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Uma receita, pela sua vida! (Parte I)

       Observando a paisagem que passava rapidamente pela janela do carro, lá estava eu: uma mulher como qualquer outra. Bom, pra ser mais sincera, digamos um pouco acima do peso. Mas isso é relevante. Continuando, lá estava eu, uma trabalhadora, dona de casa, mãe de duas lindas crianças e casada com ótimo esposo. Estava observando a paisagem e refletindo em tudo o que tinha acontecido no decorrer da semana. Estava refletindo sobre o ser humano em geral, inclusive, sobre mim mesma. "Como somos tão frágeis e indefesos?" Pensava eu. "Basta estarmos bem, para estarmos mal. Nós não podemos prever o que pode acontecer daqui cinco minutos. Nós apenas, sabemos o que poderá acontecer, mas o que realmente vai acontecer, não sabemos."
__ Senhorita Kellen, chegamos. Onde você quer que eu estacione? __ Levei um susto quando ouvi a pergunta do taxista. Estava tão reflexiva na vida, que nem percebi que eu já tinha chegado ao meu destino.
__ Pode parar ali na frente mesmo. __ Disse à ele apontando na direção de um prédio bem bonito. Ele estacionou e antes que ele me falasse o valor da corrida, eu já estava com o cartão de crédito na mão para entregá-lo. Percebi que ele ficou surpreso e um pouco incomodado.
__ Só um instante. Vou pegar minha máquina de cartões.
Logo, eu percebi que ele não queria isso. Estava claro e óbvio. Nenhum taxista gosta de ser pago com cartões.
__ Não precisa, não precisa! Eu tenho dinheiro aqui na minha bolsa.
Olhei para o taxímetro para ver o valor da corrida e comecei a pegar o dinheiro na minha bolsa. Percebi que a fisionomia do homem tinha mudado também. Peguei o dinheiro e entreguei à ele.
__ Pode ficar com o troco, senhor! __ Disse eu, sorrindo pra ele.
__ Muito obrigado senhorita Kellen. Muito nobre de sua parte. __ Eu assenti. Abri a porta do carro e antes de fechá-la, olhei se tinha deixado algo para trás. Procurei toda delicadeza para fechar a porta do táxi, como se fosse meu carro. Despedi do taxista e fui caminhando em direção a portaria do prédio.
       Não sei o que você deve estar imaginando. Primeiro, por ser um táxi. Sim, um táxi. Os serviços de viagem por aplicativo tem ganhado muito espaço nos dias de hoje e tem ótimos preços. Segundo, por eu preferir pagar a corrida em dinheiro e não em cartão de crédito só pelo fato de eu ver o rosto do taxista. E, terceiro, por eu ter delicadeza ao fechar a porta do táxi. Atualmente, as pessoas não costumam fazer esse tipo de coisa, a começar pelo serviço de táxi, que é mais caro. Depois, por querer pagar as coisas da maneira que é mais viável e da maneira que mais convém para elas. Afinal de contas, todo taxista é obrigado a ter uma máquina de cartão dentro do veículo e não pode recusar cartões. E também, por não se importar em fechar ou bater a porta do carro.
       Realmente, não vou saber o que você pensa sobre isso. Mas a questão é que, eu também pensava e agia dessas maneiras. Não costumava pensar no próximo. É difícil de admitir, mas, é verdade. Mas, depois de tudo que passei no decorrer da semana...
       Passei pela porta do prédio e fui logo direto para recepção.
__ Bom dia. Vim para consulta com a psicóloga Dra. Elizabeth Silva, no sétimo andar.
__ Bom dia __ Disse a recepcionista para mim, com um sorriso radiante.__ Por favor, a sua identidade para eu fazer seu registro de entrada no prédio.
__ Claro. ___ Abri minha bolsa rapidamente e entreguei a ela meu documento. Ela fez os procedimentos e em seguida pediu para eu subir. Fui caminhando até o elevador.
