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Um Conto Para Mulheres - Capítulo XXV

O casal aproveitou minha generosidade e minha falta de experiência e pelo fato de eu estar em um país estrangeiro e passando pelas necessidades que eu já deixei claro para o meu leitor, para, imaginem, roubar-me o meu imóvel. Esse é o termo apropriado. Através de um contrato manipulado por eles, sem que me desse conta, fizeram com que eu assinasse um termo de venda da propriedade, camuflando-o por trás do contrato de aluguel. E eu caí como um pássaro sem asas em sua gambelada. Com toda a frieza do mundo e sem um pingo de vergonha pelo ato desumano, mostrou-me o documento que eu assinara inocentemente, com firma reconhecida, portanto legalizado e autenticado dentro da lei. Dei-me por totalmente perdida enquanto contemplava aqueles papéis, tentando encontrar, no fundo do meu espírito um resto de esperança em recuperar o que parecia totalmente irrecuperável.

Estava diante de um homem malicioso, que não media estratégias para ludibriar os menos astuciosos. Como se isto não bastasse, o que me deixou realmente aniquilada fora o fim para o qual o sujeito utilizou o imóvel, tendo como cúmplice sua esposa não menos macabra. Dizer que ele trabalhava com o turismo não está totalmente errado, só que o turismo a que me refiro é o sexual, onde meninas jovens e atraentes, principalmente brasileiras eram atraídas pelo sonho do dinheiro fácil e do glamour parisiense. Meu ambiente fora transformado em um disfarçado bordel do mais alto luxo em que não faltavam o requinte e a discrição. Continuou tendo o aspecto de uma moradia de alto luxo. Evitava-se o movimento excessivo de entrada e saída de automóveis, o que se dava mais no meio da noite. Funcionava mais como envio de garotas aos turistas interessados e apenas uma ou duas vezes na semana havia reuniões especiais com um intercâmbio bem mais amiúde.

A desfaçatez em sua forma de falar comigo encheram-me de ódio por aquele homem, ódio que eu tentava disfarçar, mas que parecia evidente em minhas colocações. Ele era um homem frio e calculista e sua esposa o apoiava em todas as suas tramoias. Falamo-nos por telefone assim que desembarquei em Paris e para entrar no que era, ou fora, minha própria casa tive que marcar hora com aquele sujeito. Foi quando fiquei sabendo de seu sujo golpe. Quando me mostrou o documento que eu, inocentemente, havia assinado, dei como perdida minha propriedade.

- Como teve a coragem de fazer isso comigo? - disse num tom de revolta e desespero.

- Minha cara, nunca ouviu dizer que o mundo é dos vivos? Dei a você um belo dinheiro e a chance de viajar para onde vinha desejando. Creio que tenha sido muito feliz durante todo esse período, não é verdade? Por que não me agradece por isso?

- Agradecer!? Por ter me usurpado minha própria casa? Confiei em suas palavras. Fizemos um acordo de aluguel temporário do imóvel para que eu pudesse viajar e o senhor alavancar o seu negócio turístico. Vejo agora o quanto fui ludibriada! É desta forma imunda então que está ganhando dinheiro? Vejo agora o tipo de pessoa com quem tratei e o quão patife foi.

Sua esposa estava presente e ouvia, sem interferir na conversa, mas por seus gestos faciais vi que instigava o marido a não aceitar nenhum de meus argumentos. Mostrou-se particularmente contrariada com as palavras duras com que eu me dirigia a ele.

- Veja lá como fala comigo, mocinha! Se acha que tem direito a alguma coisa aqui então recorra à justiça. Quem poderá constatar que este imóvel agora não me pertence legalmente?  Provam os documentos e é isso o que conta perante a lei.

- Isto não vai terminar assim de forma alguma. Esta casa é minha e tudo o que se encontra em seu interior; o senhor sabe muito bem disso. Como pôde ter essa coragem? Vocês não passam de vermes, não têm escrúpulos, vivem para extorquir as pessoas. Tenho pena daqueles que trabalham para vocês, especialmente as meninas que caíram e que ainda vão cair em suas mãos. São sujos, não merecem a mínima consideração.

Eu já estava ao ponto de desabar em choro, mas me contive. Não queria demonstrar fraqueza diante da situação, por isso mantive minha postura e meu orgulho. Em suas fisionomias eu via a vermelhidão da ira causada por minhas palavras duras e verdadeiras. Por momentos tive medo do que aqueles dois poderiam planejar contra mim.

