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UMA ESTÓRIA ESQUECIDA

Na rua Euclides da Cunha,  245
morou um menino franzino que tinha por nome "Ventura".
Em frente à casa dele, também morava Rosinha!

A rua era tão estreita, que ao abrir a janela,
reluzia do outro lado,o brilho dos olhos dela.

Não  era uma rua cinza,não  era uma rua creme
nem tampouco,  amarela.
Era uma rua branca...dura,
que serpenteava, feito cobra no caminho
e morria no cemitério.

Ou será que começava?

Não sei, não lembro!

Era uma rua minha, minha e de Rosinha
e de mais ninguém.

Morava em minha casa uma manada de irmãos numa ninhada de filhos...
15, no total,
além de pai,
além de mães...
Muito além.

Em frente,  morava Rosinha,
que morava na cabeça minha!

A rua era tão estreita
que se alguém,  no seu início
sussurrasse um segredo
o sussurro serpenteava na rua,
de ouvido a ouvido,
até chegar onde tudo chega...
no cemitério.
Onde a rua terminava,
onde tudo se enterrava
ou tudo era renascido.

Porém,  além de Rosinha,
que reluzia num bom dia,
quando a janela se abria
e percorria meu além,
outras "Rosinhas" haviam,
que pulavam em minha janela
quando meus olhos sorriam:

Valderez, Carminha
Helena e Gal
e tambem a Dadinha.
Todas, porém, ficavam no meu além!

Haviam também outras mais
mas, não me lembro por hora.
Ficaram presas em meus olhos
e só viraram estória de um passado sem glória.

Só me sobrara "Rosinha"!

Na rua Euclides da Cunha,
no bairro do "Codozinho "
tem tanta estória esquisita
com tanta gente esquisitas
e suas esquisitices,
que pode parecer tolice
quando delas se conta,
mas, era notícia de ponta
digna de qualquer jornal,
de uma rua esquecida, estreita
que serpenteava na ladeira
e acabava como tudo...
No cemitério.

Ou será que renascia?

Ei-las:

Burunga e dianbeiro,

dois seres que perfaziam, cada um a sua estória
bem quando o vício da maconha explodia
e "qualhira" se aventurava...camuflava
e todo mundo sabia e nem existia armário.

Eliezer e Maria buraco,

os dois usavam o que tinham.
Ela, o buraco
ele, a tamboeira do milho.
No fim, todo buraco era preenchido.

Branca, mulher de walace,

filho de ex-combatente
que virou "saboeira"
enquanto ele assistia a guerra
se escondendo na trincheira
e se fazendo de morto,
enquanto a vida corria.
Era do bairro, a glória, um herói,
onde nem todos sabiam a sua real estória.

Gorilão, zé bigode, Colorzinho
Osmazinho, zé pedrada, peixe pedra...
Zé do zé

também trilhavam a estrada
por mim chamada de rua,
que começava não sei onde,
mas, que como tudo no mundo,
terminava no cemitério.

Isso eu sei!

Aprendi a andar de bicicleta
serpenteando em seu caminho,
me adentrava em seus becos,
ladeira do "quebra bunda"
mas, nunca em frente ao número 245
onde morava Rosinha;
uma estória minha vivida em fantasia,
sem ela sequer saber.

Maria sebosa e seboso,

também maravam por lá.
Tiveram Meire e Marquinho.
Meire caiu no mundo...fugiu da glória
de ser prostituta de bar.
Marquinho,  se apaixonou pela carroça e pela égua
e tomou o ofício do pai,
vendendo carvão, porta a porta...
A égua também gostou dele
e  já acostumada, se barranqueava para ele.

Haviam também outras estórias,
outra Meire (da mocinha),
irmã de "boca de solha".
Mas, essas não conto agora.

Cada um que por lá mora,
contam ou fazem ou as guardam para si,
assim como fez Rosinha,
que nunca falou de mim;
que  mesmo morando em frente
jamais conseguiu me ver,
do jeito que eu a via.

No número 245
do bairro do "codozinho ",
Na rua Euclides da Cunha,
que serpenteava,  feito cobra
e que acabava no cemitério...
Onde toda estória acaba,
onde deixei Rosinha,
quando a enterrei no peito,
no dia em que ela morreu...
Eu conto-vos  essas memórias.

Quem sabe um dia
eu tenha uma cova rasa,
no mesmo santo campo,
defronte da cova dela.

Sem poder abrir a janela,
sem poder lhe dar bom dia,
sem ver o brilho  em seus olhos;
perdido em uma rua sem nome ,
sem número...
No Largo do cemitério,
onde toda estória acaba,
onde Rosinha se revela
e eu morro mil vezes por ela,
mesmo sem ela saber...
No bairro do codozinho, feito um sussurro a caminho,
lançado no fim da rua, partindo do cemitério.




lobo do cerrado
Enviado por lobo do cerrado em 16/10/2019
Reeditado em 17/10/2019
Código do texto: T6770820
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre o autor
lobo do cerrado
São Luís - Maranhão - Brasil, 60 anos
260 textos (5672 leituras)
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