       Logo, já estava eu no sétimo andar. Fui em direção a porta da doutora que, por incrível que pareça, antes de eu bater ela abriu. Parece que já estava me esperando.
__ Bom dia Kellen, como está? __ Perguntou a doutora, esticando sua mão para me cumprimentar e com um sorriso no rosto.
__ Bom dia Dra., estou caminhando, como nós conversamos na última consulta. __ Respondi, esticando minha mão para cumprimentá-la.
       Ao entrar no seu consultório, me sentei e procurei uma forma bem confortável para começar a terapia. Ela fechou a porta, e assentou em sua cadeira.
__ Fico contente que você quis voltar ainda nessa semana, Kellen.
__ Sim, também fico. Quero superar isso logo!
__ Você vai superar. Mas lembre-se de dar tempo ao tempo, uma coisa de cada vez, como conversamos pela última vez.
__ Sim, eu sei disso Dra. Mas é complicado. __ Eu falei isso olhando para o teto e observando o ventilador girando e girando.
__ Sei como você se sente. O que aconteceu com você foi algo que vai marcar muito a sua vida. Mas, claro, não somente para causar frustração e medo. Posso dizer que você pode usar isso para crescer como pessoa e se tornar mais forte.
__ Eu acredito que já estou me sentindo bem melhor depois da nossa primeira conversa. Posso dizer também que melhorei muito como pessoa também, depois do que passei. __ Eu já estava toda confortável. Por incrível que pareça, era minha segunda consulta de terapia e eu já me sentia a vontade. A Dra. Elizabeth consegue passar uma sensação de segurança e conforto.
__ Que ótimo Kellen.__ Disse ela sorrindo. Logo em seguida pegou alguns papéis com algumas anotações e voltou a falar. __ Na nossa primeira consulta, você não conseguiu se abrir muito bem. É comum. Não se assuste. Hoje, se você também não conseguir, está tudo bem!
       Na minha primeira consulta, eu estava ainda em estado de choque, as únicas coisas que consegui mencionar pra ela foi meu nome, minha data de nascimento e alguns fatos do terror que eu passei no início da semana. Ela pegou o papel que se referia a mim e começou a falar de novo.
__ Vamos lá. Pelo que eu me lembro, você disse que se sentiu horrível e com muito medo de morrer. Tanto você, como sua família.
__ Sim! Eu espero que nunca mais isso aconteça, Dra.
__ Com certeza Kellen. Você se sente confortável o suficiente hoje para tentar trazer algo mais sobre o que ocorreu com você?
__ Acho que sim. Isso que me aconteceu me deixou bastante reflexiva sobre a vida e o modo de viver. __ Ela assentiu com o rosto demonstrando grande empatia por mim.
__ Então? Vamos continuar? Conte-me os detalhes do que aconteceu. Se você não conseguir ou começar a sentir-se incomodada, está tudo bem. Você está caminhando. __ Ao me falar isso, ela deu uma piscada pra mim e sorriu.
__ Acho que hoje, vou conseguir lhe falar mais abertamente.
       Eu procurei um jeito mais confortável na poltrona para começar. Percebi que ela também fez o mesmo em sua cadeira para me ouvir. Ela pegou a caneta e o papel e olhou atenciosamente para mim. Então, eu comecei a contar os detalhes.
__ Tudo começou na segunda feira... __ eu respirei fundo __ Como você sabe, sou uma farmacêutica. Cheguei na farmácia em torno de umas sete da manhã e encontrei com meus colegas de trabalho.
       A medida que eu ia falando, tudo começou a voltar na minha mente. Tudo o que tinha me ocorrido. Era como se eu estivesse novamente no mesmo lugar. O consultório, a poltrona e a Dra. Elizabeth simplesmente pareciam ter desaparecido. Então, comecei a lembrar de tudo novamente.
__ Ei Kellen, bom dia!__ disse Gabriel, o operador de caixa da farmácia. Eu não me lembro se respondi. Peguei as chaves da farmácia e já comecei a destrancar a porta principal.
