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Sinuca de Bico - A história de um exame proctológico

Biu estava de fato, numa sinuca de bico. Não digo no jogo, mas na vida real.
Na partida até que ia bem, enfrentando os parceiros de mesa de bar. Passou o giz na ponta do taco, e quando chegou à sua vez, encaçapou duas bolas uma seguida da outra. Comemorou, mas foi logo trazido à realidade novamente por Hugo.

- Pois eu te digo, meu amigo. Exame proctológico é a coisa mais constrangedora a que um homem pode se submeter.

Biu concordou com a cabeça e respondeu.
- Mas é uma questão de saúde, meu amigo.
- O negócio é você gostar. – Falou Hugo, o que causou a gargalhada dos presentes.
- Não tem esse perigo. -  Respondeu Biu, seriamente.
- Pois é verdade... Um terço dos homens goza na mesa do exame do toque. – Veio Leonardo com a cifra imoral...
- Um terço? De onde você tirou isso? – Perguntou Biu.
- É científico, meu amigo. Uma reação completamente involuntária. – Respondeu.
- Tá com medo, Mago? É só um dedinho. Você não vai virar veado se gozar com o doutor. Só não vale pedir pra repetir o exame. – Completou Hugo em tom de piada.
- Medo não, mas a ideia me incomoda.
- É só não ir, ora bolas. – Disse Leonardo, depois de encaçapar a bola branca.
- Veja só. A mulher já disse que vai suspender o sexo se eu não fizer esse exame.
- E você acha que ela falou sério?
- Parece que você não conhece minha mulher, Leo.
- Casou porque quis. Comeu a carne, agora rói o osso. – Finalizou Leonardo, encostando o taco na parede.

Biu deixou o taco em cima da mesa, pagou a conta, se despediu dos amigos e foi pra casa.
Deitou na cama com a mulher e tentou dormir, mesmo que sua cabeça não parasse de pensar na consulta no dia seguinte.
Teve pesadelos durante toda a noite, onde um médico com mãos deformadas e dedos enormes tentava lhe examinar o lugar onde o sol não toca.

Acordou com o despertador, empapado de suor e um pouco transtornado.
A mulher já havia se levantado e ele podia sentir o cheiro de café vindo da cozinha.
Tomou um banho, se vestiu e foi de encontro à esposa.
- Olha, minha filha. Eu não vou fazer esse exame.
A mulher que tinha acabado de mandar os filhos pra escola e já estava começando a preparar o almoço, largou os pratos na pia e se voltou pra Biu.
- Não vai porque, ora essa?
- Não vou porque não vou. É simples.
- Ora, mas você vai sim. É uma questão de saúde.
- É uma questão de saúde, mas não quero ninguém enfiando o dedo no meu rabo.
- Olhe, meu filho. Deixe de besteira. Depois você adoece e eu não quero criar três filhos sozinha. Prefere ter um câncer? Próstata não é brincadeira. Você pode até ficar impotente.
- Impotente?
- É. Se você não sabe eu tenho tio ficou impotente por causa disso. Teve que tirar a próstata, e hoje o pinto dele não sobe nem com reza braba.

Biu ficou pensando no assunto por um instante e concluiu que anos de impotência era um destino pior do que alguns minutos de humilhação. Decidiu-se por ir e até deu um beijo na mulher antes de sair.

Chegou ao consultório meia hora antes do horário marcado e foi direto à recepcionista. Queria terminar logo com aquilo pra poder seguir com sua vida, e se possível com a sua masculinidade intacta.

- Tenho uma consulta com o Doutor Lacerda.
- O RG, por favor.

Biu Entregou o documento de identidade à moça que estava atrás do computador e ela respondeu serenamente.

- Pode se sentar. Vamos chamar o senhor pelo nome quando chegar a sua vez.

