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Rotina de Casamento: o voyeur

 

Com 15 anos... Eduardinho estava naquela fase que todos conhecem: rosto cheio de espinhas, obsessão por jogos eletrônicos, celular, tablet, NETFLIX... e intensa intimidade com banhos prolongados. Era essa sua rotina diária.

Seu desempenho na escola caíra vertiginosamente. Não queria mais sair de casa, nem mesmo para o shopping. Depois que chegava do colégio... se entocava em seu quarto, sempre de porta trancada.

Nos fins de semana, então... não fugia nem para as refeições. Certo dia, após reclamação da mãe, fez-lhe um pedido inusitado: “Em meu aniversário, quero um frigobar!”.

A mãe “inocente” reclamava desse comportamento atípico. Não sabia mais o que fazer. A si mesma,  toda semana prometia que o levaria a um psicólogo. Essa situação lhe tirava o sono, deixando-a estressada e mal-humorada.

Em conversas com as amigas, nos grupos de whatsapp, insistia sempre no mesmo assunto: a fase difícil do Eduardinho!

A mulher não tinha mais outra coisa a falar, até que... de saco cheio, o marido lhe disse na cara:

____ Querida... você está sendo "tonta" nessa história... Eduardinho apenas descobriu os prazeres do sexo!
____ Como? Se não sai de casa... vive trancado tempo todo!
____ Por isso mesmo... é a fase da "punhetinha diária"... todos passam por ela! 
____ Mas...
____ Não tem “mas” ... no meu tempo, nas revistas pornôs, comia as mulheres mais gostosas do mundo... hoje, tem tudo na internet!

A conversa foi dura... suficiente para o regramento do tablet e celular do garoto, bem como jogos eletrônicos.

Além dessas medidas, aos domingos, Eduardinho teria que almoçar com os pais. Precisavam recuperar a convivência com ele.

Mas... o garoto não deu mole. Muito esperto, com o dinheiro da mesada, comprou um binóculo. Perguntado sobre o “porquê” daquele repentino interesse... sorriu enigmaticamente: “gosto de ver a lua e as estrelas”.

Seu interesse era outro... da janela do quarto, no segundo andar, tinha ampla visão da piscina dos vizinhos. Aos fins de semana, ficava cheia de moças e rapazes, divertindo-se e bebendo shots.

Ali, estava a nova fonte de matéria-prima para suas elucubrações fantasiosas... ver ao vivo e em cores, as garotas de biquini, tomando banho de sol. Com o binóculo podia dar "zoom" nos corpos sarados das meninas.

Como o movimento era intenso, especialmente no domingo, o garoto se fartava de tanta atividade física... e mental.

Desenvolvera até um ritual: esperava a piscina encher de garotas, dava mais um tempo para que fossem ao banho de sol... escolhia algumas e ficava observando... seios, pernas, coxas, bundas e, especialmente, a parte inferior dos biquinis. Quanto maior o volume, mais o garoto se empolgava e ardia em tesão.

Certo domingo, foi além da conta... Ficou observando uma loirona alta, de cabelos longos, pernas compridas, seios pequenos e um rosto diferente...  Mas tinha algo nela muito... muito atraente... a protuberância mal escondida sob a calcinha daquele biquini amarelo, com bolinhas azuis, deixou o garoto entusiasmadíssimo e em pé de guerra.

Como ela se mexia a todo instante, ajustando o minúsculo biquini, que teimava em sair do lugar, Eduardinho estava em ebulição. Decidiu-se logo qual seria a musa da vez: “Vou comer todinha essa loura gostosa!”.


Nervoso... a mão esquerda segurava o binóculo com força... enquanto a outra trabalhava furiosamente, num ritmo acelerado...  A respiração ofegante e o coração a mil.

Foi rapidinha a primeira "lapingochada"... alguns minutos depois, a segunda... mais meia hora, a terceira... E quase não deu... mas, suando feito chaleira, à meia bomba, heroicamente chegou a quarta arremetida. O moleque estava inspirado!


Exausto... mal se vestiu, ouviu gritos nervosos da mãe, chamando-o para o almoço. “Pôrra... foi bem na hora!”, disse a si mesmo.

Rapidamente descia a escada, ao encontro dos pais. Sentou-se à mesa, enquanto a mãe lhe fazia o prato predileto.

Comia sem muita convicção: ainda, pensando na louraça que lhe inspirara os desejos mais primitivos... Foi despertado com a mãe indagando ao marido: “Meu bem... o que tanto olhava na piscina dos Almeida Prado, mais cedo no jardim?”.

Encabulado... fora pego espiando as garotas na piscina, o marido respondeu: “Nada demais... apenas um travesti escandaloso, com um biquini ridiculo, amarelo com bolinhas azuis... ajeitando a calcinha o tempo todo, pois o pinto teimava em aparecer!”.

Ouvindo o pai, Eduardinho arregalou os olhos e começou a vomitar convulsivamente... A mãe assustada, correu a acudi-lo: “Tá passando mal meu filho? Foi a comida? Foi a comida?”.

Desconfiado... com os olhos cheios d’água, mirando pra baixo, Eduardinho se entregou: “Juro que não sabia, mãe... foi aquela comida que me fez mal!”.

 


Post Scriptum
 


O conto é o terceiro da série "Rotina de Casamento"... não deve ser visto sob qualquer conotação homofóbica, até porque a "opção de gênero" é absolutamente pessoal e instransferível. Faz parte da "construção soberana" da história de vida das pessoas.


 
 
Aluízio A C Amorim
Enviado por Aluízio A C Amorim em 03/08/2020
Reeditado em 15/09/2020
Código do texto: T7024736
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Aluízio A C Amorim
Teresina - Piauí - Brasil
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Aluízio A C Amorim