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Agora que me vejo (Experimentação) (Parte 1)

agora já estou cansado e nem ao menos sei dizer onde estou, pois tudo pesa. só sei que sinto areia nos meus pés; estou sentado sobre ela; as pernas recuadas formando um angulo de noventa graus com a areia. é fim de tarde, vejo no horizonte. as luzes alaranjadas do céu, um grande alvoroço de cores se fazendo, e o sol lá, descendente. olho para os lados: apenas areia, e algo que não se pode ver. não se pode ver. não se pode ver. isso ecoa na minha mente; lembranças, rememorios, passagens. tudo pesa. meu corpo velho pesa. quero falar dele, agora. estou velhíssimo, pareço ter uns cem anos. pareço ser meio infinito. e essa pele. pela deusa. essa pele ele amava. ele adorava se deitar e acariciar a MINHA PELE. essa que cai agora, essa confusa, deleitada, com células morrendo demasiado. quem é ele? bem, o nome dele é Rodrigo, se é que ainda vive. conhecemo-nos por uma amiga. à epoca sua namorada. estávamos ambos na universidade. sempre sonhadores, jovens, porque tudo era novíssimo, as nossas peles inclusive. tudo parecia dialética, vinha um e falava, o outro rebatia, por fim, tínhamos nada, éramos nada. sempre mesmices. fazíamos isso o dia todo, todo dia. era para nos afagar o ego pequeno-burguês, e também para revisar as matérias. nos reuniamos no auditório e pensávamos como as polonesas descobriram a história, como uma norte-americana falava de especificidades da história, mas não falava sobre história. li em algum momento da vida isso. falamos das partes, mas elas não representam o todo. clareando: sódio e cloro são constituentes do sal de cozinha e ambos são tóxicos, mas quando se unem para formar o sal de cozinha não são(Cloreto de sódio). Assim, voltando ao Rodrigo. A gente se conheceu assim. Nos círculos do discurso. Era complicado mas eu quase nunca falava. Deixava outros falarem e quando me perguntavam o que eu achava, eu sempre acenava com a cabeça que sim, sim, devemos radicalizar o meio; sim, devemos apropriarmo-nos do que vem de cima, oh, sim, a história? História-tempo. A luta? um homem em cima de um prédio, sóbrio, triste, angustiado. De repente o homem pula e todos se chocam. Ele está morto? Sim, está. Que pena, era sim um bom sujeito, bomhomem, sonhava em matar a esposa e os filhos porque não tinha dinheiro para as contas. Como alguém sonha com isso, meu Deus? Sonhava porque quando vê-se a frágil realidade, a miséria a fome, começamos a pensar em matar quem amamos, para poupar-los. Sim, tudo por amor. Rodrigo e sua namorada no outro canto da sala escutando um rapaz falar sobre uma Rússia em chamas. Depois de enjoar-me do discurso repetido por seis anos seguidos, me vejo procurando emoções nos rostos de todos no círculo-auditório. Todos como eu. Mas quando olho para Rodrigo e sua namorada, vejo que ele me encara. É preciso no olhar. Virava-me de costa para ver se não havia alguém atrás de mim que precisasse saber que estava sendo olhado. No final, quem precisava saber era eu. EU estava sendo olhado. Antes disso, a última vez que vi algúem me olhar tão fixadamente foi quando passava por uma rua escura, não me lembro onde nem quando. E de repente avistei uma mulher de cor sangue correndo em minha direção. meudeus que é isso? voltaram a matar os de cor? mas já fazia temp...? Ela berrou de onde estava:
São dias sombrios de abandono
são dias em que o sangue escorrerá
nas portas das casas
e uma carne barata será vendida
e todos que matarão, irão comer da carne da carne
e depois muitos dirão: a carne está podre meu deus
 
Olha, ágil, voraz, nasce da carne um levante
vê: mil hordas correndo pelas ruas desesperadas;
estátuas, pilares de manutenção caindo;
placas, pessoas;
Meu deus, mataram meu filho, meu deus a minhafamiliamorrendo. Ela vocíferava: meu deus mataram meu menino, tiraram a vida dele. Meu menino, meu único, ai meu deus por que escolheram meu menino? E chorava a coitada, chorava demais. Quando vi, estava perto de mim chorando. Os olhos abertos marejados. Um grande suspiro vinha dos pulmões fracos. Olhei para frente e observei que homens estavam caminhando em nossa direção. Apontaram a arma e atiraram. Todos os tiros nela. E estando perto, caiu sobre o meu corpo. A pescoço torto e sem vida com cabeça virada para cima. E acima a minha cabeça olhando para baixo. OS OLHOS DELA fixados em mim. Enxerguei muita dor por aqueles olhos lagrimados. Dor da perda, dor de ser indesejada, de estar sempre no obscuro, sempre subalterno. Quase que como num livro que achei no lixo. Abri em uma página qualquer e lá estava: "Quando estou na cidade tenho a impressão que estou na sala de visita com seus lustres de cristais, seus tapetes de veludos, almofadas de cetim. E quando estou na favela tenho a impressão que sou um objeto fora de uso, digno de estar num quarto de despejo.” Fiquei pensando que nunca, em toda minha vida senti aquelas dores. Já senti essa dor da perda, sim, mas nunca perdi tantos e de forma tão brutal. Já fui rejeitado sim, mas nunca por ser como sou. Nunca esqueci aqueles olhares. Enfim. Rodrigo me olhou assim, no entanto havia algo de diferente da forma como houvera sido olhado antes, entendem? Quero dizer. A situação toda era estranha. A sua namorada estava deitado sobre seu corpo. E ele beijava a cabeça dela, mas olhava para mim. Pensei que talvez estivesse enlouquecendo.Claro, porque na minha família muitos foram à locura. Na época em que viajamos para as planíces do Levante. Meu pai e minha mãe ajoalheram-se e falaram: Mestre, não sei viver sem esse sumo TEU. Mestre, não aguento mais acordar todos os dias e viver a angústia de existir. Mestre, por que tanta miséria, Mestre? Por que não desceram labaredas de fogo sobre os malditos? Mestre, por que existe o mal? E desde então viveram vegetando em frente ao sol. Como eu estou agora. Teso e sempre buscando detalhes da memória. Os olhares dele se repetiram por muitas vezes nas reuniões do Círculo. Até que, certa vez... Minhas deusas. Não pode ser verdade. ESSE DETALHE É ESTARRECEDOR. NÃO, NÃO. Calma, lembrei-me de uma coisa, uma coisa que me fez doer o peito, doer doer, dor, dor. Vou contar-lhes no decorrer. OH, uma certa vez Rodrigo veio falar comigo. Estava
Barroso Marcos
Enviado por Barroso Marcos em 01/07/2020
Código do texto: T6993373
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Sobre o autor
Barroso Marcos
Ananindeua - Pará - Brasil, 16 anos
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Barroso Marcos