__ Ei Kellen, como está hoje? __ disse Mariana, a balconista. Eu percebi uma ironia na maneira que ela tinha falado. Olhei para ela e respondi:
__ Bem! __ voltei de novo a me concentrar na fechadura da porta.
__ Está lembrada da folga que você me prometeu nessa semana não é mesmo? __ falou ela de novo e dessa vez, com um tom mais forte de ironia. Mais uma vez me virei para ela.
__ Não estou. Que tal começar a abrir as outras portas da farmácia? Aí nós conversaremos sobre sua possível folga! __ percebi que Gabriel ficou sem graça com minha resposta e Mariana nada satisfeita. Depois de abrir a porta principal, entreguei à ela as chaves para abrir as outras portas e em seguida entrei com Gabriel.
       Começamos a organizar a loja. Várias coisas pra fazer ao mesmo tempo. Ligar computadores, abrir caixas, ajeitar cadeiras e etc. Nada fora do comum. Abri o caixa de Gabriel e pedi à ele para verificar se o valor estava correto.
__ Depois de você verificar, me dê um sinal para eu liberar a entrada dos clientes Gabriel. __ disse a ele fazendo três coisas ao mesmo tempo. Mal escutei a resposta dele. Percebi que já tinha alguns clientes na porta esperando. Passando alguns instantes, ouvi um "Ok Kellen" bem distante.
__ MARIANA! __ gritei bem alto para a balconista. Ela entendeu o grito e, logo, já estava deixando os clientes entrar e já tomando seu posto para atendê-los.
       Era como se fosse códigos. Gritos, piscadinhas, sinais com os lábios, assobios... Diante de tanta correria, nós costumávamos a nos comunicar dessas maneiras dentro da farmácia. E lá estava eu, fazendo mil coisas ao mesmo tempo como uma boa gerente farmacêutica: contando depósitos, analisando planilhas, verificando medicamentos, montando escalas de funcionários, arrumando espaço para outros medicamentos, verificando metas, coçando a cabeça e tomando meu café. Nessas horas, acho que eu nem sei quem eu sou. Estava eu nas minhas tarefas quando ouvi meu nome:
__ Kellen!__ Mariana estava precisando de minha presença. Assim que olhei, ela fez um sinal com os lábios. Isso significava "cliente chorão". Eu parei o que estava fazendo, revirei meus olhos, respirei bem fundo e fui. Quando cheguei, vi que era uma cliente já avançada em dias. Uma idosa.
__ Em que posso ajudar, minha senhora? __ perguntei à ela olhando em volta da farmácia quantos clientes tinham e se tudo estava indo nos conformes. Percebi que Gabriel estava mexendo no celular. Isso me irritou profundamente. Quando ele olhou pra mim, lancei meu olhar de "para com isso ou vai ganhar uma advertência e um soco".
__ Minha querida, você é a farmacêutica? __ perguntou-me a senhora. Eu passei a mão por todo meu jaleco e dei dois tapinhas na parte em que estava escrito "farmacêutica".
__ Ahh sim! Não tinha reparado. __ disse a senhora novamente, sorrindo.
__ Em que posso ser útil?
__ Estou precisando desse medicamento. __ ela levantou a caixa do medicamento, sendo que eu já tinha visto o medicamento. __ Eu sou cliente de vocês a muito tempo. Sempre procuro comprar nessa rede, mas acontece que eu achei mais barato na concorrente ali em baixo na avenida.
       Enquanto ela falava, eu olhei novamente em volta da farmácia para ver a situação. Mais clientes estavam entrando, Gabriel entendeu meu olhar e não havia mais celular na mão, Mariana já estava atendendo a outro cliente e um medicamento estava sem preço.
