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A cidade de mentira

Bell abriu os olhos em mais uma manhã de sol,as coisas estavam em seu lugar de sempre então ela suspirou.Levantou e deu corda nos passarinhos que recomeçaram sua cantoria mecânica.
Lavou seu rosto de porcelana várias vezes,redesenhou sua boca,colocou um de seus belos vestidos,os sapatinhos de cristal e saiu.Na rua todos pareciam tão iguais,rostos de porcelana,bocas desenhadas,faziam acenos com a cabeça e seguiam adiante.
Bell parou numa loja,comprou verniz para passar nos passarinhos,maçãs de cera para colocar na mesa e tinta para sua boca.Pagou,acenou e saiu.
Na rua sua sacola rompeu,as maçãs rolaram pela calçada,o vidro de tinta se quebrou,manchou de rubro os pés de Bell.Um cavalheiro que por ali passava acabou por tropeçar numa das maçãs,o livro que carregava foi ao chão e as paginas se espalharam ao sabor do vento. O cavalheiro caiu inevitavelmente em cima de Bell,num breve momento seus olhares se cruzaram e assim houve a primeira rachadura.
O cabelo dele era um emaranhado revolto de fios negros,o dela descia em duas longas tranças ruivas,a mão dele tocou a dela e o barulho oco foi ouvido pelos dois que levantaram desviando o olhar.
Ele ajudou a recolher as maçãs,ela juntou as páginas,descobriu as poesias dele,seus olhos devoraram algumas linhas com avidez.Em seguida ele a tomou pelo braço e a levou para casa.
Se despediram no portão com um aceno de cabeça,só que algo ja havia mudado.
Na manhã seguinte Bell não abriu as cortinas,não saudou o sol,nem deu corda nos passarinhos.Rumou para o piano empoeirado,sentou-se na banqueta rota e tocou.Seus dedos acariciavam as teclas,as musica se fazia sua cumplice.Assim houve a segunda rachadura.
Ele so chegou ao por do sol,colocou paginas de poemas sobre a mesa,mas como nenhum dos dois conseguia falar apenas gesticularam,assim houve a terceira rachadura.
Bell não era mais a mesma,não achava mais os dias iguais,estudava avidamente sobre si e sobre as coisas.Lia poesias e tocava piano junto de seu amigo...Amigo?O que seria então esse tiquetaquear tão forte dentro de seu peito?O que seria essa vontade de mover seus labios pintados?
Um dia Bell pintou lagrimas em seu rosto,lágrimas pois ela não conseguia sorrir.Neste mesmo dia ele também pintou lagrimas em seu rosto,num abraço frio os dois se consolaram.Naquele dia ele não voltou a sua casa,no silencio da noite ambos ficaram a ouvir o tiquetaquear vindo do peito de cada um.Encostaram seus labios pintados mas nada sentiram alem do frio.
Armando,esse era o nome do amado que conseguiu por fim escrever sobre si.Bell lia a tudo fascinada.Armando não voltou nunca mais a sua casa,ele e sua amada compartilhavam sentimentos e descobertas.Sentiam-se cada vez menos bonecos.
Um dia Bell sentiu-se quente,Armando a tocou e percebeu que finalmente seus dedos tinham sensibilidade,ou seria ilusão?
Agora eles se sentiam,tocaram-se um dia inteiro.E quando por fim encostaram seus labios pintados sentiram a ternura de um beijo incompleto.O tiquetaquear era rapido e forte.
Bell se sentia completa assim como seu amado,uniram as mãos e se olharam,os labios pintados se curvaram.Seus rostos se racharam,a porcelana quebrava.
Agora era tarde,os dois sorriam a olhar-se.Então a porcelana quebrou,Armando e Bell desmontaram em um monte de cacos,mas em dois deles ainda podia se ver...O sorriso que os libertara...


Tinkerhell
Enviado por Tinkerhell em 21/08/2008
Reeditado em 21/08/2008
Código do texto: T1139957

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Sobre a autora
Tinkerhell
Maringá - Paraná - Brasil, 29 anos
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