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Como as aparências enganam! (Reeditado)

                            Como as aparências enganam!

                                   Jajá de Guaraciaba


          Já eram dez horas da noite duma segunda-feira e a lanchonete ainda estava “bombando”. Douglas esperava Helena no carro enquanto ela desembaraçadamente despachava os últimos fregueses. Assim que ela colocou o derradeiro ferrolho na porta de aço foi em direção ao veículo, esbaforida:
          — Hoje foi legal bem! Faturamos mais de trezentos “mangos”! Se esta semana der bem eu vou dar uma festa no sábado que vem pra comemorar o meu aniversário! Afinal não é todo o dia que a gente faz cinquenta anos de idade, não é verdade?
          — Sei não, Lena! Do jeito que as coisas estão é melhor pensar em usar essa “grana” em coisa mais essencial!
          — O meu aniversário já não tem mais importância pra você?
          — Não é isso, querida! Claro que tem! Acho que você merece mais do que isto! Mas o que eu quero dizer é que temos contas vencendo, por exemplo, as prestações do carro e da geladeira vão vencer agora no dia dez e não temos reserva pecuniária, mas se você acha que essa data especial deve ser comemorada você que sabe, afinal, a lanchonete é sua e é você que trabalha que nem uma doida. Não é fácil enfrentar fregueses cachaceiros malcheirosos e mal-educados das oito da manhã até essa hora!
          — Mas você também tem seu mérito, querido! Se não fosse você me levar e trazer no seu táxi eu não poderia trabalhar naquilo que mais gosto!
          A semana foi boa. A fatura foi alta. A festa foi programada. A freguesia estranhou que a lanchonete encontrava-se fechada no melhor dia da semana, mas ninguém é de ferro. Helena bem que merecia um descanso e honrarias pelo quinquagésimo aniversário.
          Lá pelas onze da noite quando os convidados saíram, Helena dirigiu-se ao marido:
          — Bem, leva a Leontina embora! Coitada da nossa colaboradora! Ela ficou até agora ajudando a servir o pessoal quando deveria ir às cinco.
          — Está legal eu levo!  Eu bebi uns goles de cerveja a mais mas dá pra dirigir até lá. Afinal não é tão longe, não é?
          — Não precisa incomodar Seu Douglas! Dá pra ir a pé! Só quero levar um pedaço do bolo que sobrou pra minha mãe. — Disse Leontina com ar piedoso.
          — Já está no pratinho embrulhado, Leontina! —Disse Helena amavelmente.
          — Vamos embora senão fica tarde! —Assentiu Douglas.
          O carro estava lá fora, visto que a modesta garagem não comportava tanta gente. Como Helena era querida!
          Douglas achou estranho que a empregada sentara no banco detrás, todavia, não questionou esse pormenor. Pensou que ela, por ser recatada, estivesse com vergonha de sentar-se ao lado dele.
          Quando estavam prestes a chegar à casa de Leontina, ela disse de supetão:
          — Não, não entra na minha rua não! Segue em frente!
          Tomado de surpresa, Douglas obedeceu.
          — Agora entra à direita seu Douglas! Agora entra a segunda à esquerda!
          Ao convergir para o local indicado Douglas estranhou, pois a rua era despovoada, não havia saída e nem iluminação. Antes de “cair na real” ele esbravejou:
          — O que está sucedendo Leontina? O que que é isso? Pode me explicar o que está acontecendo?
          — Calma Douglas! — Agora com voz denotando mais familiaridade—. Sei que você é um cara carente. A dona Helena me contou sobre as suas intimidades. Sei que vocês fazem sexo somente de quinze em quinze dias porque ela é uma mulher frígida.
          Ela continuou falando enquanto acariciava o pescoço do patrão:
          — Sabe, Douglas, eu acho você um cara atraente e lhe desejo muito! Há muito tempo que eu queria ficar com você, isto é, se você achar que mereço um pouco de carinho. Precisamos aproveitar essa oportunidade. Eu estou precisando demais de uma companhia assim tão gostosa quanto a sua. Vem aqui no banco detrás, vem! Vem estar aqui pertinho de mim!
          Douglas não aguentou tanto charme; tanta meiguice. Passou para o banco traseiro e ali foi consumada a traição que ele jamais pensara em sua vida.
          Como ela disse mentirosamente sobre a tabelinha e que por isso se encontrava no período infértil, ele, além disso, inconsequente pela bebida que ingeriu, a engravidou. Aliás, essa era a intenção dela desde o princípio da artimanha.
          No dia seguinte, a vida continuou rotineira como se nada tivesse acontecido. Leontina prosseguiu trabalhando na casa de Helena com a mesma cara de santa até o dia que precisou sair devido à gravidez sem nunca mais ter qualquer relação amorosa com Douglas.
          Passado algum tempo a criança nasceu. Leontina ávida para abiscoitar a pensão alimentícia dirigiu-se a casa da ex-patroa para exigir que Douglas cumprisse a obrigação de sustentá-la até que a beneficiária completasse dezoito anos.
          Douglas negou veementemente que fosse o pai da criança. Leontina o ameaçou dizendo que iria ao Fórum requerer seus direitos. O Juiz mandou instaurar processo de reconhecimento de paternidade pois o réu continuava afirmando categoricamente que nunca tivera relações íntimas com a reclamante.
          Depois de dois meses o advogado ligou:
          — Parabéns, papai! O resultado do DNA encontra-se com o Juiz. Noventa e nove vírgula nove por cento de probabilidade não o isenta de responsabilidade. Venha aqui para discutirmos sobre o percentual da pensão que você deverá pagar!
          Douglas completamente abatido dirigiu-se aos seus aposentos, pegou uma mala e quando já estava quase cheia de roupas pessoais a esposa chegou:
          — O que você está fazendo?
          Com arrependidas lágrimas rolando pelas faces, respondeu:
          — Estou indo embora, Lena!  Nesta casa não tem mais lugar pra mim! O advogado ligou. O resultado do DNA deu positivo. Vou embora mas não esquecerei de você jamais! Vou depositar mensalmente uma quantia pra você na conta da lanchonete. Sei que não mereço desculpa pois o erro que cometi é imperdoável!
          Com os olhos brilhando devido a uma lágrima que estava prestes a cair, Helena redarguiu:
          — Não vá! Desmancha essa mala! Aqui é o seu lugar! Se aconteceu o que aconteceu eu também sou culpada! Não fui uma esposa à sua altura! Cometi erros também ao dizer pra todo mundo que você é um marido maravilhoso, principalmente na cama. Vamos pôr uma pedra em cima disso tudo! Eu lhe perdoo de todo o coração. Nunca mais trocaremos neste assunto, está bem?  Agora vai lá no escritório, fala com o Doutor Argemiro e cumpre a sua obrigação! Afinal a criança não tem culpa alguma de ter nascido. Ah, e quando ela crescer um pouco mais traz ela pra passear aqui em casa!
          Douglas foi ao Fórum, negociou com a outra parte sobre o percentual da pensão, cumprindo, assim, a responsabilidade que lhe fora atribuída pela Justiça.
          Depois deste fato, Douglas tornou-se um marido melhor do que era antes e Helena também comportou-se como houvera lhe prometido. Nunca mais ninguém tocou no assunto e ambos viveram felizes enquanto viveram.


 



Jajá de Guaraciaba
Enviado por Jajá de Guaraciaba em 23/09/2019
Código do texto: T6752137
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Sobre o autor
Jajá de Guaraciaba
Pilar do Sul - São Paulo - Brasil, 76 anos
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