__ Não tem problema minha senhora. Vou lhe dar o desconto __ olhei novamente para a senhora, que ficou bem contente com minha resposta. Enquanto ela já estava andando em direção ao caixa, gritei:
__ GABRIEL!!! F-15 __ isso significava "cliente chorão com desconto autorizado".
       Comecei a atender também. Estava se formando uma fila. E eu não gosto de filas. Acho que a maioria dos gerentes não gostam de ver filas em suas lojas. Fila significa pra mim atraso. Atraso, significa cliente impaciente. Cliente impaciente significa ir embora e comprar na concorrência. Ir embora e comprar na concorrência significa venda perdida. Venda perdida significa o risco de não bater a meta. Não bater a meta significa meu supervisor me cobrando o por quê não batemos a meta. Isso é nada legal!
__ Onde está Monica que não chegou até agora?__ perguntei a Mariana que já estava atendendo dois clientes de uma vez.
__ Deve estar chegando por aí! Kellen, esse senhor precisa de uma orientação pra medicamento. __ Mariana apontou para o homem e fez sinal para ele ir até onde eu estava. Era um senhor com cabelo branco.
__ Bom dia, Kellen! __ esse era aquele tipo de cliente que gosta de chamar o funcionário pelo nome.
__ Bom dia, em que posso ajudá-lo?__ nesse momento, comecei a atender dois clientes ao mesmo tempo também. Nessas horas, eu realmente não sei mais quem eu sou, onde estou e muito menos o que eu estava fazendo.
__ Bom dia Kellen, desculpa o atraso. O trânsito estava muito engarrafado. Pode deixar, eu atendo ele pra você. __ Monica acabara de chegar e já estava com a mão na massa. Assenti ao que ela disse, dei a orientação do medicamento ao senhor e olhei novamente o ambiente, para certificar se estava tudo bem e tranquilizar minha consciência.
__ Gente, estou nos fundos. Qualquer coisa, me chamem. Monica, por favor, está faltando um preço naquele medicamento __ apontei meu dedo em direção ao medicamento__ coloque o preço por favor!
       Voltei de novo as minhas tarefas. Quando estava bem focada, ouvi um grito vindo do caixa:
__ KELLEN! F-7 __ era Gabriel. Isso significava "suprimento". Provavelmente, ele estava sem troco no caixa. Respirei fundo mais uma vez e fui direto ao cofre, peguei uma quantia razoável e com muitas moedas para evitar que isso se repita de novo no dia. Entreguei à ele o dinheiro e perguntei:
__ Você tem minha senha para fazer o suprimento, certo? __ ele assentiu. __ Ótimo. E cuidado com esse celular, estou de olho! Quando terminar esse fluxo de cliente, por favor, verifique se tem algum produto sem preço na loja. Se tiver, coloque o preço! Estou nos fundos. Tchau!
       Não sei se ele disse alguma coisa pois eu saí bem depressa, para voltar ao que eu estava tentando fazer. Aproveitei e abri o email da gerência para me certificar se tinha alguma pendência. Não tinha. Ainda. Mais cedo ou mais tarde, teria. Voltei de novo às minhas tarefas quando ouço mais uma vez meu nome:
__ KELLEN! __ era Monica. O que poderia ser dessa vez? Monica passou os dedos pelo seu nariz. Isso significa "Cliente com receita suspeita". Eu revirei meu olho, respirei bem mais fundo dessa vez e fui. Esses tipos de clientes são os mais complicados. Além de suas receitas serem falsificadas, acham que estão com a razão e querem levar o medicamento a todo custo.
       Foi aí que tudo começou. Quando cheguei, era um homem alto, um físico forte e estava de óculos escuros. Em anos trabalhando em farmácia, nunca me aconteceu o que estaria por vir.
__ Em que posso ser útil, senhor?
__ Quero este medicamento! __ ele disse em um tom ríspido. Eu comecei a analisar a receita dele. Era bem suspeita. Primeiramente, o carimbo do CRM do suposto médico era muito estranho. Eu me lembro de cada número. Era "010101". Que tipo de CRM é esse? Outra coisa que analisei, era a assinatura do tal médico. Era apenas um risco. Sim, um risco. Que tipo de assinatura é essa? A data da receita também estava suspeita. Parecia estar rasurada.
