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Domingo Adolescente

Quando o sol aparecia lá no horizonte, o domingo ficava mais bonito. O bairro onde eu morava ficava muito distante do centro da cidade, isto não nos impedia de vivermos momentos intensos, domingos cheios de passeios e de muitas idas e vindas à praia. Logo cedo, Manuel Antônio, amigo de todas as horas, batia à porta da minha casa para irmos jogar futebol. Minha mãe, Dona Mariana, e meu pai Senhor Miguel apoiavam aquelas minhas saídas. Sabiam que eu estava bem acompanhado.
             Debaixo daquele sol de verão, a bola rolava velozmente num campo de barro, nos primeiros minutos de jogo, a poeira subia, depois tudo se acalmava, o jogo seguia com seus altos e baixos. Era incrível, assim pensava eu, mas ninguém me queria no time, só me aceitavam quando não havia outro jogador... Eu jogava mal. Já Manuel era um grande jogador! Todos, lá no bairro, achavam que ia até fazer carreira; ele não dava tanta importância aos elogios, nem sonhava em ter algum destaque como jogador de futebol, queria mesmo era casar-se com Matilde.
             Embora tivéssemos apenas catorze anos de idade, tínhamos nossas namoradinhas. Matilde achava Manuel o máximo, antes mesmo de o jogo começar, lá estava ela, acompanhada de Maria Antônia, sua irmã e minha namorada, sentadas em um daqueles troncos de coqueiro que usávamos, na função de assento, uma arquibancada improvisada.
             Quase sempre, nos domingos de verão, o futebol começava cedo para também acabar cedo. Após o jogo, pegávamos nossas namoradas, íamos à praia. Nunca soube o que Matilde e Maria diziam para os seus pais, sei apenas que sempre davam um jeito de nos acompanhar, sem que eles soubessem. Espertas, por baixo do vestido já tinham a roupa de banho e, um detalhe que eu e Manuel observávamos: elas nunca tomavam banho de mar! Às vezes eu acho que os pais das garotas sabiam de tudo, porém, confiavam nos adolescentes, aparentemente rebeldes, afinal, éramos bons meninos, tirávamos boas notas na escola e sempre antes do pôr do sol, voltávamos para casa. No caminho as meninas iam inventando alguma desculpa para acalmar os pais. Acabava dando tudo certo. E assim o domingo ia nos dando adeus! O dia passava velozmente, os ponteiros do relógio pareciam estar sempre acelerados.
            Não morávamos tão próximos, após a contemplação de um dia de praia, seguíamos eu e Manuel por um caminho, Matilde e sua irmã seguiam um caminho mais longo. Por aquela época não havia violência lá no bairro, todos se conheciam, tudo ficava mais tranquilo. E assim o domingo ia se despedindo!
            O mundo girava em nossas mentes. Domingos, invernos, verões, primaveras, outonos, passavam, passaram, passarão. Ainda me lembro até hoje dos domingos, ao lado dos amigos de infância. Lembro-me também que Matilde, Manuel, Maria e eu, não formávamos um grupo fechado, tínhamos outros amigos, apenas tirávamos o domingo para fazer algo que achávamos diferente, talvez todos os nossos amigos fizessem a mesma coisa. O que nos assemelhava era justamente o gosto de apreciar o mar, éramos apaixonados por aquela imensidão de água. Não importava o período do ano, íamos os quatro, sempre aos domingos, contemplar o mar; esse era o dia escolhido, chovendo ou não, lá estávamos nós.
           O tempo passou rapidamente, o adeus à adolescência foi inevitável. Maria aos vinte anos casou-se com o seu professor de música. Matilde foi ser freira. Tornei-me artista de teatro, enquanto Manuel faleceu em um acidente de carro aos dezoito anos de idade... Lembro-me de Matilde, carregando nas mãos flores violetas no dia do sepultamento... Naquele dia, vimos um céu violeta tentando consolar nossa dor, enquanto molhávamos as flores de Matilde com as nossas lágrimas.
            Aquelas tardes de domingo foram marcantes na minha vida. Meus companheiros de infância nunca ficaram sabendo que nas tardes de verão, depois que eles iam para suas casas, eu voltava correndo para a praia e, lá, contemplava a despedida do sol, tendo por companhia as flores violetas que ficavam no caminho. Naquele momento, o alaranjado que se via no céu coloria a minha mente, sentia-me feliz por estar ali, contemplando aquela paisagem ao lado das flores.



Nato Matos
Enviado por Nato Matos em 14/10/2019
Código do texto: T6769789
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Sobre o autor
Nato Matos
Salvador - Bahia - Brasil, 58 anos
10 textos (135 leituras)
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Nato Matos