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Um Conto para as Mulheres - Primeira parte (capítulo II)

 
Foi nesse estado de coisas que começou a se operar em mim uma mudança que me fez, por fim, tomar uma decisão que deve ter sido a causa de tudo por que passei na vida. Talvez eu esteja exagerando um pouco nessa afirmativa, mas não consigo ver de outra forma. Abandonei o meu lar aos dezesseis anos de idade e, a partir daí desencadearam-se acontecimentos os mais diversos que mexeram profundamente com a minha personalidade e me fizeram mudar radicalmente a visão do mundo e das pessoas.

Acho que, se tivesse continuado morando debaixo do mesmo teto com minha mãe e meu padrasto a tragédia da minha vida poderia ter sido muito maior do que realmente foi. Não posso afirmar isto com total convicção e sim baseada nos sentimentos que começaram a tomar conta de mim a partir do momento em que se deram os fatos que narrarei em seguida. A felicidade de mamãe era a única coisa que realmente me importava e foi por ela que fiz o que fiz. Com o prosseguimento da leitura o leitor entenderá melhor o meu ponto de vista.

Dizem que a intuição nunca falha e se mamãe tivesse percebido a minha insatisfação logo no início do seu relacionamento e tivesse vindo até mim, quem sabe eu não a faria desistir daquele homem?
Eu não tinha mais do que sete anos quando os dois se conheceram e nessa fase não passamos de seres inocentes que só querem ver e extrair as melhores coisas da vida. Como não conhecera meu pai verdadeiro, encontrei no namorado de mamãe a esperança de um amor paternal que me fizesse feliz e esquecer que, até aquele momento, não tivera um pai. Nos primeiros meses de relacionamento até que senti um pouco dessa felicidade.

 Seus carinhos e suas atitudes eram realmente amorosos; divertíamo-nos muito e eu me sentia muito à vontade em seu colo e em todas as brincadeiras que fazia comigo. Porém, somente a psicologia ou outra ciência da mente para explicarem essa mudança de comportamento. Sua forma de falar, seus gestos para comigo e seus toques em meu corpinho já não eram os mesmos; vinham cheios de malícia; até que, dos nove anos em diante começaram a ocorrer as coisas sobre as quais já mencionei. Entretanto, comparadas ao que veio a partir dos meus quatorze anos elas nada representaram.

Como disse, eu precisava muito de dinheiro e o que conseguia de mamãe, além de sacrificá-la, mal dava para umas meras bobagens e logo já estava sem nada. Ele estava, às vezes, por perto quando eu pedia a mamãe algum dinheiro e ela, quando não me negava, por não ter mesmo, me dava uma quantia muito pequena. Eu saía dali muito insatisfeita, mas nunca reclamava. Certo dia ele me abordou e falou de dinheiro.

- Está precisando de dinheiro? As quantias da sua mãe são sempre muito pequenas porque só dou a ela o estritamente necessário às despesas. Mas se quiser algum posso emprestar, sem problemas.

- Como emprestar!? Sabe que não tenho nenhuma fonte de renda. De qualquer forma não quero e mesmo se aceitasse o seu dinheiro não teria como devolvê-lo.

- Não há problema, então. Posso dar a você algum dinheiro de vez em quando; de quanto está precisando?

 Eu não esperava aquela sua oferta e fiquei, na hora, muito surpresa e admirada, pois ninguém desconhecia o ranzinza que ele sempre fora quando o assunto era dinheiro. Todavia, consegui segurar minha surpresa e lhe dar uma resposta que, a mim, agradou bastante; não sei se a ele. Eu não podia ir muito fundo na sinceridade da minha resposta e nem dizer o que eu realmente pensava porque nesse dia mamãe se encontrava do nosso lado na mesa do café da manhã. Estávamos todos reunidos, com exceção de um dos meus irmãos que já saíra para o colégio.

Eu pensei um pouco antes de responder e tive que engolir a seco um bocado de vezes tudo o que pensava a respeito dele. Seu comportamento ultimamente vinha beirando a pura ousadia e desrespeito e eu muitas vezes me contivera para não levar, de uma vez por todas à mamãe todo o meu sofrimento. Finalmente, depois de muito me controlar, consegui responder a sua oferta.

- Não quero o seu dinheiro; muito obrigada. – Arrependi-me imediatamente de ter começado daquela forma; mamãe interrompeu-me com uma chamada de atenção antes que eu pensasse em continuar.

- O que está dizendo, minha filha?! Isto é forma de responder ao seu padrasto? Ele está oferecendo de bom grado algum dinheiro sempre que precisar. Sei das suas necessidades e fico triste de não poder ajudar como gostaria.

- Desculpe, mamãe; é... é que...  bem, eu não vou me sentir à vontade em pegar dinheiro com ele e depois não ter como ressarci-lo. Na verdade, não preciso muito de dinheiro; ou mesmo não preciso dele para quase nada e o que a senhora me fornece já me é suficiente.

- Você sabe que não é. Vejo como fica insatisfeita quando não posso dar o que me pede. Isto é sinal de que precisa de mais. Vamos, aceite a oferta do seu padrasto.

