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19 reais e cinco centavos


-dezenove reais, e cinco centavos.
Foi tudo que eu consegui guardar. Não é muito dinheiro. Mas pra mim isso tem um significado. Não sei muito bem porque guardei dezenove reais e cinco centavos. Mas eu peguei todo aquele dinheiro e fui até bar mais próximo, comprei seis latões de cerveja, sobraram-me um real e cinco centavos, comprei quatro cigarros e joguei os cinco centavos na porta do condomínio que morava e já estava devendo um mês de aluguel. Solitário em um sábado fui eu com os meus seis latões lamentar a minha falência.
Como foi que eu consegui chegar á esse ponto. Não ter um centavo. Não tenho sequer perspectiva alguma. Eu não sei fazer nada, não sei trocar a resistência de um chuveiro, não sei fazer um simples reparo qualquer, não sei montar móveis nem mesmo formatar a porra de um computador. O acaso deve ser o acaso. Talvez um ou mil acasos. É isso. O acaso. Ele é o motivo para os meus desvios de rotas, que, na minha vida tornaram-se tão normais. O acaso me trouxe esses seis latões de cervejas. Vou tomá-las e me embriagar...
- uma droga! Os latões estavam uma droga.
Tomei uma xícara de café. Minto. duas. Agora estou realmente fodido. Não tenho um centavo de reais. Não tenho uma gota de álcool. E pra piorar eu não tenho também sono por conta do café.
-Peguei uma jaqueta e fui à rua.
Não levou muito tempo. De longe eu avistei. Estava bem perto da rua das festas. Deviam ser umas 3 horas e 10 minutos da madrugada. Um carro de luxo branco,em alta velocidade veio freando e estranhamente chocou-se contra  um poste. O poste envergou uns sessenta graus pra esquerda. Senti o choque mesmo estando a uns duzentos metros de distância. Estava tão só que fui correndo com o coração doendo pelo, agora desgraçado, mais desgraçado do que eu, e que conduzia o tal veículo. Cheguei perto. senti um cheiro estranho de carro novo e de sangue. O cidadão estava com o pescoço noventa graus envergado para frente, olhei para o poste e conferi. O puto se envergou mais que o poste! Liguei imediatamente para o 190. Comuniquei todo o fato, passei o endereço e o imbecil o do outro lado da linha me disse que era da polícia. Mandou-me ligar para o SAMU, 192. Desliguei no mesmo momento. Liguei para o SAMU, repeti o que havia falado para o cara do 190 em um terço do tempo. Ela pediu para me acalmar, falei que estático e calmo ficaria o coração do cidadão se não enviassem uma ambulância imediatamente. Falou que em até 10 minutos a ambulância estaria lá e ainda me pediu para ver se ele sangrava e orientou-me a estancar qualquer sangramento. Disse a ela que não sabia trocar se quer a resistência de um chuveiro e desliguei a chamada. Fui conferir. Não havia percebido, mas a mão do cara estava colada á um pedacinho de carne e pele. O osso e os nervos expostos. O sangue espirrava como uma buceta dando pequenos esguichos. Tinha que parar aqueles esguichos. Já havia tentado parar a goteira do meu quarto certa vez com durepoxi. Não funcionou. Não tinha algo como um durepoxi pra colar a mão do sujeito. Tirei minha camisa , já estava todo fodido mesmo. Uma camisa a menos não me deixaria mais fodido que o cidadão na minha frente. Amarrei um pouco acima do pulso decepado e levantei o que sobrou do braço. Senti que ainda pulsava. Logicamente, os esguichos de sangue tinha algum motivo. Pressenti que estava salvando uma vida. Os esguichos ficaram bem menos freqüentes. Olhei para o canto do banco e vi algumas notas de cinqüenta reais ensopadas com o sangue do sujeito. Certamente dinheiro no momento era o que menos importava para ele.
Colocaram-no na ambulância, me perguntaram se o conhecia. disse que não. Disseram que chamariam a polícia para recolher o carro. Elogiaram minha atitude e tacaram fogo na gasolina rumo ao hospital. Fui até o carro. Contei o dinheiro ensangüentado. Era um sangue ralo. Havia dezessete notas de cinqüenta reais e uma de cinco. A primeira estava perdida, completamente ensangüentada. Deixei ali mesmo, junto com o resto, era um dinheiro sujo de sangue, como qualquer outro. Não demorou a polícia chegou para uma perícia, me fizeram umas perguntas de prancheta e me liberaram...
O acaso me fez talvez salvar a vida do sujeito. O acaso me fez chegar a ter nenhum centavo de real no bolso. Não contei que no momento que andava na rua e avistei o carro de luxo branco vir velozmente em minha direção estava decidido a  me atirar na frente dele. Por algum motivo ele chocou-se naquele poste. Um acaso? O motorista devia estar embriagado. Quem salvou a vida de quem? O acaso? O acaso me fez estar ali no momento para salvar a vida do sujeito. O acaso fez o sujeito do carro do qual eu me lançaria na frente para fazer dar ao meu suicídio a aparência de um atropelamento chocar-se contra o poste? Por acaso o sujeito tentou um suicídio dentro do seu carro de luxo? Mil e um acasos me trouxeram até aqui. Um acaso salvou duas vidas. E tudo isso por um acaso, graças á dezenove reais e cinco centavos.
Fui para casa. Tomei um banho e escrevi isso pensando em tudo aquilo. Pensando no acaso. Cheguei à conclusão que certamente, minha vida não seria tirada por mim mesmo. Mas sim pelo acaso. Dezenove reais e cinco centavos salvaram a vida daquele desgraçado. Não sei se ele viverá por algumas horas ou por milhares delas. Mas sei que um dia, lembrarei que dezenove reais e cinco centavos salvaram uma ou duas vidas. Por um ou dois mil acasos.
Poetry Portel
Enviado por Poetry Portel em 14/09/2018
Código do texto: T6448287
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Sobre o autor
Poetry Portel
Vitória - Espírito Santo - Brasil, 23 anos
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