Vi-me desamparada e impotente. Nossa conversa seguiu ainda por um bom tempo e eu não baixava a guarda nem procurava poupá-los da minha ira. Por mais que ele procurasse palavras ou explicações para seu ato abjeto não as encontrava e o que restavam eram os meus ataques verbais e minhas promessas de me vingar do mal que me haviam causado. A mulher já não se continha de impaciência e, vez ou outra entrava na conversa com o objetivo de proteger o marido das minhas acusações. Porém, como ele, não obtinha sucesso. Houve um ponto da conversação em que deixei quase implícita a minha dificuldade financeira e que viajara na certeza de concretizar a segunda parte do acordo e que era com o dinheiro da transação que eu tocaria a minha vida na França. Que, caso o aluguel perdurasse eu precisaria, com esse dinheiro encontrar um novo imóvel para que, pelo tempo que fosse necessário, eu me instalasse sem maiores preocupações.

Foi quando ouvi dele a insinuação de que poderia me aceitar para trabalho e, se era dinheiro o problema, eu não precisaria inquietar-me. Perguntei que tipo de trabalho ele teria para mim. Foi quando percebi-o olhando-me de cima abaixo e entendi prontamente o que ele me estava sugerindo. Encarei-o durante algum tempo sem encontrar palavras. Na verdade, minha surpresa não foi das maiores dado ao teor da situação. Só poderia mesmo esperar dele este tipo de proposta. Eu poderia, em função da gana que me dominava, ter rechaçado sua proposta com as mais duras palavras, do jeito que já vinha fazendo, mas não o fiz.

 De repente em minha mente vagou um pensamento de que poderia estar ali a oportunidade de desmascará-lo e reaver minha propriedade. Como eu faria isto eu ainda não tinha a mais vaga ideia. Sendo assim, pedi-lhe um tempo para pensar, dando a entender que realmente eu precisava de dinheiro e que estava, na atual conjuntura, dependente dele e de sua compreensão, já que, por sua culpa eu me encontrava naquela situação inesperada. Disfarçadamente e a poder de grande força de vontade, mudei o modo de me expressar, procurando deixar de lado as palavras ásperas e acusativas. Pedi que me deixasse andar pela casa e aleguei que teria necessidade de alguns objetos e que precisaria transportá-los no devido tempo para minha nova casa.

Ele não se opôs, mas explicou-me que, dado as alterações que precisou fazer, todas as minhas coisas pessoais se encontravam agora em um cômodo do segundo andar e que eu poderia levá-las assim que me aprouvesse. Deixei o local com a mente ainda abalada pelo ocorrido, mas, ao mesmo tempo com a sensação de que, se eu soubesse agir com paciência e inteligência, tudo poderia ter um fim próximo do que eu desejava.

Andar pela casa, minha principal preocupação era com as obras de arte, fruto de muito tempo e investimento por parte do meu falecido marido. Havia uma fortuna em quadros, vasos e muitos outros objetos. Foi mesmo minha intuição que me levou a excluí-las do contrato. Elas eram um patrimônio à parte e não poderiam, por nenhuma hipótese ser removidas da mansão. Constava dos termos um acordo pessoal entre nós dois e, para isso assinamos um documento em separado. Por constituirem um patrimônio de alto valor, procurei fazer, ao elaborar os termos contratuais, com que não valesse a pena para ele sequer tocá-las se não quisesse sofrer enorme prejuízo. Constatei que fizera realmente a coisa certa. Elas estavam todas intactas e em perfeito estado, do jeito que eu as havia deixado.

Eu havia recebido muito dinheiro como adiantamento de um ano de aluguel do imóvel. 150 mil dólares é muito mais do que eu precisaria para gastar em um ano, mesmo tendo ajudado e dado muito conforto à minha família. Poderia, se quisesse e por direito, retirar um daqueles objetos de arte e conseguir facilmente mais algumas dezenas ou até centenas de milhares de dólares com ele, mas não o faria. Além de não precisar eu pressentia que teriam, em minha vida uma função especial, como ficarão sabendo até o final da leitura.
Professor Edgard Santos
Enviado por Professor Edgard Santos em 09/11/2019
Reeditado em 09/11/2019
Código do texto: T6790691
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Professor Edgard Santos
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil
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Professor Edgard Santos