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CHICO PRETO

Aconteceu então que certa vez a banda Ory & Banda começou a cancelar os shows. Entre os meses de junho a agosto ninguém ouvia falar do grupo musical. As festividades de São João Batista e São Benedito ficaram comprometidas, pois o compromisso havia sido firmado meses antes.
Na rua, ouviam-se os boatos:
‘’Ory não canta mais...ficou triste com a morte do homem aranha no filme ‘’Os vingadores’’
‘’Eles irão agora se dedicar ao futebol’’
“ Vai viver de stand up’’
Tantos boatos, mas nenhuma verdade.
Ory, realmente, havia se afastado da banda sem avisar, saiu até do grupo de whats que eles tinham. Recluso, migrou para o interior. Foi passar alguns meses na vila do Tentém. O baby , como era muito seu amigo, foi atrás dele.
O que será que tinha acontecido com o Ory? Alguma doença? Depressão? Perda familiar? Um rapaz tão alegre, que contagiava todos com suas melodias, encontrava-se melancólico.
Seu amigo pegou uma bike e , não sei como, foi atrás dele.
Ele estava na cabeceira da ponte fitando o horizonte azul. Ao seu lado, um cocorote vazio mas cordial.
-Chefinho, o que é que tá acontecendo?
-To de boa...só quero paz...
- Juntos cavalgamos, juntos morremos...bad boy sempre
-Tá ficando doido, baby? Que isso já?
-Ah, eu vi no filme dos bad boys....e decorei essa frase...
O vocalista continuava com o olhar fixo no vácuo. Seu companheiro sentou-se ao seu lado. Mas antes que dissesse algo foi interrompido.
- Ninguém liga, baby. Ninguém liga para os vocalistas. Não querem saber se estamos bem, se dormimos bem, se nossos projetos estão dando certo...as pessoas só querem saber onde e quando iremos tocar...só isso...parece que não somos seres humanos...somos robôs...programados a animar; a jogar luz onde há escuridão. Quantas pessoas te encontram por aí e perguntam se estás bem?
-Ninguém.
-É isso.É muito fácil aplaudir; erguer as mãos e tocá-las...difícil e estender a mão; dar uma palavra de conforto.
-Que tá acontecendo?
Uma lágrima feito trapezista saltou de seus olhos e parou no canto da sua boca. Ele suspirou fundo, pegou um caroço de tucumã, atirou no rio...
-Eu não consigo cantar a música do Chico Preto...
-O quê?!
-A música “Chico Preto’’, o bico do peito do chico preto ...Baby, eu não consigo...não consigo...eu sempre erro...as pessoas gostam dessa música, mas eu não consigo...as pessoas pedem pra eu cantar, mas eu não sei...é um trava-língua...eu não sei! Eu erro a letra.
Chorou sem piedade. Pôs as mãos sobre o rosto. A cabeça movimentava à medida que os soluços surgiam. Ele tentava pronunciar algo, justificar-se...mas às vezes , as lágrimas são as melhores palavras.
Então era isso: Ory não conseguia cantar uma canção e isso o levou à beira de um precipício.
Baby levantou , estendeu a mão, ajudando-o a levantar-se.
-Vamos treinar juntos, até conseguirmos cantar essa música.
No retorno para a cidade, o treino começou de forma intensa. Usaram recursos mnemônicos, afixaram cartazes nos cômodos das casas, cantavam exaustivamente...quando erravam não desanimavam. Pelo contrário, ficavam mais ainda motivados.
Compraram livros de autoajuda como Augusto Cury e até livros espíritas como o da Zíbia Gasparetto.
Para evitar qualquer tipo de estresse, no final da tarde deleitavam-se com uma cantina, adquirida no Sid Bar.
Foram dois meses de treino.
O retorno da banda ocorreu lá na Fazenda. Um dia na antes do natal. A praia estava lotada. Banhistas tomavam uma breja; outros dançavam o bregoso ali mesmo na areia. Uma tv local filmava tudo, afinal era o retorno da banda.
- Baby é agora! - Disse para seu amigo que estava atrás do palco, observando.
-Vai amigo. Chegou sua hora!
-E agora, a canção que é a cara desse grupo....simbora...
Quando o tecladista iniciou as notas, a galera já se animou...

Ela pegou meu chico preto
Ela beijou, ela alisou e ainda quer levar (quer levar)
E dele eu morro de ciúme
E por isso meu chico preto eu não vou lhe dar
Ele é o meu bichinho de estimação
Ele vai comigo por onde eu for
Sem o meu chico preto eu não vou fica
Eu não vou
Mas preste atenção no que eu vou dizer
Se tudo que eu falar você me responde
Eu juro que eu dou meu chico preto de presente pra você
O bico do peito do chico preto é preto
Quem disser que o bico do peito do chico preto não é preto
Tem o bico do peito mais preto que o bico do peito do chico preto

Quando terminaram a canção, ele nem acreditava. Tinha conseguido sem cometer nenhum erro. Baby aproximou e deu um abraço no cantor. A plateia não entendeu, mas mesmo assim aplaudiu. Era o retorno da banda. Era o início de uma nova decolagem rumo a um novo caminho. Afinal o que é a vida sem diversos caminhos: tortuosos, tenebrosos, errôneos, solitários, gratificantes e alguns, meramente, gloriosos.
Francinaldo Lacerda
Enviado por Francinaldo Lacerda em 13/10/2019
Código do texto: T6768509
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Sobre o autor
Francinaldo Lacerda
Cametá - Pará - Brasil
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Francinaldo Lacerda