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O Homem e o Corvo

     Aquela ave negra me visitava todas as tardes, sempre pousando no mesmo lugar próximo a janela da varanda e espalhando pelo ambiente o seu baixo e grave crocitar, que no início preenchia o ambiente como uma boa melodia. E como um grande estudioso, claro que eu sempre tive um fascínio além do normal por certos animais e seus mistérios, minha obsessão pela ciência da natureza me trouxe até aqui, uma casa simples de madeira no meio de um bosque, no final de um caminho de pedras, que eu chamo de lar. Longe de tudo, aproveito então para fazer as minhas próprias experiências científicas com os seres selvagens que eu caço, já consegui fazer mutações e cirurgias inacreditáveis em alguns animais. Existem muitos mistérios que rodeiam a vida e que eu sinto uma necessidade enorme de desvendar, talvez por vaidade, eu confesso.
         Sempre me contentei com a minha própria companhia... A ideia de me casar, ter filhos e participar de uma sociedade nunca fez sentido para mim, e eu não entendia o porquê das pessoas buscarem esse estilo de vida ao invés da solidão da natureza; assim como eu também não entendia o porque do retorno daquele corvo diariamente. Ao longo dos dias algo no corvo começou a me incomodar. Talvez seu olhar fixo e frio direto em meus olhos como se, de alguma forma racional, ele me observasse. Sua estadia foi ficando cada vez mais longa. E eu digo que vasculhei de todas as formas o local onde a ave sempre descansava de seu voo a ponto de tirar as madeiras do lugar e de inspecionar durante noites inteiras para tentar desvendar o mistério. Nada, não havia nada de atraente ali e mesmo assim ela continuava voltando todas as tardes, e zombando de mim com seu olhos de vidro. E assim foi durante várias semanas, uma após a outra, e a cada dia ficava mais insuportável. Seu crocitar se tornou mais parecido com uma voz humana, que dizia sem parar dentro da minha mente frases de invocação e de conhecimento metafísico em diversas línguas, e seu olhar, mais terrível do que nunca, cheio de zombarias e desprezo. Cheguei a passar tardes e noites inteiras no bosque como um louco, um covarde disposto a abandonar toda a sua vida e seus estudos tão aprofundados simplesmente porque um corvo macabro tinha desenvolvido conhecimentos filosóficos que eu jamais conseguiria entender, ainda que muito tentasse. Por fim, me convenci de que o corvo não era somente uma ave, e sim um conjunto de átomos que abrigava uma identidade completamente evoluída, que detinha conhecimentos ocultos que certamente eu invejava. Certa tarde, eu decidi segui-lo. O acompanhei apressadamente pelo caminho de pedras, sem me importar com a escuridão e com o vento gelado que confundiam meus sentidos. Não sei por quanto tempo andei em círculos enquanto a ave sobrevoava acima de mim e proferia incessantemente palavras incompreensíveis, que sacudiam cada célula do meu corpo. Horas se passaram e os sons do bosque se tornaram ameaçadores, e o vento, cortante. Minhas pernas doloridas não mais eram capazes de me manter em pé. Observei o corvo, que agora se encontrava pousado em um galho alto de uma árvore próxima e crocitava como uma ave qualquer. Enquanto me aproximava dele, amaldiçoei  a mim mesmo por ter sucumbido ao delírio. Quando cheguei perto o suficiente de seu rosto e ouvi sua respiração, o amaldiçoei também, encarando de volta seu olhar gelado. Subitamente, percebi que o mundo tornou-se silencioso e que eu estava encarando a mim mesmo.
Do galho alto de uma árvore, vi quando aquele que antes era eu, sorriu e caminhou em direção a estrada de pedras.
Anne Flumine
Enviado por Anne Flumine em 11/01/2020
Reeditado em 13/01/2020
Código do texto: T6839194
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Anne Flumine
Viana - Espírito Santo - Brasil, 20 anos
13 textos (412 leituras)
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Anne Flumine