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Aprendendo a brilhar

Você ainda lembra daquele adeus que mudou tudo para sempre? Uma vida que não era perfeita, mas era a única que eu conhecia. Tudo sempre fora tão diferente, e nisso havia magia.

Mas tal como o árduo treinamento pelo qual passa um aprendiz, até se tornar poderoso mago, os dias eram repletos de desafios. E estes requeriam bastante energia para completar os encantamentos. Meu esgotamento já era habitual.

O sol nascia cedo demais, mas antes mesmo eu já estava de pé. As horas voavam apressadas, enquanto alguns minutos custavam a se arrastar. As expectativas sempre foram tantas! Nunca houve espaço para erros. Com magia não se brinca! E, de fato, sobrava pouco tempo para brincar. Era o sol que de novo corria, dessa vez se apressando para descansar. Ele já era mago poderoso há milênios e todo dia realizava seu espetáculo, despedindo-se com um suave beijo nas águas do mar.

Enquanto ele aproveitava seu merecido descanso, eu me punha a estudar. Os livros de magia eram tantos, e havia tanto a praticar. Precisava estar pronta para o próximo dia, mais treinamentos, um constante se aprimorar. Mas os anos passavam e parecia que eu nunca estava pronta. Para que servia aquilo tudo? Eu jamais poderia competir com a sabedoria do sol. Mal sabia eu brilhar. Sempre esquecia parte desse feitiço. Enquanto ele já acordava com todo seu esplendor.

Ainda assim, eu seguia, um pouco a cada dia, tentando entender o que se faz com a magia. Até aquele adeus, lembra? Acho que nunca imaginei que ele fosse possível. Meu mundo era aquele, o da magia, mesmo que eu não entendesse todos os porquês.

Quando olhei para trás, soube que era a última vez que veria aquele lugar. De repente, minha já tão conhecida rotina se desfazia. Estava indo para um mundo completamente desconhecido e não fazia ideia do que iria encontrar por lá. Só tinha uma única certeza: já não havia espaço para não estar pronta.

Cheguei, então, nesse mundo novo. Mas ele me pareceu tão velho. Estava repleto de rostos cansados, corações amargurados, e, tenho certeza, sua paleta de cores era reduzida. Até o poderoso sol, que viajava entre os mundo, tinha lá seu brilho reduzido. Isso me preocupava mais ainda quanto ao meu, que nunca fora grandes coisas.

Perdida, eu sequer entendia porque havia ido parar lá. Já não bastava a humilhação diante do brilho do sol em meu antigo mundo? Talvez fosse uma espécie de castigo ter sido mandada para este mundo sem magia.

As interações, que sempre me foram raras, agora pareciam ser imprescindíveis. Eu ganhara um série de obrigações que pareciam extremamente desnecessárias. Até sentia falta das práticas repetitivas dos meus velhos encantamentos. Descobri que nesse mundo eles também estudavam, mas nunca entendi muito bem o que esperavam alcançar. Acho que nem eles mesmos sabiam.

Com o tempo, fui aprendendo a me misturar, mais ou menos, sempre ficava um pouco heterogênea. Era difícil diluir minha natureza vinda de outro lugar. Eu tentava falar de magia, mas ninguém entendia. Se a conheceram algum dia, trataram de a matar.

Quando era agraciada com solitude, ousava fazer pequenos truques. Queria preservar a magia pelo menos na memória, já que ela remetia a tão boas lembranças. Aqueles lampejos eram simplesmente mágicos, e não há outra palavra capaz de descrevê-los.

Mas que sentido fazia guardar essa magia só para mim? Tudo bem que não a reconhecessem, eu poderia usá-la discretamente para colorir um pouco aqui e ali. Quem sabe eu conseguisse até um sorriso, mas cuidei com as altas expectativas. Eles eram tão raros por lá.

Nitidamente, as reações foram olhares tortos, estranhos. Acho que estavam tão desacostumados com a beleza da vida que a magia lhes incomodava. Não queriam cores, não tinham tempo para sorrisos.

Naquele dia, chorei como nunca havia chorado antes. Era demais para meu coração ver a magia sendo rejeitada. E, com ela, o pouco de sentido que eu ainda conseguia enxergar. Falhara em meu próprio mundo a ponto de ser exilada. E, pelo visto, estava falhando outra vez.

Encolhida num canto, enquanto meu corpo ia perdendo a força e minhas lágrimas se esparramavam pelo chão, fui surpreendida: alguém se agachou até ficar com o rosto numa altura próxima ao meu. E sorriu. Disse-me, com empolgação: "Venha ver, venha ver! Há uma revoada de borboletas lá fora!"

Confusa, levantei-me e fui ver o que havia do outro lado da porta. Por um instante, eu podia jurar que se tratava de um portal que havia me levado de volta ao mundo da magia. O colorido das asas das borboletas, que pareciam executar formosa coreografia, encantou-me os olhos como há muito nada o fazia. Mas encanto maior foi ver que as pessoas também dançavam, sorriam, estavam extasiadas em meio àquele fenômeno que mais parecia fantasia.

Não seria sonho maluco meu? As pessoas já não caminhavam com pressa, sem tempo para enxergar ao seu redor. Não esbarravam nos outros sem sequer se desculpar. Haviam aprendido a olhar nos olhos uns dos outros. Haviam aprendido a compartilhar a alegria de um momento simples, a trocar sorrisos, sabiam até dançar no ritmo das borboletas!

No final daquele dia, enquanto coloria o céu em tons alaranjados, o majestoso sol falou comigo, pela primeira vez: "Agora você entende qual era sua missão? O poder do nosso brilho vem lá de dentro e nem sempre se manisfesta em forma de luz. O seu foi capaz de reacender uma chama que há muito fora apagada no coração dos que habitam este mundo. Mas, veja bem, a nós cabe plantar a semente e cultivá-la. Entretanto, não podemos escolher quando nascerão os frutos. Eles precisam do seu próprio tempo para amadurecer."

Ele continuou: "Você também foi regada com carinho, em cada desafio pelo qual passou. Sua terra foi adubada pelas experiências que vivenciou. Às vezes, pode parecer que a água é demais e vai lhe afogar. E o solo, ao ser revolvido, assemelha-se a um terremoto. Mas tudo isso é o que lhe torna forte o suficiente para, um dia, você brotar, crescer e frutificar. Hoje posso orgulhosamente afirmar: seus frutos são lindos! E seu brilho, maior do que você já ousou imaginar."
Dancker
Enviado por Dancker em 24/07/2020
Reeditado em 24/07/2020
Código do texto: T7014975
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Dancker
Blumenau - Santa Catarina - Brasil, 23 anos
317 textos (7339 leituras)
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