Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

Um Conto Para Mulheres - capítulo XXIV

Envolta pela dúvida do que fazer com meus bens, especialmente minha valiosa propriedade, acabei por acatar a ideia de uma de minhas melhores amigas. Minhas amizades nunca foram em grande número e é devido a esse meu gênio cauteloso e desconfiado que ajo assim; por ser sincera e dedicar afeto e atenção quando gosto de alguém.
Comprei sua ideia, que me pareceu muito razoável e vantajosa na situação em que eu me encontrava. Ela me apresentou a um casal de brasileiros, dono de uma pousada na praia de Nice bem atrás da rua onde eu morava. Minha casa ficava no quarteirão de esquina a uma das vias de acesso à praia, portanto local ideal para investimento na área turística. O casal esbanjava simpatia e boas maneiras e, por sermos conterrâneos, o clima de amizade se instalou rapidamente, o que facilitou a negociação.

A proposta era a seguinte: ao saberem-me brasileira, dona de uma bela propriedade em local privilegiado e entendedora do negócio deles, não tiveram dificuldade em me convencer, já que eu não desejava vender o imóvel, mas ganhar dinheiro com ele. Eu o alugaria pelo período inicial de um ano com tudo que havia nele ao valor de 12 mil dólares mensais. Me adiantariam 144 mil dólares, correspondentes a um ano de aluguel para que eu pudesse deixar Paris e voltar ao Brasil temporariamente parar rever meus entes queridos. Quanto a esse particular, mesmo sem tê-lo mencionado, já eram conhecedor. Por ter achado a proposta além de generosa não pude evitar a curiosidade de perguntar para que finalidade utilizariam o imóvel. Alegaram que a localidade era ideal para o fim que eles tinham em mente e como os negócios iam de vento em popa e sua casa atual já não mais atendia à demanda turística que só fazia crescer, não queriam abrir mão daquela oportunidade. Asseguraram que tudo seria feito dentro dos trâmites da lei de imóveis e que, em nada eu precisava me preocupar.

Parti, assim para o Brasil, ávida de reencontrar meus familiares queridos. Eu não cabia em mim de contentamento. Parece que havia feito um excelente negócio, muito acima das minhas expectativas. Mal sabia eu que estava se iniciando ali um dos períodos mais negros que eu deveria passar como mulher. A experiência muito me enriqueceu como pessoa, mas confesso que não foi fácil resistir a tantas atribulações.  Antes, porém, quero relatar o maravilhoso período de felicidade que vivi no Brasil ao lado de mamãe, meu filho e meus irmãos. Uma notícia que me pegou de surpresa, dado ao desencontro entre eu e a correspondência que me fora enviada, foi a separação de mamãe. Não nego que uma boa dose de alívio perpassou meu coração, embora não tenha deixado de pesar a dor que devia estar suportando em função desse acontecimento. Ao saber em seguida que fora traição o motivo do desenlace, liguei o caso ao típico comportamento do meu padrasto. Parece que eu pressentia que, mais cedo ou mais tarde ela seria vítima daquele sujeito despudorado. Isto encheu-me de coragem e eu não titubeei em relatar tudo porque havia passado em suas mãos e, consequentemente, o verdadeiro motivo de eu ter abandonado o nosso lar. Foram momentos de grande emoção que ambas dividimos.

 Choramos juntas; envolvemo-nos em beijos e abraços, e juntamos, à saudade que nos castigava, a dor recíproca e a esperança de um futuro tão ou mais feliz do que haviam sido os primeiros anos da nossa criação. Quanto ao meu filho, o fato de vê-lo, tocá-lo e sabê-lo em perfeito estado de saúde encheu-me de alegria. Tive receio de sua rejeição devido aos anos afastada de sua educação, carente de meus carinhos e de minha presença. Constatei, todavia, o grande amor de mamãe, ao vê-lo feliz e muito receptivo para comigo. Ela soube, como ninguém, prepará-lo para o meu retorno, como soube usar de toda sua experiência, criando-o como eu nunca saberia faze-lo.
 
Mas, apesar de toda minha felicidade, o destino me reservava duras experiências. Por mais que eu desejasse perenizar os momentos de paz e harmonia que estava vivendo, aquele não era mais o meu mundo.  Jamais conseguiria me readaptar a uma vida simples, resumida no convívio com familiares, o que era muito bom, mas estava-me corroendo por dentro a falta de aventuras, de correr pelo mundo e conhecer coisas novas, onde o trivial e a pasmaceira não encontram simpatizantes. Estava por se completar o período de um ano que fora o prazo para eu me afastar da minha mansão e eu me via, também na necessidade de obter mais dinheiro. Para isso, precisava retornar a Paris e renovar o contrato de aluguel. Em lá chegando, porém, a decepção foi bem maior do que a satisfação em rever aquela cidade. Só posso descrever o que vi como fruto de uma mente maquiavélica, que não mede estratégias para enganar os menos astuciosos. Toda aquela conversa que ouvira a respeito de investimento turístico não passava de um argumento para se apoderar da minha mansão. E de uma forma covarde para a qual eu não encontro adjetivos.
Professor Edgard Santos
Enviado por Professor Edgard Santos em 07/11/2019
Código do texto: T6789477
Classificação de conteúdo: seguro

Comentários

Sobre o autor
Professor Edgard Santos
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil
1075 textos (88895 leituras)
3 e-livros (135 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 24/01/20 07:12)
Professor Edgard Santos