Nesse ponto ele já me olhava com um jeito vitorioso e cínico, enquanto trazia do bolso a mão com uma nota de cinquenta reais. Confesso que tive ímpetos de pegar o dinheiro e quase o fiz; mas um terrível pensamento me veio à cabeça. “E se ele usar dessa vantagem sobre mim para que eu amoleça e acabe cedendo as suas taras?” Esse pensamento me fez recuar e rejeitar decisivamente o dinheiro.

- Não quero! Já disse que não quero e não preciso; obrigado – e, levantando-me em seguida, fui direto para o meu quarto.

Desde esse dia passei a ser perseguida por uma estranha sensação a respeito da minha situação com o meu padrasto. Sentia raiva do dinheiro, achando que ele só serve para causar atrito entre as pessoas; que é a causa de todos os sofrimentos da vida, que se pode dominar alguém quando se tem dinheiro, que ele escraviza, humilha e afasta a harmonia das relações pessoais. Quando fiz quinze anos passei a sentir uma necessidade incrível de dinheiro. Saber que provinha de uma família pobre, onde o dinheiro fora sempre escasso e por causa disso grandes a carência e o desconforto e que, de um tempo até ali, a situação melhorara bastante em função daquele homem que entrara na nossa vida causava-me, ao invés de tranquilidade e satisfação, uma grande frustração e revolta; tudo isto motivado pelo que eu vinha passando ultimamente. Durante muitos dias perdurou esse meu estado de espírito e pior ainda eu me sentia quando o pegava me olhando, à mesa das refeições, onde frequentemente nos reuníamos, com aquele seu jeito superior e debochado.

Foi numa fase em que mamãe não mais me dava dinheiro, por causa de umas prestações que teve que assumir que se iniciou a minha tragédia ao lado do meu padrasto. Chamo de tragédia por não encontrar outro termo mais adequado para descrever a minha angústia e agonia. Ele sabia que eu não conseguia dinheiro de espécie alguma e tentava de vez em quando fazer-me tentadoras ofertas. E não mais as fazia na presença de mamãe por não poder, nesse caso, usar as palavras que realmente descrevessem suas reais intenções. Não raro, enquanto falava, puxava do bolso uma ou duas notas de cem reais como que para fortalecer ainda mais os seus argumentos.

Como eu já não era mais a mocinha boba de antes, não me importava de ficar a sós com ele dentro de casa, embora essas situações fossem bastante raras porque mamãe muito pouco se ausentava. Os serviços domésticos absorviam-na totalmente. Eu chegava a brigar com ela por não exigir do meu padrasto que a levasse a passeios com mais frequência, coisa que ele dificilmente fazia.

Muito bem; como ia dizendo, o fato de ficar sozinha com ele não representava mais para mim o mesmo sacrifício, senão um pouco de cautela e inteligência e estas eu adquirira com o passar do tempo. Ele passou a respeitar um pouco esse meu lado, digamos, mulher. Não era monstro a ponto de me atacar; conhecia os seus limites. Além do mais não tinha a mínima inteligência para lidar com uma mulher. Eu percebia isto pelo seu lado idiota de empreender uma conquista. Chegava a se tonar ridículo algumas vezes e isto o deixava envergonhado. Só restava então a estratégia do dinheiro para me convencer; e isto ele sabia fazer muito bem, infelizmente para mim.

Por mais que me esforçasse para não dar a ele perceber a minha secura e vontade de aceitar suas ofertas e não consegui. Pareciam estar escritas em grandes letras sobre a minha testa. Houve uma manhã em que só estávamos os dois em casa, que ele, já pronto para sair, todo arrumado e de pasta na mão, lançou, após mais uma recusa por minha parte, uma cédula de cem reais sobre a estante da sala.

- É seu; faça o que quiser com ele.

Antes que eu esboçasse qualquer palavra, tomada pelo ineditismo do fato ou que tivesse a chance de lhe devolver o dinheiro, já estava no portão, atravessando-o para ganhar a rua. Passei esse dia envolta nos mais terríveis pensamentos. Ao mesmo tempo em que era imensa a necessidade e a avidez por aquele dinheiro, eram também o medo do que aquilo poderia representar para mim. Mamãe só voltaria para casa no final da tarde daquele dia.

Até por volta das quatorze ou quinze horas minha atitude permanecia a mesma e minha decisão imutável de não tocar ou sequer olhar para aquela nota sobre o móvel da sala. Mas parece que o destino está de guarda para não deixar que, o que tenha de ser para nós o seja, infalivelmente. O telefone tocou e era uma amiga com quem costumava passear todo fim de semana. Convidava-me para sair à noite, pois tinha algo para me mostrar e que eu adoraria a surpresa.

Esse algo a que ela se referia era o vestido que eu já vinha namorando há algum tempo e que ela acabara de ver em promoção no Shopping Center do nosso bairro. Sabedora de que eu nunca tive o dinheiro para adquiri-lo qual não foi a sua surpresa quando eu disse que me aguardasse no local de sempre porque, finalmente, aquele vestido seria meu. Acabara de funcionar ali a estratégia do meu padrasto.

 Edgard Santos
Professor Edgard Santos
Enviado por Professor Edgard Santos em 15/10/2019
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Sobre o autor
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