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A Mulher do Texas

Ainda não eram nove horas da manhã quando o meu voo vindo de Palmas – TO, pousara naquele aeroporto. Mesmo sabendo que eu deveria passar um dia inteiro. Uma noite inteira. E a metade de outro dia esperando para embarcar no meu voo internacional, eu não me sentia assim tão desanimada. Ao contrário, estava até bem disposta para tanto tempo de espera.

Se alguém é observador, estando nos aeroportos, acaba notando muitas coisas legais, e estranhas também. Eu não sou muito observadora, mas quando alguma coisa ou alguém me chama a atenção, acabo descobrindo particularidades interessantes.

Desta vez, ali sentada no saguão do aeroporto aguardando o tempo passar até chegar o dia seguinte, percebi uma senhora idosa, magra e aparentemente frágil, caminhando meio encurvada (devia ter uns sessenta e poucos anos), entrar com um carrinho de ferro de rodinhas, cheio de coisas. Nele havia uma mala, uma caixa de papelão, e uma caixa plástica de transporte animal, com um gatinho dentro. Portava em uma das mãos, outra caixa de transporte animal plástica com um cãozinho de olhar cabisbaixo. Ambos os animais pareciam estar acostumados com aquela condição. Temporariamente ou não, era ali dentro que eles estavam vivendo, em caixas de transporte animal.

Aquela mulher sentou bem próximo de onde eu estava e, abrindo umas latinhas, começou a alimentar o bichano e o cãozinho, dando a eles colheradas de ração. E os animais comiam bem, pareciam realmente acostumados àquela vida, sabe!

Passado algum tempo a mulher começou a conversar comigo, falava do seu voo para o Texas, que seria no dia seguinte às 17h. – Meu Deus! Fiquei ainda mais confusa – para o Texas?! Pensei comigo – o que ela vai fazer no Texas?! – não aguentei a curiosidade e perguntei por que ela iria para o Texas. Ela então me disse que morava lá há muitos anos, numa zona rural, onde tinha uma fazenda. Falou também que vinha sempre a São Paulo porque tinha família nesta cidade. – Mas como? – pensei comigo – se ela tem parentes em São Paulo, porque não tem algum deles aqui lhe fazendo companhia?! - Eu não acreditei muito naquela história de ela morar no Texas, e questionei qual cidade do Texas ficava mais próxima desta “fazenda” onde ela vivia. Sabe o que aconteceu? Ela me desconversou, mudou de assunto, falou que o seu cãozinho era muito doce, e adorava a ração que ela dava para ele. Não respondeu a minha pergunta. Depois silenciou-se. Claro que achei muito estranho, ver aquela senhora com aqueles animais dentro do aeroporto. Até por que, os animais deveriam ser embarcados separadamente no voo... Bom, de qualquer forma, ainda faltava um dia e uma noite inteira para o embarque dela, daria tempo de ela embarcar seus animais – pensei.

Depois desta conversa fui dar uma volta pelo aeroporto, fui observar lojas, pessoas, e aviões pousando e decolando. Descobri que tenho paixão pela aviação, pena que só descobri isso agora, há pouco tempo, e já passei da idade de entrar numa escola de aviação. Mesmo assim me pego muitas vezes imaginando, como deve ser emocionante pilotar um Boing 737, ou mesmo, pilotar um daqueles A29 Super Tucano da Esquadrilha da Fumaça, fazer acrobacias no céu, deixar rastros e formas variadas com as fumaças coloridas... É fato que, descobrimos que gostamos de algumas coisas quando já é tarde demais para realiza-las. O gosto pela aviação é uma destas minhas descobertas.

O dia se passou tranquilo e sem muita novidade, demorou bastante para o sol se pôr, claro, pois quando se está vivendo uma espera, o tempo parece passar mais demoradamente do que o normal. Você olha várias vezes para o relógio e ele parece ter preguiça de mover seus ponteiros, tudo em torno parece estar se movendo mais lentamente.

Os quiosques começaram a fechar, e eu pensei – puxa vida, é meia noite! Graças a Deus! – então voltei para o lugar de antes, onde se faz o embarque dos voos internacionais. Eu percebi que a mulher do Texas ainda estava lá com os seus animais. Desta vez parecia estar cochilando, enquanto o seu gato e o seu cachorro também tiravam suas sonecas deitados dentro de suas caixinhas plásticas de transporte animal. Confesso que, olhando a fragilidade daquela senhora ali dormindo encurvada no banco, e mal posicionada, eu senti uma pena danada! É triste ver uma pessoa idosa vivendo uma situação de desconforto, porque todas as pessoas em sua velhice merecem viver uma vida confortável, pois a vida já é dura demais para quem tem a força da juventude, agora imagine para quem já está com idade avançada, quando todo o corpo sente o peso do tempo, e as pernas já não se sustentam mais como antes.

