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MORRER TRISTEZA

TRISTEZA
               O hospital  estava lotado, claro, sempre lotado, se você quiser ver onde existem pessoas e suas necessidades vá a um hospital, se quiser ver pessoas e seus sonhos, vá a um campo de futebol, mesmo assim o  Doutor João não poderia deixar de notar a menina, uns treze anos, cabelos amarrados com elástico de forma pouco cuidadosa no alto da cabeça, fiapos espalhados na testa, vestido azul, parecia uma camisola, olhos fechados, picadas de insetos salteadas em sua face lisa, pernas corroídas cheias de feridas, juntas, encolhidas, um chinelo de cores diferentes estava ao lado, jeito de cansada, o médico andou até ela e perguntou a enfermeira.
         -O que houve?
         -Foi atendida no turno da noite, intoxicação, tomou diazepam, o centro de intoxicações pediu observação até as dez.
         -São duas da tarde – disse doutor João.
         -Tem ninguém pra vir buscar.
         -Pai, mãe?
         -Pai preso, mãe usuária de drogas - ela sussurrou – ela cuida dos dois irmãos menores.
         -Juiz, conselho tutelar?
         -Botaram os irmão no abrigo, ela está lá também, quer dizer fugiu ha uns meses, estava na rua, disse que estava morando com o namorado – a enfermeira parecia se importar, levou a mão ao canto do olho limpando uma lágrima – tirar os irmão foi o pior, ela não para de falar neles, acabou com a esperança.
         -Onde ela conseguiu esse remédio?
         -Namorado toma, tem diagnóstico de ansiedade, na realidade é um menino de classe média problemático, falei com a mãe dele pelo telefone, ela não quer saber mais, desistiu, disse que ele é violento e se satanás não sair do corpo dele, etc.
         -Carola de igreja – Doutor João balançou a cabeça – mãe que abandona filho é o pior, nunca vamos conseguir tratar essa sociedade doente.
         -Doença terminal.
          Doutor João andou até ela, estava dormindo na poltrona usada para medicação, parecia uma menina comum, dessas que juntaria o material para escola e depois daria dois beijos um no pai e outro na mãe.
         Ele encostou a mão no ombro dela e ela acordou.
         -Como está?
         Ela deu de ombros.
         -Tem algum parente que eu posso ligar?
         -Meu namorado Edu, mas eles não me deixam sair com ele porque ele é de menor.
         -Acho que tentaram ligar pra ele e pra mãe dele, não conseguiram nada.
         Ela deu de ombros de novo, devia estar acostumada com o sumiço dele.
         -Tem uma semana que não vejo ele, deve estar descolando grana.
         A enfermeira veio até o médico e disse que o namorado dela estava institucionalizado, mas ela não sabia, tráfico, e la na unidade corretiva furaram o tímpano dele com uma caneta, está muito mal na neurocirurgia, pode até ser que saia, porém a enfermeira duvidava.
         O médico foi até o consultório, lá estava uma receita e um bilhete, a enfermeira disse que aquele bilhete era o bilhete de despedida dela o título era: ”morrer de tristeza”.
         Ele leu.
         “Mãe, te amo, vou deixar essa vida, não suporto mais ficar longe de você e meus irmãos, também não aguento te ver caída perto da praça, por isso vou morrer de tristeza, desculpa mãe.”
         Doutor joão abriu a tela de atendimento, cinquenta pessoas esperando, viu a assistente social passar, quis perguntar alguma coisa, mas entrou uma mãe perguntando sobre o exame do filho, uma outra brigava porque o técnico de raio-x estava demorando muito no almoço, a enfermeira veio chamar porque uma convulsão chegava na emergência.
         Uma mensagem chegou no celular, era uma foto da formatura da filha, quando ele voltou ao repouso médico a menina não estava mais lá, perguntou para enfermeira, ela disse que não sabia, falou para perguntarem à assistente social, também não sabia, depois foram até o segurança, ele pensou um pouco e falou:
          -Não sei doutor, é tanta gente.
JJ DE SOUZA
Enviado por JJ DE SOUZA em 04/12/2019
Código do texto: T6811015
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Sobre o autor
JJ DE SOUZA
Vitória - Espírito Santo - Brasil, 51 anos
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JJ DE SOUZA