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De Plástico

Ele foi retirado da caixa em um tempo parecido ao dela, sujo da placenta de papel, carregando as notas que garantiriam o futuro caso pelo caminho lhe amputassem a perna, lhe mordessem a cabeça.
Ela sofria com pesadelos de que lhe queimassem os cabelos.
Seriam saudosos algum dia estes tempos de medos e escolhas.
Pois ele foi levado para o interior, afundado na terra da unha dos meninos, pendurado na coleira de vira-latas.
Ela tinha os cabelos penteados, sentava-se à mesa do almoço, e teve a nítida impressão de que algum dia sonhava coisas possíveis quando esquecida sobre o carpete.
Foi que veio o tempo atacar com o crescimento, sua fiel crueldade, acabar com a paz de brincadeira, e estavam então soltos por aí, pagando as contas de um mundo que, sem saber, ainda os mataria pelos trocados devidos.
Ela o encontrou algum dia pela calçada, largado e desbotado, os braços retorcidos para trás e um cotoco de perna direita.
Gritou ajuda.
Mas que bobagem, quem choraria seus látex e polietilenos por aquele desfigurado?
Esvaía-se a esperança com o número de série que se apagava.
Lamentaram que aquela nota fiscal que guardou a vida toda serviria apenas para garantir seu abandono irreciclável.
Vá para o fabricante que te pariu!
Ela não pôde deixá-lo.
Encaixou-lhe uma perna de pau, maquiou-lhe a cara, e devolveu-lhe o valor das crianças mais pobres que já divertiu.
Juntos plantavam no concreto pingos de materiais rejeitados, pintavam de verde, alguns de vermelho, e fingiam-se de bem alimentados.
Contavam-se pela televisão tristes antevisões de seus próprios destinos.
Vinha por aí uma geração abstrata, impalpável.
Como não lhes contaram nada sobre a evolução?
Pode ser que o tempo torne também nossos corpos imaginários. De material reste apenas aquelas rasas intenções de vida que chamavam há tempos de valores, ela pensou.
Mas isto não estava nas instruções, lembrou ele puxando os óculos para a ponta do nariz.
Tudo que tinham para o perecimento que ainda levaria anos eram o contato mútuo, duro, sem digitais, e a identidade fiscal toda amassada, esperançosos que dela viesse algum dia a segura salvação.
Sonhou àquela noite que inventavam um filho a correr por este mundo, que o carregavam pela calçada, aquecido em papéis de balas pelos cantos de frio.
Mas viu-se com sorte.
Acordou assustado e desistido, ainda antes de patenteá-lo no registro do cartório.  
Eduardo Ferreira Penteado
Enviado por Eduardo Ferreira Penteado em 15/10/2019
Código do texto: T6770063
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Eduardo Ferreira Penteado
Guaxupé - Minas Gerais - Brasil, 36 anos
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