       Segundo a Anvisa, qualquer farmácia pode vender medicamentos tarjados com ou sem receita, menos antibióticos, psicotrópicos e anticonvulsivos. E na receita desse homem, era um medicamento controlado, que podia ser vendido apenas com receita. Mas era óbvio que a receita desse sujeito era falsa.
__ Senhor, eu lamento, mas não poderei liberar seu medicamento!
__ Por que?
__ A sua receita não está conforme os padrões estabelecidos pela lei. Sinto muito. __ ao terminar de dizer isso, eu já estava retornando para minhas tarefas quando ele disse:
__ Isso é um absurdo! Volta aqui agora! __ ele falou com um tom de voz alterado. Não gostei do tom que ele usou. Quem ele pensa que é pra falar assim comigo?
__ O que é um absurdo, senhor Maurício? __ eu li o nome dele na receita. Disse isso olhando fixamente para o rosto dele. Uma coisa que aprendi em anos de trabalho foi não demonstrar fraqueza nessas horas. Porém, eu não sabia o que me esperava depois! Percebi que alguns clientes estavam começando a olhar a cena.
__ A minha receita está conforme aos padrões da lei. Eu exijo meu medicamento AGORA! __ ele alterou bruscamente o tom de voz.
__ Olha, são quase oito horas da manhã. Nós acabamos de abrir. Por favor, seja mais educado. Estamos aqui para trabalhar e fazer nosso serviço bem feito. Então, abaixe seu tom de voz. Não sou paga para tolerar essas coisas. Eu não vou vender esse medicamento para você! Entendeu? __ fixei mais ainda meus olhos no rosto dele. Todos os clientes já estavam olhando. Ele tirou seus óculos escuros suavemente e sorriu. Os olhos dele eram verdes.
__ Realmente, não há motivos para escândalos aqui, muito menos, ninguém precisa morrer por causa disso. Eu apenas quero meu medicamento. __ enquanto dizia isso, ele se aproximava mais do balcão até ficar cara a cara comigo __ Eu sei que você vai lá dentro, vai buscar meu medicamento e vai me deixar ir. Você tem razão! Me perdoe o modo que usei para falar com você, Kellen!
       Aquele sujeito sabia meu nome. Isso era estranho, pois, ele não estava na hora em que meus funcionários gritaram meu nome. E também, eu não estava usando meu crachá. Ele também não era um cliente que sempre estava por ali, comprando.  Nunca tinha visto esse homem na minha vida. E acreditem, preferia que tivesse continuado assim. Os problemas estavam apenas começando.
__ Eu já disse. Não vou vender isso pra você. A sua receita é falsa!
__ Como é?
__ A sua receita é falsa!
__ Você está me acusando de fraudar uma receita?
__ Sim!
__ Você sabia que posso processar você e essa espelunca por além de me negar o medicamento, dizer calunias ao meu respeito?
__ Você pode fazer o que quiser!
__ Que você acha de eu acionar a polícia agora?
       Quando ele mencionou polícia, me deu uma sensação de prazer. Eu ia usar isso contra ele. Mas, na verdade, eu não sabia onde eu estava me metendo.
__ Ah! Você quer chamar a polícia? Ótima ideia! Eu mesma posso chamar, se você quiser. Afinal, eles podem te explicar de um jeito mais fácil sobre essa sua receita falsa. __ eu disse isso pegando a receita dele e abanando em frente ao rosto dele. Ele ficou parado por um momento. e depois colocou o óculos escuro. Sua fisionomia tinha mudado bruscamente. Depois, começou a sorrir de novo.
__ Não vai ser preciso. Vou te dar a última chance. Por que não me vender o medicamento? Acho que ninguém vai MORRER por causa disso. Ou vai, Kellen?
