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Naquela noite interrompida

Naquela noite monótona como todas as outras no sétimo sítio à esquerda da única estradinha de terra de Vale da Cachoeira um som nunca ouvido antes acordou todos os que sonhavam protegidos em seus quartos.
Naquela casinha humilde ao lado do galinheiro, do tanque e do terreiro de café vivia gente simples, simpática, que só queria viver a vida tranquilamente, sem incomodar ninguém.
Naquele lugar, onde tudo passava calmamente e as notícias levavam dias a chegar, nunca havia acontecido nada fora da rotina, era novidade o carro da polícia; só tinham visto algo parecido na televisão em preto e branco que raramente ligavam.
Naquele carro, uma luz vermelha e forte girava sem parar, tudo chamava atenção, era muito diferente, escandaloso demais comparado a tudo naquele sítio.
Naquele susto do momento, Jairo, o velhinho que morava com a mulher e as netas, pensou em gritar, mas não gritou, pensou em correr, mas não correu, congelou, transformou-se em uma simples estátua no meio do gramado do jardim.
Naquela situação embaraçosa, Carmem, mulher de Jairo desatou numa Ave-Maria, seguida das netas, trancafiada no quarto das meninas, protegida por pesados cobertores enquanto o marido, lá fora, gaguejava aos policiais perguntas sobre as motivações da visita tão inesperada.
 Naquela frieza dos policiais não havia o que pudesse ser feito, rendeu-se, mesmo sem saber que crime tinha cometido. Rendeu-se. Foi segurado pelos homens e levado para dentro da viatura. Nenhuma palavra proferida.
Naquele instante, Carmem tomou coragem, saiu de casa, correu, chegou ao carro e tentou dialogar, perguntar, defender, mas somente sua voz era ouvida, sua voz e o choro assustado das netas. Levariam Jairo para onde? Ninguém sabia. O carro começou a andar.
Naquele olhar derradeiro, uma lágrima atravessou a face de Jairo e outra a face de Carmem. Uma injustiça estava acontecendo, não sabiam por que. Teriam confundido Jairo com algum criminoso? Talvez.
Naquele silêncio enlouquecedor caminhou de volta para a casa, açoitada pelo vento gelado da madrugada. Não sabia o que explicar para as netas, nem para si mesma. Tentou dormir novamente e acordar daquele pesadelo. Tentou.
Naquela manhã, o sol nasceu de um jeito diferente.
Aluã Rosa
Enviado por Aluã Rosa em 02/12/2019
Reeditado em 02/12/2019
Código do texto: T6809202
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Sobre o autor
Aluã Rosa
Monte Alegre do Sul - São Paulo - Brasil
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Aluã Rosa