Biu concordou com a cabeça e se sentou no salão, onde estavam outros cinco ou seis homens, igualmente constrangidos.
O tempo parecia se arrastar, mas logo a recepcionista chamou o primeiro nome, e um dos homens entrou no consultório médico. Saiu em menos de dez minutos, o que fez Biu pensar que para ele, o exame não tinha sido necessário.
Todos os outros que foram chamados, entraram e saíram num curto espaço de tempo, o que deixou Biu um pouco mais calmo. Talvez o resultado dos seus exames de sangue indicasse que ele não precisaria passar pelo constrangimento do toque retal.
O seu pensamento otimista foi interrompido quando a moça da recepção chamou o seu nome.

- Severino de Mendonça Rocha. Consultório 1.

Biu arregalou o olho, e se levantou, buscando manter a compostura.

Seguiu para a sala indicada, abriu a porta e viu um homem grisalho, vestido com um jaleco impecavelmente branco e que aparentava não ter mais de 30 anos. O médico até lhe lembrava o Tarcísio Meira na juventude de tão bem apessoado que era.

- Pode se sentar, senhor Severino. – Ele falou.

Biu se sentou de frente a mesinha do médico e lhe entregou os exames que havia feito antes.

O médico folheou os papéis e pareceu olhar repetidamente para alguns exames em particular.

- Quantos anos o senhor tem, Severino?
- Quarenta e um.
- Fuma?
- Não.
- Bebe?
- Ocasionalmente.
- Tem pressão alta? Diabetes?
- Não.
- Muito bem... muito bem. Olhe só. Pelo que tem nos seus exames aqui seria recomendado que nós fizéssemos o exame do toque. Mas é só por desencargo de consciência.
- É realmente necessário, doutor?
- Na sua idade é necessário que nós façamos um acompanhamento periódico. Fazendo o exame hoje, e estando tudo ok, o senhor só precisaria voltar aos cinquenta anos.
- Tudo bem doutor. Vamos acabar logo com isso.
- É só um exame, Severino. Você não vai deixar de ser homem por causa disso.
- Quero ver quando chegar a vez do senhor.

O médico deu uma risadinha de se levantou da cadeira onde estava sentado.

- Se deite na maca no fundo da sala e abaixe a calça. – Disse o Doutor Lacerda, enquanto calçava uma luva de borracha na mão direita.

Biu obedeceu, ansioso para acabar logo com toda aquela humilhação.

O exame foi rápido e Biu descobriu que não fazia parte do terço da população que Leonardo havia mencionado.

O médico se afastou da maca, descalçou a luva e a jogou no lixo.
- Pode vestir a roupa, Severino.
- Está tudo certo, Doutor?
- Sua próstata está plenamente saudável, Severino. Está tudo certo.

Biu se vestiu e sentou-se sobre a maca.

- Bem, agora você deve fazer o acompanhamento por exame de sangue a cada cinco anos, e outro toque só vai ser necessário quando o senhor tiver lá pelos cinquenta.

Biu juntou os exames que estavam sobre a mesinha e se despediu do médico.

Quando saiu da sala, percebeu que os outros pacientes na recepção pareciam apavorados como se fossem animais na fila do abate. A recepcionista chamou o próximo nome da lista, e Biu saiu apressadamente do consultório.

Quando chegou em casa, a esposa estava fumando um cigarro no quintal e não parecia nada apreensiva.

- Tudo certo? – Ela perguntou.
- Tudo certo.

Biu pegou a mulher pela mão e a levou para dentro da casa.

- O que foi, meu filho? – Ela lhe perguntou, agora, visivelmente ansiosa.
- Não foi nada. – Biu respondeu, antes de beijá-la, com o corpo preso contra a parede da sala.
Levantou o vestido da nega véia, e foi à forra ali mesmo, como se tivesse voltado à adolescência. A esposa terminou ofegante e visivelmente satisfeita, largada no sofá.
Biu seguiu para a cozinha e abriu uma cerveja, certo de que ainda tinha a sua masculinidade preservada.




Rômulo Maciel de Moraes Filho
Enviado por Rômulo Maciel de Moraes Filho em 14/08/2019
Reeditado em 14/08/2019
Código do texto: T6720192
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Sobre o autor
Rômulo Maciel de Moraes Filho
Recife - Pernambuco - Brasil, 33 anos
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Rômulo Maciel de Moraes Filho