       Ele falou tudo isso bem calmo. Eu pude perceber um tom de ameaça na voz dele. Principalmente quando ele citou "morrer". Nessa hora, a farmácia não estava tão movimentada como anteriormente. Ele continuou me encarando e eu também continuei encarando ele, para não demonstrar fraqueza.
__ Kellen, eu vou lá buscar o medicamento dele. Não precisa de tanto estardalhaço por causa disso! __ disse Mariana, colocando suas mãos sobre meu ombro e dando uns pequenos apertos. Naquele dia eu não sabia o que isso poderia significar. Mas, depois... Ah! Depois! Foi um erro não ter deixado Mariana ter buscado o medicamento.
__ NÃO! __ fitei os olhos nela com minha sobrancelha levantada. __ Nós não somos obrigadas a vender medicamento com receita falsa. Você vai pegar é nada pra ele.
       Eu me virei de novo e encarei o sujeito novamente.
__ Aqui está a sua receita. __ joguei a receita dele sobre o balcão __ Não vou vender esse medicamento pra você, é a última vez que lhe digo isso. Se você quiser, vá tentar em outra farmácia. Menos nessa! Você entendeu, Maurício?
       Ele ficou parado por alguns segundos, sem dizer nada. Pegou a receita, guardou ela no bolso e começou a caminhar até a porta. Mas ele parou no meio do caminho e, sem olhar para trás, começou a falar:
__ Você está cometendo um grande erro! __ Ao dizer isso, saiu finalmente da farmácia.
       Gabriel saiu do caixa e veio nos acudir.
__ Gente, que cara sem noção!
__ Cara esquisito, isso sim! Tudo isso por causa de um medicamento? E olha que a receita dele estava na cara que era falsa. __ disse Monica, indo colocar o preço no produto que eu tinha lhe pedido anteriormente.
__ O que deu em você Kellen? Esse homem não te causou medo? __ indagou-me Mariana.
__ Claro que não. Isso deve ser um desses pilantras que gosta de comprar coisas falsificadas. __ eu disse isso, mas por dentro, ele tinha me causado medo sim. Só não queria demonstrar isso para o pessoal. Mas o pior estava por vir. Uma receita por várias vidas!
__ Bom, gente! __ falei isso batendo palmas __ Vamos voltar ao trabalho! Há muita coisa para fazer.
       E voltamos de novo ao trabalho. De repente, me dei conta que estava dentro do consultório da Dra. Elizabeth. Comecei a olhar para os lados e depois olhei para ela. Ela estava séria, e tinha anotado vários pontos do que eu relatei, pelo que eu percebi. De repente, me veio uma sensação de pânico e eu não pude conter. Comecei a chorar.
__ Kellen... __ Elizabeth levantou e me abraçou __ Calma, está tudo bem! Acabou. Hoje, fizemos um grande progresso. Você conseguiu se abrir mais sobre o que aconteceu.
__ Sim. Estou me sentindo aliviada. __ eu peguei um lenço que estava a minha disposição e comecei a limpar minhas lágrimas.
__ Você quer continuar na próxima terapia?
__ Sim. Obrigada! __ realmente eu já não estava mais querendo ficar ali e relembrar tudo de novo.
__ Fica calma e tranquila. Vamos marcar para amanhã? Ou semana que vem? A propósito, você está afastada, certo? Que dia termina seu atestado médico?
__ Daqui onze dias.
__ Ótimo. Vamos usar esses onze dias para você se recuperar, se acalmar e se preparar para voltar! Como eu disse, dê tempo ao tempo. Uma coisa de cada vez. Você fez um progresso incrível hoje, diante da nossa primeira consulta. __ ela sorriu pra mim.
__ Obrigada mais uma vez Dra.
__ Não precisa agradecer!
__ Vou olhar o dia que posso voltar e ligo pra você para marcar, certo?
__ Certo! Vou esperar sua ligação. Nossa, nem lhe ofereci um copo d'água. Me perdoe Kellen... __ ela começou a passar coçar seu couro cabeludo. Acho que isso é universal e todos sabem. Significa "Nossa, e agora?"