Após algumas horas acabei tirando um cochilo também, e quando acordei, já eram 5h da manhã. Havia mais movimento no saguão. Pessoas iam e viam empurrando os seus carrinhos, acho que, assim como eu, estavam ansiosas para embarcar o mais depressa possível. Ninguém gosta de esperar. A espera desalinha o nosso relógio biológico, ela promove uma lentidão dentro da mente enquanto os pensamentos sentem sede de movimento rápido. Peguei o meu carrinho com a minha mala e fui lavar o meu rosto amassado, e meus olhos fundos com olheiras, resultado da noite desconfortável que eu havia passado. Depois fui até a praça de alimentação para tomar um café. Eu precisava despertar a minha mente e o meu corpo, pois ainda teria a maior parte do dia para esperar até o momento do meu embarque.

Tomei o meu café, dei umas longas voltas pelo aeroporto, depois voltei a sentar no saguão de embarque do voo internacional. Aquela senhora ainda estava lá, da mesma forma que chegara no dia anterior. Desta vez, conversava com um passageiro que também esperava o seu voo. Ele, assim como eu, lhe perguntava para onde estava indo. De onde eu estava sentada, pude ouvir bem a conversa deles. O passageiro lhe instruíra a ir retirar a licença sanitária para o embarque de seus animais para o Texas (ela havia dito também a ele que estava embarcando para o Texas). E ela, seguindo suas instruções, saiu, portando seus animais com uma caixa em cada mão, e deixando seus pertences, dizendo que iria resolver isso. Pediu para que o passageiro, que só iria embarcar depois das 17h, vigiasse as coisas que estava deixando. Então, como ela havia dito que o voo dela decolaria às 17h, aquele passageiro se responsabilizou em ficar vigiando sua mala até que ela resolvesse o problema que tinha em mãos, o embarque de seus animais.

Demorou muito para que ela voltasse, e o passageiro descobrira, conversando com um dos seguranças do aeroporto, que aquela senhora, era uma moradora de rua, e tinha alguns problemas mentais também... Eu, que também ouvi o segurança revelando isso, fiquei com um semblante de espanto. – Que tristeza isso! – pensei – mas ela falava do seu Texas com tanta convicção que, em algum momento eu também acreditei que ela realmente estava indo para o Texas! Mas não, aquela senhora não tinha lar, ela vivia pelas ruas, becos, praças, rodoviárias e aeroportos, como tantos outros que vemos por ai, sem um lar. O que terá acontecido em sua juventude? –pensei – porque não existe ninguém por ela? Que escolhas ela teria feito em sua juventude que a levara a viver aquele resultado de vida? Talvez tenha vivido de sonhos impossíveis durante anos e anos de sua vida, enquanto sua idade foi se avançando, os anos foram se tornando pesados demais para ela realizar algum deles. Agora ela tinha apenas a companhia de seu cão e de seu gato...

Percebi na história daquela mulher um grau de imprudência consigo mesma em suas escolhas. Porque a vida não nos dá nada de graça, temos que construir o que queremos ter, que queremos vivenciar. Não dá para viver somente de sonhos e de esperanças, de projetos idealizados. É preciso escolher o terreno, levantar o alicerce, e construir os nossos sonhos enquanto temos a força da juventude a nosso favor. Porque depois disso, só nos restará um corpo cansado e uma mente frágil. É nessa hora que vamos precisar do conforto de um lar e do aconchego das amizades verdadeiras que construímos na vida. Digo isso, porque o acolhimento nem sempre vem da família, e sim, de quem verdadeiramente nos quer bem. Família é quem conquistamos. Quem nos quer bem. Quem abre os braços para nos aconchegar, nos fazendo sentir a nossa importância. Eu tenho visto muitas pessoas serem acolhidos por boas almas que não trazem nas veias o mesmo sangue. É como diz aquele ditado popular, “quem tem um amigo, tem um tesouro”.  Não podemos ser ranzinzas com as pessoas, ser mal educados, ser fechados demais, pois isto nos afasta de todas elas. E entre estas pessoas que afastamos de nós com o nosso comportamento ranzinza, podem estar aquelas que teriam todo o gosto em cuidar de nós em nossa velhice e em nossas fragilidades. Aquela senhora do aeroporto não tinha nem mesmo um amigo para lhe dar um lar confortável, e para ajuda-la a tratar de sua saúde.

Quando saí para o meu embarque, a senhora do Texas já tinha voltado, mas ninguém ali a especulou mais sobre o seu embarque, porque todos já sabiam a verdade sobre ela. Uma coisa é certa, o Texas tinha alguma importância em sua história de vida. Alguma coisa que não tínhamos conhecimento estava na memória dela. Talvez um amor de juventude, uma grande paixão por alguém deste lugar. Ou mesmo, talvez o sonho de viver no Texas a tenha levado a memoriza-lo. Ou quem sabe, em sua juventude ela tenha assistido a muitos filmes famosos de Faroeste, daqueles filmados no Texas, e estas se tornaram suas melhores memórias dos anos passados. Talvez, agora, ela viva destas memórias.
ROZILDA EUZEBIO COSTA
Enviado por ROZILDA EUZEBIO COSTA em 18/03/2018
Código do texto: T6283556
Classificação de conteúdo: seguro


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Sobre a autora
ROZILDA EUZEBIO COSTA
Araguaína - Tocantins - Brasil
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ROZILDA EUZEBIO COSTA