
- Calma, moça, calma.
- Vem comigo, segura aqui!

Segurava em suas asas como a força da natureza. Eram tão finas e frágeis, porém sabia que o que de fato era frágil era eu. A viagem continuou por alguns minutos e no caminho avistei algumas outras lembranças de Gustavo. Chorava de soluçar.

- O quê vim fazer aqui?
- Perceba as nuvens, não o rosto dele!

Angustiava-me, pois passei a sentir cada beijo, abraço, carícia. O choro persistia e acreditava que viraria chuva. Eu estava umidecendo solos! Flores novas surgiriam pela cidade. O doce da lágrima saciaria as crianças. Já não chorava mais. Sorria!

Paramos e sentamos numa nuvem acinzentada. Aquela cor me remetia a depressão, logo, a vontade de chorar novamente assombrava-me. Meus olhos embaçaram e já não enxergava nada, mas sentia a presença de um ser entre nós.

- Deus?
- Não! Ele é muito além disso.
- Quem é?
- Saberás quando desceres.
- Quando descerei?
- Quando parar de ofuscar as nuvens presentes. Seu coração está borrado! Vaza tinta!
- Que tinta? - Perguntei de braços cruzados.
- Não vês que borras a nuvem?

Parei por segundos de questionar assim entrando numa profunda crise existencial. Um pedaço de pena perdida no ar caiu em meus olhos fazendo com que o embaraço virasse novamente choro. Relembrei de todos os momentos com Gustavo ( a maldição já era insuportável.)

O canto do bem-te-vi acalmava-me enquanto eu descia vagorosamente ao inferno. O cair parecia sem fim! A face do diabo ia surgindo e o choro deu lugar aos gritos alucinantes. Perguntava-me: O que eu fiz para merecer o inferno no céu? Como isso foi acontecer?
Logo ouvi uma voz bem distante dizendo:

- Só você pode sair daí, minha amada!
- Como? Quem é você?

Continuava caindo naquele abismo aterrorizante. O canto do pássaro misturou-se com os lamentos dos pecadores. O fogo já queimava a minha alma! As lembranças com Gustavo faziam-me soluçar incessantemente. Continuava eu acinzentando a nuvem. Não aguentei!

- Basta! - Nunca meu grito fôra tão convicto.
- Saia do passado! Saia da maldição! - bradou a voz logo depois.

Bruscamente senti meu corpo subir. Voltei à nuvem e para minha surpresa estava límpida (como devia ser). O bem-te-vi não estava. Vi-me sozinha no céu. Como faço para voltar? - Perguntava-me desesperada.

- Voltarás comigo, moça!

Senti meu corpo cair novamente e despertei no meu quintal. Um homem de olhos verdes, pele negra e cabelo black estava ao meu lado. Levantei assustada e quase o agredi.

- Quem é você? Cadê o pássaro?
- Você enfim me aceitou. - Disse o homem com um sorriso largo no rosto.
- Aceitei? Hã?
- Bem...espero que sim!
- Diga-me quem é!
- Sou o homem que estava com você e o bem-te-vi na nuvem acinzentada. Você sentiu minha presença. Recorda?
- Sim! Então...
- Sim! - Respondeu ele interrompendo minha fala.
- Você estava cega como a nuvem. Seu coração estava borrando ela.

Parei por alguns segundos e fixei meu olhar naqueles olhos verdes. O homem realmente não me era estranho, a carga era a mesma que senti quando estava na nuvem (apesar de borrada). Ele era lindo, parecia um anjo que eu havia avistado durante o percurso da viagem.

- Você estava presa ao passado. Estava presa a recordações de um amor que não te mereceu. Ofuscava todo seu futuro!
- Sim! Essa maldição me assombra!
- Não mais! Você gritou basta com toda a convicção e atraiu a energia da palavra. Percebestes como elas tem poder, moça?

Lavantei do chão e caminhei até a sala. Lá estava meu banquinho verde de listras brancas. A vassoura deitada em uns rabiscos que havia feito dias atrás.

- E esses rabiscos, moça? Acho que você tentou apagar a maldição neles.
- Sim! Tentei!
- Eu sou um simples fazedor de poesias que tentou pela primeira vez se aventurar em contos.
- Ótimo, moço!

Durante a conversa percebi que já não conseguia recordar de Gustavo, a maldição de viver presa ao passado já não me assolava mais. Aquele rapaz trazia-me algo novo, uma nova possibilidade. Sorria abundantemente!

- E esse sorriso?
- Entendi tudo!
- Então...
- Sim! Realmente! Você é o amor que brotou dos céus. Tentou entrar nos meus rabiscos dias atrás.
- Moça esperta! (Risos)
- Nunca pensei que viveria isso!
- Moça, eu visitei o seu sonho. Nossos escritos ajudaram nessa viagem.
- Cansativa! (Risos)
- Eu sempre te amei nas poesias!
- Eu sempre te amei nos contos!
- "Conte-me" suas poesias, moço.
- Bem...eu "não te vi" por muitos versos, mas agora eu "bem-te-vejo" em minha vida. (Risos)

O bem-te-vi não nos acompanhou, pois sabia que depois da viagem, meu ninho não teria lugar para ele. Menino esperto!

- Francielly Fernandes
- 15/02/2019
Francielly Fernandes
Enviado por Francielly Fernandes em 09/06/2020
Reeditado em 09/06/2020
Código do texto: T6971944
Classificação de conteúdo: seguro

Copyright © 2020. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.

Comentários

Sobre a autora
Francielly Fernandes
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 27 anos
175 textos (9081 leituras)
11 áudios (499 audições)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 20/09/20 21:33)
Francielly Fernandes