__ Está tudo bem Dra.. O que você está fazendo por mim já é o suficiente. __ eu me levantei da poltrona e peguei minha bolsa.
       Ela me acompanhou até a porta e me deu outro abraço.
__ Qualquer coisa que você precisar, Kellen, entra em contato comigo. Certo?
__ Certo Dra.. Mais uma vez, agradeço. Bom, então, até semana que vem?
__ Até semana que vem! __ ela estendeu a mão pra mim. Eu também estendi e fizemos um aperto de mão. Me despedi dela e fui em direção ao elevador.
       Semana que vem, eu teria que voltar. Quando entrei no elevador, respirei fundo e comecei de novo a refletir sobre as coisas. Eu comecei a pensar nos meus filhos, meu marido, minha família, minha vida... Eu só quero chegar logo em casa e poder abraçá-los. Vou me preparando para próxima consulta com a Dra. Elizabeth. Não vai ser fácil ter que relembrar tudo o que passei.
       Passei pela recepção, despedi da recepcionista e saí do prédio. Pensei no dinheiro que havia gasto com o serviço do táxi. Peguei meu celular e fiquei na dúvida se usaria o serviço do aplicativo ou se usaria o táxi. Nessa hora, me deu uma sensação de medo e insegurança mais uma vez. Comecei a pensar que o motorista do aplicativo poderia ser o Maurício, o cliente da receita falsa. Ou então, alguém pior do que ele. Fiquei com medo também do táxi. Quais seriam as intenções do motorista? Pensei em ir embora de ônibus. Mas também tive medo. E se durante a viagem houvesse um assalto?
       De novo, me veio uma vontade de chorar. Eu me acalmei, comecei a respirar fundo e tentei não pensar nesses pensamentos negativos. Enquanto isso acontecia, ouvi uma buzina e uma voz chamando pelo meu nome:
__ Senhorita Kellen? Ainda está aqui? __ era o mesmo taxista que me trouxe para a consulta. Fiquei surpresa.
__ Eu é que lhe pergunto. O senhor ainda por aqui?
        Ele começou a rir.
__ Eu peguei uma passageira no centro da cidade que, por coincidência, veio para este prédio também. E parece que justamente na hora em que você está saindo. Você vai voltar pra casa agora?
__ Sim! Que ótimo o senhor ter aparecido. Muito bom mesmo. __ Eu sorri e já fui caminhando em direção ao táxi.
__ Dessa vez, vou te dar um desconto, senhorita Kellen.
__ Oh, fico agradecida mas, não precisa! Eu quero lhe pagar o valor exato!
__ Você vem aqui constante?
       Antes de eu responder a pergunta, olhei para o prédio e disse:
__ Bom... Acho que eu virei aqui ainda muitas vezes, para ser mais exata!
__ Então, vamos combinar um preço fixo, o que acha? Eu levo você e te busco. Basta me telefonar.
__ Amei a ideia! __ Sim, eu amei de verdade a ideia. __ Negócio fechado.
       Eu entrei no táxi bem satisfeita! Mas ainda não sabia o nome daquele senhor tão simpático.
__ Me perdoe, o senhor sabe meu nome mas eu não sei o seu! __ Ele deu mais uma risada.
__ Meu nome é Wanderlei. Mas todos me chamam de Wander!
__ Ok, senhor Wander! Temos um acordo! Semana que vem, virei novamente aqui. O senhor estará disponível?
__ Claro que sim, senhorita Kellen! Vou lhe dar meu cartão assim que chegarmos na sua casa.
__ Muito obrigada! __ Olhei para o vidro novamente, e comecei a prestar atenção na paisagem novamente. Me veio uma sensação boa. Uma sensação de segurança. Mal posso esperar pra voltar a próxima consulta com a Dra. Elizabeth!
       
Leo Veiga
Enviado por Leo Veiga em 04/10/2019
Código do texto: T6760733
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Leo Veiga
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