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CONSULTA AGENDADA

Indo ao medico, acompanhando a minha esposa para um exame das mamas, pude enfim, constatar esses fatos:

- tanta gente na fila, querendo receber um "trato", para viver mais um dia
_ tantos mortos, vagando nos corredores, carregando suas dores, se apoiando em agonia, desafiando as muletas...ou apostando corrida, em suas cadeiras vazias
_ tantas pernas fraturadas, engessadas...tanto reparo de fígado
- tantos vagantes de jalecos, vivendo sem solução...entre vivos, trombando nos mortos da vida.

E observo!

E me quedo em observar...e lamento...e passeio no corredor dos mortos, expostos na pedra fria.
E, choro por eles e... choro por mim, que os visito sem perceber.

Gente vestidas de branco, me sondam, como a procurar um diagnóstico pronto,
mas, não sabem que aqui me encontro, como acompanhante de alguém,
que veio tentar a sorte, se previnindo da morte.

Estou em frente a sala do raio X, numa fila que se estica, até à mamografia, destino de quem me duplo.
Por aqui, quase todo paciente passa, depois de passar pela prescrição médica.
Uns, só para observar a fratura, se houver ou não, ligadura, ou se precisa ligar.
Outros, nem sei porque passam.

Ainda observo!

E percebo que aqui dentro, de fato, nesse amontoado de gente,
que se olham indiferente e que conversam entre si...
um silêncio, que se esconde nos bolsos, nas bolsas...nas blusas,
que se acusa como diagnóstico de momento.
E logo entendo o motivo, ao olhar no quadro de aviso: "proibido uso do celular"!
Que maravilha!
O hospital, em parte, acaba sem perceber,
com a dependência da solidão;
é só ter uns ossos trincados e comparecer, logo ao lado, na sala do raio X.

Porém, o fato mais exato que constatei, e mais persistente,
é mesmo o de se ser "paciente":
saímos de casa às cinco da madrugada,
para ganharmos a estrada,
no ônibus da prefeitura,
que nos levaria ao hospital das clínicas,
já com consulta agendada, para o meio dia,
depois de uma breve viagem de 30 minutos, onde chegamos às 5:30.
Agora, é só ter paciência e esperar 7:00, por uma consulta que durará no máximo 20 minutos.
Mas, só poderemos voltar para casa, depois das 17:00,
é quando o ônibus retorna.

Haja saco, para acumular paciência!

Por isso lhes conto essa estória,
porque nem sempre morremos de doença...
às vezes é de tédio mesmo...

E às vezes, até matamos
e aproveitamos que já estamos no hospital
e imploramos um encaminhamento, para a área psiquiátrica.
Porque a vida, é mesmo essa loucura, que se vive em dependência.
lobo do cerrado
Enviado por lobo do cerrado em 17/10/2019
Código do texto: T6771744
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Sobre o autor
lobo do cerrado
São Luís - Maranhão - Brasil, 60 anos
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lobo do cerrado