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COISAS DA VIDA


   Sentiu uma dorzinha. Uma ferroada na ponta do seu dedo. Aquele dedo indicador da mão direita. O famoso dedo que tudo indica e dedura. Em torno da sua unha, a cor estava mais avermelhada. Mas ela não ligou. Tinha um experiente corpo de quarenta anos. Que sutilmente se despedia dos resquícios da juventude. E ali estava o mais eloquente sinal do tempo. As dores.  Entretanto, já havia se acostumado. Eram coisas da vida.

   No dia seguinte, teve um assombro. Acordou com aquele dedo agigantado. A pele agora estava roxa. E o inchaço era tamanho, que o dedo chegava a reluzir. Mas não sentia dor alguma. Por alguns minutos, contemplou apavorada aquela anomalia em sua mão. A cena parecia de um filme de terror. Imediatamente, ligou para uma amiga. Pediu que a levasse ao hospital. Não poderia dirigir com aquele dedo. Além da dor, não sentia a mão tocar em nada.

   Chegando ao hospital, aguardou impacientemente. Escondia o dedo grotesco atrás da bolsa. Aquele pesadelo não demoraria muito. Logo estaria em sua bendita casa. Tomando uma potente caixa de antibióticos. Nunca havia sentido tanta saudade de retornar ao trabalho no dia seguinte.
 
    O doutor examinou atentamente o seu dedo. Era um velho com um grande bigode. Ela teve uma vontade inesperada de rir. De apontar como aquele bigodão era ridículo. Mas se conteve de repente. Ao notar a preocupação no rosto do médico. Em silêncio, ele mediu sua temperatura. E ela escutou incrédula que estava com febre. Que seria internada, imediatamente. Seu dedo estava apodrecendo.

    Coisas da vida. A manicure preguiçosa não esterilizou o alicate. E a paciente bactéria encontrou finalmente uma carne fresca para devorar. Primeiro foi o dedo. Os antibióticos de nada serviram. A bactéria mutante era imune a todos o medicamentos. Então, o dedo foi amputado. Depois a mão. O braço. Um pé. A sua perna. O outro pé. A outra perna. A última mão. O último braço. Restou, finalmente o coração. E este não riu, ao bater pela última vez.
Rutinaldo Miranda
Enviado por Rutinaldo Miranda em 01/12/2019
Código do texto: T6808088
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Rutinaldo Miranda
Jacobina - Bahia - Brasil
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Rutinaldo Miranda